
IA Arte/Pipoca Moderna
30e e Live Nation sacodem mercado de shows com megacomplexos em SP
Produtoras que chegaram a negociar uma sociedade investem em espaços próprios nas marginais Pinheiros e Tietê, ampliando concorrência por grandes turnês
Disputa pelos grandes palcos de São Paulo
A disputa pelo mercado de shows em São Paulo ganhou um novo capítulo com os planos de duas das maiores produtoras de eventos do país para construir megacomplexos próprios. A brasileira 30e está negociando a compra de um terreno de 124 mil metros quadrados da Bayer na Zona Sul para transformá-lo em um centro de entretenimento, enquanto a americana Live Nation investe R$ 1,5 bilhão numa arena para 21 mil pessoas na Zona Norte. Os dois empreendimentos ficarão próximos às principais vias expressas da capital, um junto à Marginal Pinheiros e outro nas imediações da Marginal Tietê, ampliando a concorrência pelo controle dos espaços que recebem as grandes turnês nacionais e internacionais.
De possível sócia a concorrente
Os investimentos colocam em lados opostos duas empresas que chegaram a negociar uma associação societária. No final de 2025, a Live Nation iniciou conversas avançadas para adquirir uma participação na 30e, numa operação que poderia movimentar até R$ 2 bilhões. A aproximação foi revelada pelo NeoFeed e posteriormente detalhada pelo Valor Econômico, que apontou a possibilidade de a companhia americana assumir o controle da produtora brasileira ao longo dos anos. A gestora eB Capital participou das tratativas, que não resultaram numa transação anunciada.
Agora, as duas empresas desenvolvem projetos próprios para ampliar sua competição no mercado. A Live Nation já possui uma cadeia de negócios que inclui produção de shows, festivais, venda de ingressos e operação de espaços de entretenimento em diferentes países. A 30e, que ganhou projeção ao organizar grandes turnês no Brasil, busca avançar justamente sobre a infraestrutura física dos eventos, segmento em que ainda depende de contratos com operadores de casas de espetáculos, arenas e estádios.
30e mira terreno de 124 mil m²
O projeto mais recente foi revelado nesta terça-feira (27/10) pelo jornalista Rennan Setti, da coluna Capital, do jornal O Globo. A 30e está fechando a aquisição da sede da multinacional farmacêutica Bayer no bairro do Socorro, às margens do Rio Pinheiros. O imóvel reúne mais de 30 edifícios numa área equivalente à de aproximadamente 15 campos de futebol. A produtora pretende assumir a totalidade da propriedade para instalar o que chama de complexo de entretenimento ao vivo.
A Bayer ocupa o endereço desde 1973, mas prepara a transferência de suas operações administrativas para o Alto das Nações, empreendimento de 219 metros de altura na Avenida Chucri Zaidan. A empresa alemã alugou seis andares do novo edifício, que ainda está em fase de conclusão. O valor da negociação com a 30e não foi divulgado, assim como a capacidade de público e o prazo de inauguração do futuro complexo.
O investimento representa outra etapa da expansão da empresa fundada por Pepeu Correa. A 30e chegou à 10ª posição do ranking mundial da Pollstar em vendas de ingressos e movimentou aproximadamente R$ 1,4 bilhão entre 2022 e 2024. Em março deste ano, firmou um contrato de cinco anos com o Itaú Unibanco para organizar mais de 800 shows sob a marca Itaú Live. A parceria inclui turnês nacionais e internacionais, como as de Rush, Mariah Carey e System of a Down, além de projetos especiais com artistas brasileiros.
Live Nation prepara arena de R$ 1,5 bilhão
A rival americana anunciou em julho a construção da Arena São Paulo, um empreendimento coberto com capacidade para 21 mil espectadores na Cidade Center Norte, nas proximidades da Marginal Tietê. O espaço será desenvolvido por uma sociedade controlada pela Live Nation em parceria com a empresa responsável pelo complexo que reúne os shoppings Center Norte e Lar Center, o Expo Center Norte e um hotel. A inauguração está prevista para 2028.
A nova arena terá três níveis de arquibancadas, camarotes, tratamento acústico e estacionamento para 2 mil veículos. O projeto prevê mais de 200 shows e eventos esportivos por ano, com público anual estimado em dois milhões de pessoas. A estrutura foi concebida pelo Blueprint Studio, divisão de arquitetura e desenvolvimento da Live Nation. A empresa pretende transformá-la na maior arena coberta dedicada ao entretenimento ao vivo da América do Sul.
“São Paulo merece uma arena que reflita a energia, a paixão e a relevância cultural de uma das maiores cidades do mundo”, declarou Michael Rapino, presidente e CEO da Live Nation, no anúncio do empreendimento. O executivo destacou a intenção de criar uma nova casa para artistas brasileiros e internacionais, num mercado em que os estádios de futebol ainda concentram boa parte das apresentações de grande público.
O controle dos espaços vira prioridade
A construção dos dois megacomplexos representa uma mudança importante na concorrência entre as produtoras. Além de disputar contratos com artistas e patrocinadores, as empresas procuram controlar os locais onde os espetáculos acontecem. A propriedade ou operação de arenas permite administrar diretamente o calendário de apresentações e explorar outras fontes de receita, como camarotes, alimentação, estacionamento e serviços aos espectadores.
A Live Nation já atua nesse modelo em diversos países e controla a Ticketmaster, uma das maiores plataformas de venda de ingressos do mundo. No Brasil, também possui participação majoritária na Rock World, responsável pelo Rock in Rio e pelo The Town e produtora do Lollapalooza Brasil. A empresa ainda negocia a aquisição da Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, atualmente operada pela francesa GL Events. As companhias assinaram um acordo preliminar em setembro, e a operação foi encaminhada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A 30e, por sua vez, conta com o apoio de investidores para financiar seu crescimento e ampliar a independência operacional. A produtora recebeu um aporte de R$ 150 milhões da gestora Artesanal no início de suas atividades e captou outros R$ 120 milhões em 2024. A compra da sede da Bayer permitirá acrescentar um espaço próprio ao seu portfólio, reduzindo a dependência de estruturas administradas por terceiros justamente quando sua antiga candidata a sócia avança sobre o mesmo segmento.
Um mercado de R$ 76,9 bilhões
A ofensiva acontece num período de crescimento da indústria brasileira de entretenimento ao vivo. Segundo a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), o setor de cultura e entretenimento movimentou R$ 76,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 8,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
São cada vez mais shows realizados no Brasil, com festivais e estádios lotados. Este mercado em expansão alimenta a ampliação dos investimentos no setor.