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Netflix admite problemas de conteúdo após mil demissões
Ted Sarandos e Greg Peters reconhecem dificuldades para produzir grandes sucessos americanos após "Stranger Things"
Executivos reconhecem necessidade de mudanças
Os copresidentes da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, admitiram que a empresa precisa melhorar o desempenho de seus filmes e séries nos Estados Unidos após demitir cerca de mil funcionários e substituir os principais responsáveis por suas produções. As declarações foram feitas durante a apresentação do balanço trimestral na terça-feira (20/10), quando os executivos explicaram a reestruturação que afastou Bela Bajaria do comando global de conteúdo e colocou o ex-executivo da Disney Peter Rice em seu lugar. A mudança acontece num momento de desaceleração do crescimento da audiência e dificuldades para lançar grandes sucessos internacionais.
O que os chefes da Netflix admitiram?
“Há muito com que se entusiasmar, mas sei que podemos fazer melhor e queremos aproveitar esse impulso”, afirmou Sarandos durante a reunião com investidores. O executivo reconheceu que a Netflix precisa ampliar o alcance de suas produções americanas. “Agora vemos uma oportunidade de levar nosso catálogo a outro nível, especialmente nos Estados Unidos, onde podemos ter um impacto desproporcional quando criamos uma grande série de sucesso que os assinantes adoram e comentam no mundo inteiro”, explicou.
Greg Peters reforçou a avaliação ao reconhecer que os resultados americanos estão abaixo do potencial da plataforma. O desafio agora é produzir outro sucesso mundial da dimensão de “Stranger Things”, encerrada em janeiro deste ano. “Sabemos que podemos fazer melhor. Nossa meta é passar de muito bom a excelente no desempenho desse catálogo”, declarou. Sarandos acrescentou que os títulos produzidos na América Latina, na Ásia e na Europa continuam apresentando bons resultados, mas as produções americanas precisam recuperar a capacidade de conquistar espectadores em vários países. “Não há necessidade de uma mudança fundamental na estratégia. Precisamos melhorar a execução nos Estados Unidos”, resumiu.
Demissões atingem chefes de conteúdo e cinema
A reestruturação começou na quarta-feira (14), quando a Netflix anunciou a demissão de aproximadamente mil funcionários, o equivalente a 6% de sua força de trabalho. Foi o maior corte de pessoal da empresa desde 2022. As dispensas atingiram principalmente os departamentos de tecnologia, produtos, recursos humanos e jurídico. Na quinta-feira (15), veio a principal mudança criativa: Bela Bajaria deixou a direção global de conteúdo após quase uma década na companhia.
Bajaria supervisionava filmes, séries, realities, eventos ao vivo e transmissões esportivas. Seu substituto, Peter Rice, assumirá oficialmente o cargo em 26 de outubro. O executivo trabalhou na Fox e na Disney, onde supervisionou canais de televisão, estúdios e plataformas de streaming. Na Fox Searchlight, esteve ligado a lançamentos como “Pequena Miss Sunshine”, “Juno” e “Quem Quer Ser um Milionário?”. Na Disney, acompanhou produções premiadas como as séries “O Urso” e “Xógum: A Gloriosa Saga do Japão”.
A saída de Bajaria foi seguida pela demissão de Dan Lin, responsável pelos filmes da Netflix desde 2024. Seu principal colaborador, Doug Belgrad, também deixou a empresa, assim como Carolina Garcia, executiva da divisão de séries originais. Rice assumirá temporariamente a supervisão do cinema enquanto a companhia reorganiza o departamento. Sarandos elogiou a trajetória de Bajaria, mas destacou que o novo chefe possui experiência tanto na área criativa quanto na administração de grandes operações. “Peter Rice entende as relações com os talentos e, num mercado competitivo, os profissionais criativos podem escolher onde querem trabalhar”, afirmou.
Por que a Netflix está perdendo audiência?
