
Divulgação/Paramount
Walter Koenig, o Chekov de Jornada nas Estrelas, morre aos 90 anos
Ator interpretou o navegador russo da Enterprise na série clássica e em sete filmes, além de marcar a sci-fi como vilão de “Babylon 5”
Ator morre aos 90 anos
Walter Koenig, conhecido por interpretar o oficial Pavel Chekov na série clássica “Jornada nas Estrelas” (Star Trek) e em sete filmes da franquia, morreu no domingo (25/10), aos 90 anos, em sua residência em North Hollywood, Los Angeles, nos Estados Unidos. O falecimento foi confirmado nesta segunda-feira (26/10) por seu representante Zachery McGinnis, que atribuiu a morte a causas naturais relacionadas à idade. O ator estava acompanhado da filha Danielle e de uma sobrinha nos últimos momentos de vida.
O começo da carreira
Walter Marvin Koenig nasceu em Chicago em 14 de setembro de 1936, filho de imigrantes judeus originários da região da Lituânia. Sua família se mudou para Nova York durante a infância, e ele cresceu em contato com o sotaque dos pais, que mais tarde serviria de inspiração para a voz característica de Chekov.
Antes de se tornar ator, estudou psicologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), onde concluiu a graduação em 1958. Uma disciplina de interpretação despertou seu interesse pelo teatro, e ele decidiu continuar a formação na escola Neighborhood Playhouse, em Nova York. Nos anos seguintes, passou a atuar em peças e conseguiu pequenos papéis na televisão, incluindo uma participação em “The Lieutenant”, série produzida por Gene Roddenberry antes de “Jornada nas Estrelas”.
O jovem russo da Enterprise
Koenig entrou para a história da televisão em 1967, quando foi escalado para interpretar Pavel Andreievich Chekov, o jovem navegador russo da nave Enterprise, comandada pelo capitão James T. Kirk (William Shatner). O personagem apareceu a partir da 2ª temporada de “Jornada nas Estrelas”, criada por Gene Roddenberry, e se tornou um dos integrantes mais conhecidos da tripulação, ao lado de Spock (Leonard Nimoy), Uhura (Nichelle Nichols), Sulu (George Takei), Dr. McCoy (DeForest Kelley) e o engenheiro Scotty (James Doohan).
A presença de um russo na ponte de comando de uma nave americana tinha significado particular em plena Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética disputavam influência política, militar e espacial. Na ficção de Roddenberry, ambientada num futuro em que a humanidade havia superado muitas de suas divisões, Chekov era um colega de confiança dos americanos, japoneses e outros povos representados pela Federação dos Planetas Unidos.
Seu patriotismo exagerado também produzia algumas das piadas da série, especialmente quando reivindicava para a Rússia a invenção de praticamente qualquer coisa.
Por que Chekov foi criado?
A origem do personagem era menos política do que parecia. Os produtores procuravam um ator jovem que atraísse adolescentes, particularmente as fãs dos Monkees, grupo musical que fazia sucesso na televisão americana. Koenig recebeu uma peruca com penteado inspirado em Davy Jones, um dos integrantes da banda, e ganhou um personagem brincalhão que contrastava com a postura mais séria dos outros oficiais da Enterprise.
“Gostavam do cabelo, que nem era de verdade”, recordou o ator numa entrevista à revista “Star Trek Explorer”, publicada em 2024. Koenig contou que a intenção era conquistar espectadores entre oito e 14 anos e que sua nacionalidade fictícia não provocou resistência significativa entre os fãs americanos, apesar das tensões políticas daquele período.
A série original foi cancelada em 1969, depois de três temporadas, mas ganhou uma nova vida com as reprises na televisão. O crescimento da comunidade de fãs transformou uma produção de audiência inicialmente limitada em um fenômeno cultural, com convenções, livros, produtos e campanhas que acabaram levando a tripulação original de volta às telas.
Sete filmes e uma despedida da Enterprise
Koenig retomou o papel em “Jornada nas Estrelas: O Filme” (1979), dirigido por Robert Wise, e continuou a interpretar Chekov ao longo da série cinematográfica. Sua participação ganhou importância em “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan” (1982), quando o personagem integra a tripulação da nave Reliant e acaba sob o controle do vilão Khan, interpretado por Ricardo Montalban.
O ator também participou de “Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock” (1984), “Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa” (1986), “Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira” (1989) e “Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida” (1991). O último desses filmes encerrou a trajetória da tripulação original com uma história de aproximação entre a Federação e o Império Klingon, inspirada nas transformações políticas que marcaram o fim da Guerra Fria.
