
YouTube/Calma Urgente
Wagner Moura acusa Flávio Bolsonaro de complô com os EUA para saquear o Brasil
Em novo episódio de "Revelando", ator relaciona interesse americano pelas terras raras brasileiras às articulações da família Bolsonaro com Trump
Wagner Moura denuncia complô contra o Brasil
Wagner Moura acusou Flávio Bolsonaro (PL) e seus aliados de participarem de um “complô para saquear o Brasil” em benefício dos Estados Unidos. A declaração abre “Pátria Submissa”, 6º episódio da série jornalística “Revelando”, lançado nesta sexta-feira (16/10). O documentário de 28 minutos investiga o interesse do governo de Donald Trump pelas reservas brasileiras de terras raras e reúne declarações, documentos e até uma entrevista com o general Santos Cruz, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, que repudia o pseudopatriotismo de Flávio.
O que disse Wagner Moura?
“Hoje você vai descobrir a história de um complô pra saquear o Brasil. Um complô que conta com traidores da pátria, gente submissa, e voluntários que estão entregando o país de bandeja pros americanos”, afirma o ator na abertura.
O que Flávio ofereceu aos americanos?
Um dos principais argumentos apresentados no vídeo vem de uma declaração do próprio Flávio durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada em 28 de março, no Texas. Em discurso diante de lideranças da direita americana, o senador apresentou o Brasil como alternativa para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação aos minerais estratégicos fornecidos pela China. “O Brasil é a solução da América”, afirmou, ao defender que o país poderia ajudar os americanos a obter terras raras, essenciais para a indústria tecnológica e militar. O candidato também pediu pressão diplomática sobre as eleições brasileiras e acusou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva de contrariar os interesses americanos.
Qual é a importância das terras raras?
A declaração ganha outra dimensão diante da disputa entre Washington e Pequim pelo controle desses recursos. O Brasil possui a 2ª maior reserva mundial de terras raras, utilizadas na produção de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, turbinas eólicas, inteligência artificial e armamentos. A China domina o processamento desses minerais e responde por grande parte das importações americanas. “De cada dez quilos de terras raras que os Estados Unidos importam, sete vêm da China. E a China e os Estados Unidos estão numa briga que não acaba, por isso e um monte de outras coisas”, explica Moura.
O ator sustenta que Trump pretende controlar não apenas o fornecimento, mas também a exploração das riquezas naturais de outros países e aponta que isso pode ter grande impacto no futuro do Brasil. “O Brasil vai ser um país muito rico nas próximas décadas. Quem vai ser o dono dessa riqueza? A gente ou um bando de americanos que gostam de tomar o que é dos outros?”
Documentos revelam articulações com aliados de Trump
O documentário recupera as conexões de Eduardo Bolsonaro e do influenciador de direita Paulo Figueiredo com integrantes do governo americano, além das movimentações da Rockbridge Network, organização conservadora fundada pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance. A rede tentou estabelecer operações no Brasil e procurou empresários e políticos, conforme documentos revelados pela Folha de S.Paulo. Durante a campanha presidencial, também foi acusada de financiar indiretamente Flávio Bolsonaro, o que os envolvidos negaram. A comprovação da denúncia poderia levar à cassação do registro da candidatura de Flávio à Presidência.
Outra peça da investigação é o memorando “Prosperity Partnership” (“Parceria para a Prosperidade”), revelado originalmente pelos jornalistas Guilherme Amado e João Pedroso de Campos, do Amado Mundo. O documento de 22 páginas foi elaborado por André Marinho, que foi candidato do Novo ao governo do Rio de Janeiro e é aliado de Flávio. Produzido em inglês, o material traz a identificação “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” e propõe um alinhamento com os Estados Unidos para explorar, processar e industrializar minerais críticos brasileiros, com projeções de investimentos de até US$ 100 bilhões. Marinho confirmou a autoria, mas afirmou que a iniciativa era pessoal, sem participação da campanha do senador, e negou ter apresentado a proposta a autoridades americanas.
Wagner relaciona essas movimentações à estratégia internacional de Trump, que inclui pressões econômicas e políticas para garantir acesso a recursos naturais. O vídeo recupera exemplos envolvendo Ucrânia, Venezuela, Colômbia e Argentina, além das tarifas impostas ao Brasil. “Primeiro vem a pressão: uma guerra, uma tarifa, um empréstimo, o que for preciso. Depois, alguém no poder que deva o próprio cargo ao Trump: a Delcy na Venezuela, o Espriella na Colômbia, o Milei na Argentina. E, no fim, chega o acordo: minério e petróleo saindo do país, com os americanos comandando”, afirma o ator.
Ex-general de Bolsonaro critica “patriotas”
O principal depoimento do episódio é do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que comandou a Secretaria de Governo nos primeiros seis meses da Presidência de Jair Bolsonaro. Entrevistado em Brasília pelo jornalista Bruno Torturra, um dos editores de “Revelando”, o militar condena a atuação dos filhos do ex-presidente na busca de apoio político americano. “A busca de apoio externo, da maneira como foi feita, é um absurdo e realmente um ataque à soberania do Brasil, não tenho dúvida nenhuma. É submissão voluntária. Os Estados Unidos também se beneficiam desse voluntariado, que nem precisaram recrutar”, afirma.
Santos Cruz critica especialmente a iniciativa de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, de procurar o governo americano para defender sanções contra o Brasil enquanto ainda exercia mandato parlamentar. “Um ex-deputado brasileiro, que foi para lá como deputado, inclusive ainda com mandato, negociar sanções contra o Brasil. A busca de interferência é traição. Nem sei se tem na legislação um enquadramento para isso”, declara.
O general também rejeita a associação desse comportamento com a direita política, campo com o qual se identifica. “Eu me considero de direita. Isso aí que a gente vê, esse extremismo. Isso aí não é direita, isso se chama vigarice”, afirma.
Revelando chega ao 6º episódio
“Pátria Submissa” integra o projeto jornalístico produzido pela equipe do podcast Calma Urgente, com apoio do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Mídia Ninja, 342 Artes e The Intercept Brasil. Os cinco capítulos anteriores foram apresentados por Samara Felippo, Fábio Porchat, Camila Pitanga, Luana Piovani e Juliette Freire, com investigações sobre eugenia, relações entre o Banco Master e a Igreja da Lagoinha, violência policial, privatização das praias e ataques religiosos a Nossa Senhora Aparecida.
A série ganhou repercussão nacional com o episódio sobre o Banco Master apresentado por Porchat e voltou ao noticiário nesta semana após Juliette sofrer críticas por questionar as relações de Flávio Bolsonaro com o bispo JB Carvalho, que fez declarações hostis à devoção católica. A cantora negou acusações de financiamento público e os produtores anunciaram medidas judiciais contra a divulgação de informações falsas sobre o projeto.
Segundo os organizadores, os cinco primeiros episódios ultrapassaram 144 milhões de visualizações nas redes sociais. Apenas os vídeos completos publicados no YouTube somam mais de 24 milhões de reproduções. A nova reportagem foi disponibilizada gratuitamente nesta sexta-feira nos canais do “Revelando” e do ICL Notícias. Em poucos horas, passou de 1 milhão de visualizações no YouTube.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.