A principal preocupação da empresa não é a quantidade de assinantes, mas o tempo que eles passam assistindo à programação. Um levantamento da consultoria Jefferies estimou que o consumo médio por assinante caiu de 66 horas mensais no 1º semestre de 2023 para 49 horas no mesmo período de 2026. Apesar do investimento anual próximo de US$ 20 bilhões em programação, o total de horas assistidas cresceu apenas 2% no primeiro semestre deste ano.
A concorrência do YouTube também aumentou a pressão. Segundo a Nielsen, a Netflix respondeu por 7,8% do tempo de televisão nos Estados Unidos em julho, enquanto o YouTube alcançou 14,2%. A diferença é relevante porque o serviço do Google atrai boa parte dessa audiência com vídeos gratuitos produzidos por usuários e criadores independentes, sem precisar financiar uma estrutura comparável à dos filmes e séries de Hollywood.
O resultado é uma empresa que continua lucrativa, mas enfrenta dificuldades para aumentar o consumo de suas produções. No 3º trimestre, a Netflix registrou receita de US$ 12,87 bilhões, crescimento de 12% em relação ao ano anterior, e lucro líquido de US$ 3,66 bilhões. Apesar disso, a expansão da receita foi a menor em três anos. A companhia também reduziu sua previsão de faturamento publicitário para 2026 de US$ 3 bilhões para US$ 2,7 bilhões, após atrasos na implementação de novas ferramentas de anúncios.
Como a empresa pretende recuperar o público?
A Netflix pretende manter a produção de filmes e séries originais como principal atividade, mas também ampliar os acordos de licenciamento com outros estúdios e emissoras. Sarandos afirmou que aproximadamente 95% dos investimentos continuam concentrados no negócio principal, apesar das experiências com videogames, podcasts e outros formatos.
O copresidente defendeu a contratação de Peter Rice como uma oportunidade para melhorar a relação com produtores, diretores e atores. A expectativa é que o executivo consiga aumentar a quantidade de produções americanas capazes de atrair o público internacional. Rice também terá influência sobre projetos que já estão em desenvolvimento, embora Sarandos tenha descartado uma mudança radical na estratégia da empresa.
Peters explicou que os cortes de pessoal também fazem parte da revisão dos investimentos. “Quando você impulsiona um crescimento considerável da receita durante vários anos, acho que não é incomum descobrir que existem áreas nas quais crescemos rapidamente e acabamos investindo mais do que o necessário”, declarou. O diretor financeiro Spence Neumann reconheceu a necessidade de acelerar o consumo de conteúdo: “Queremos que as horas assistidas cresçam mais depressa. Não estamos satisfeitos. Estamos trabalhando nisso”.
Brasil ganha espaço na estratégia de licenciamento
Um exemplo concreto da nova expansão do catálogo é o acordo anunciado pela Netflix com a Globo na segunda-feira (19). A parceria prevê a distribuição de 18 produções brasileiras, incluindo “Ainda Estou Aqui”, “Vitória”, “Caminho das Índias” e sete temporadas de “Vai Que Cola”, com diferentes direitos territoriais. Trata-se do maior contrato de licenciamento já firmado entre as duas empresas.
Sarandos destacou a negociação durante a apresentação dos resultados. “Este é o acordo de licenciamento mais significativo que já fizemos no Brasil”, afirmou. O executivo lembrou que a Globo já fornecia produções para a Netflix em outros países, mas mantinha resistência a licenciar seu catálogo para a plataforma dentro do mercado brasileiro.
O contrato permite que a Netflix incorpore obras conhecidas sem assumir os custos de sua produção original. A Globo recebe receitas de licenciamento e amplia o alcance internacional de determinados títulos, mas também passa a dividir com uma concorrente o acesso a conteúdos antes utilizados como diferenciais da Globoplay. Segundo Sarandos, a parceria inclui uma combinação de direitos locais, regionais e globais.