Sua última aparição física como Chekov no cinema aconteceu em “Jornada nas Estrelas – Generations” (1994). No filme, o personagem participa da viagem inaugural de uma nova Enterprise ao lado de Kirk e Scotty, numa passagem de bastão entre a equipe clássica e os personagens de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”.
Quase três décadas depois, Koenig voltou à franquia de maneira simbólica. Em 2023, emprestou sua voz ao presidente Anton Chekov, filho de seu personagem original, em “Star Trek: Picard”. O nome Anton foi escolhido como homenagem a Anton Yelchin, que interpretou o navegador russo nos filmes mais recentes da franquia, morto aos 27 anos num acidente em 2016.
A vida após Star Trek
Embora a franquia “Star Trek” tenha garantido sua fama, Koenig encontrou dificuldades para construir uma carreira fora da franquia. O ator admitiu em entrevistas que a associação com Chekov limitou suas oportunidades profissionais depois do cancelamento da série. Diante da escassez de convites, passou a escrever roteiros para televisão, com trabalhos em produções como “O Incrível Hulk” e “Family”.
Sua trajetória também incluiu trabalhos como professor de interpretação e autor de livros. Em 1980, publicou “Chekov’s Enterprise”, relato dos bastidores da produção cinematográfica da franquia. Na década seguinte, lançou a série de quadrinhos “Raver” (1993) e escreveu a autobiografia “Warped Factors: A Neurotic’s Guide to the Universe” (1998), na qual examinou as contradições de uma carreira marcada pelo sucesso de Chekov.
A outra sci-fi clássica de sua carreira
A grande oportunidade de interpretar um novo personagem marcante surgiu na década de 1990, quando foi escalado para viver Alfred Bester em “Babylon 5”. Na série criada por J. Michael Straczynski, Koenig interpretou um integrante da Psi Corps, organização responsável pelo controle de pessoas com poderes telepáticos. Bester era um antagonista manipulador, autoritário e ameaçador, capaz de perseguir seus adversários sem demonstrar remorso.
O papel se tornou uma das participações mais importantes de sua carreira depois de “Jornada nas Estrelas”. Em entrevista ao site TrekCore em 2012, Koenig afirmou que Bester oferecia possibilidades dramáticas que nunca encontrara em Chekov. O vilão possuía conflitos e motivações próprios, enquanto o navegador da Enterprise frequentemente servia apenas para transmitir informações necessárias à história.
O ator reconhecia que a popularidade da franquia de Roddenberry havia possibilitado sua carreira, mas considerava Bester artisticamente mais desafiador. A interpretação também lhe apresentou uma nova geração de admiradores. Em uma visita à Rússia, descobriu que alguns fãs o conheciam mais por “Babylon 5” do que por “Jornada nas Estrelas”, que havia chegado ao país em horários de pouca audiência.
Sua contribuição para a cultura pop foi reconhecida em 2012, quando recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, diante de colegas de elenco e fãs que acompanharam sua carreira desde os anos 1960.
Tragédia familiar e amizade com George Takei
O ator foi casado por 57 anos com a atriz Judy Levitt, de 1965 até a morte dela em 2022. O casal teve dois filhos, Danielle e Andrew. O filho também seguiu carreira como ator e ficou conhecido pelo papel de Richard “Boner” Stabone na série de comédia “Tudo em Família” (“Growing Pains”). Andrew morreu em 2010, aos 41 anos, após cometer suicídio em Vancouver, no Canadá, tragédia que mobilizou a família e os colegas de elenco do pai.
Entre as amizades que manteve ao longo da vida, uma das mais próximas foi a de George Takei, intérprete do oficial Hikaru Sulu em “Jornada nas Estrelas”. Os dois se conheceram durante as gravações da série original e preservaram o vínculo por quase seis décadas. Koenig foi padrinho do casamento de Takei com Brad Altman, em 2008.
O colega lamentou sua morte numa publicação nesta segunda-feira. “Meu coração está pesado. Walter Koenig, nosso alferes Pavel Chekov, morreu”, escreveu Takei. “Walter e eu nos conhecemos na ponte da Enterprise nos anos 1960 e continuamos amigos por quase seis décadas”.
Takei lembrou ainda uma coincidência que sempre teve significado especial para os dois: o aniversário de Koenig, em 14 de setembro, era a mesma data de seu casamento com Altman. Em 2026, enquanto o ator completava 90 anos, o casal celebrava 18 anos de união.
“Walter era muito mais do que Chekov. Era escritor, professor, um homem atencioso e um amigo leal”, declarou. “Aos fãs que o amaram por tantos anos, obrigado. Ele também amava vocês”.
