
Sony Pictures/Classics
Como o trailer de Nárnia conseguiu autorização raríssima do Led Zeppelin?
Greta Gerwig convenceu Jimmy Page e Robert Plant a liberar "Stairway to Heaven", recusada até para o filme "Quase Famosos"
Led Zeppelin abre caminho para Nárnia
O primeiro trailer de “Nárnia: O Sobrinho do Mago”, divulgado nesta terça-feira (13/10) por Netflix e Sony, chegou com uma surpresa musical: “Stairway to Heaven”, clássico do Led Zeppelin que Jimmy Page e Robert Plant passaram décadas vetando no cinema.
Por que a autorização é tão especial?
A resistência do Led Zeppelin ao uso comercial de suas músicas é tão lendária quanto a banda. Embora Page e Plant tenham autorizado a inclusão de alguns de seus clássicos em trilhas sonoras, “Stairway to Heaven” sempre recebeu tratamento especial. Cameron Crowe descobriu isso ao tentar incluir a canção em “Quase Famosos” (2000), filme inspirado em suas experiências como jovem jornalista musical nos anos 1970.
O diretor havia filmado uma sequência de sete minutos em que o protagonista, vivido por Patrick Fugit, reproduzia a música inteira para convencer sua mãe (Frances McDormand) a permitir que ele acompanhasse uma banda de rock em turnê. Page e Plant gostaram do filme e autorizaram outras canções, mas recusaram aquela.
Músicos evitam banalizar clássicos
Segundo Crowe, os dois roqueiros consideravam que “Stairway to Heaven” havia alcançado uma dimensão própria e não queriam comercializá-la. A cena acabou excluída da versão cinematográfica e apareceu como extra em DVD, sem a música, com instruções para que o espectador a reproduzisse separadamente.
Jack Black também teve uma experiência de “peregrinação” pessoal para tentar dobrar a banda. Em 2003, ele só conseguiu a liberação de “Immigrant Song” para “Escola de Rock” depois de gravar um vídeo em que implorava pela autorização, acompanhado de uma plateia de atores mirins. Entretanto, a resistência específica a “Stairway to Heaven” permaneceu durante décadas.
Como Greta Gerwig convenceu a banda?
Greta Gerwig, porém, revelou que não encontrou a mesma resistência ao buscar a liberação. Ela contou durante uma apresentação especial do trailer em Nova York que procurou pessoalmente os dois músicos para explicar os temas de sua adaptação. Para sua surpresa, eles aceitaram a proposta não apenas pelo projeto cinematográfico, mas também por sua admiração pela obra de C. S. Lewis.
“Eles fizeram isso porque perceberam o coração da história. E eles também amam C. S. Lewis”, declarou Gerwig, durante conversa com Stephen Colbert. Para ela, a música dialoga com o percurso espiritual dos personagens e com o conflito entre o bem e o mal que atravessa a narrativa.
Led Zeppelin se inspirou em Tolkien
Apesar de a banda nunca ter referenciado “As Crônicas de Nárnia” em suas músicas, eles já assumiram influência da literatura fantástica de um contemporâneo de Lewis, J.R.R. Tolkien. O criador de “O Senhor dos Anéis” ficou imortalizado em clássicos do rock que transportam os ouvintes diretamente para a Terra-Média. “Ramble On” (1969) cita nominalmente o território de Mordor e o personagem Gollum, “Misty Mountain Hop” (1971) traz no título referência direta às Montanhas Nebulosas e “The Battle of Evermore” (1971) foi diretamente inspirada por “O Retorno do Rei”.
No filme “Rock É Rock Mesmo” (título brasileiro de “The Song Remains the Same”, lançado originalmente em 1976), há várias cenas de fantasia que mostram os integrantes da banda vivendo histórias lúdicas entre cenas de shows.
Numa das sequências, o guitarrista Jimmy Page escala uma montanha sob a lua cheia e encontra uma figura encapuzada e barbuda, segurando um cajado e uma lanterna acesa. Muitos fãs passaram a associar o personagem com o mago Gandalf, embora a cena ao final revele que era o próprio Page no papel do “Heremita” das cartas de tarot – que também estampa a parte interna da capa do álbum “Led Zeppelin IV” (1971).
Qual é a história do novo “Nárnia”?
Publicado em 1955, “O Sobrinho do Mago” foi o sexto livro lançado da série “As Crônicas de Nárnia”, mas ocupa o primeiro lugar na cronologia dos acontecimentos. A história acompanha duas crianças que descobrem passagens entre universos e testemunham o nascimento de Nárnia, incluindo a chegada da futura Feiticeira Branca ao novo mundo.
Gerwig, que dirigiu o fenômeno bilionário “Barbie” (2023), escreveu e dirigiu a adaptação, orçada em aproximadamente US$ 280 milhões. A cineasta também afirmou ter crescido lendo os livros de Lewis e tratado a aventura como uma jornada espiritual, além de um espetáculo fantástico.
O que acontece no trailer?
A prévia começa na Londres dos anos 1950, onde as crianças Digory Kirke (David McKenna) e Polly Plummer (Beatrice Campbell) descobrem o laboratório de Andrew Ketterley (Daniel Craig). O tio de Digory possui anéis mágicos capazes de transportar seus usuários entre diferentes mundos. A aventura leva os protagonistas ao Bosque Entre os Mundos, uma floresta misteriosa repleta de lagos que funcionam como portais para outros universos.
Entre os lugares visitados está Charn, um reino em ruínas onde as crianças encontram Jadis (Emma Mackey), feiticeira que acabará se tornando a principal inimiga de Aslan. As imagens mostram a personagem espalhando o caos em Londres, criaturas fantásticas e um cavalo alado. O momento culminante apresenta o nascimento de Nárnia, quando o leão Aslan surge das estrelas para dar vida ao mundo mágico. Embora Meryl Streep tenha sido escalada para dublá-lo, o personagem aparece rugindo, sem falas no trailer.
A produção também marca uma mudança na estratégia da Netflix. Em vez de lançar o filme diretamente no streaming, a empresa prepara sua primeira distribuição mundial ampla nos cinemas, com estreia internacional em 12 de fevereiro de 2027. A chegada à plataforma está marcada apenas para 2 de abril.