
YouTube/Furacão 2000
Mulher Banana, pioneira trans do funk carioca, é encontrada morta em casa
Ex-integrante da Furacão 2000 foi encontrada sem vida em Nova Iguaçu, aos 49 anos, e recebeu homenagens de Tati Quebra Barraco e MC Xuxú
Morte em Nova Iguaçu
A cantora Julyanna Barbosa, conhecida como Mulher Banana e Garota X, foi encontrada morta na sexta-feira (30/10) em sua casa no bairro Engenho Pequeno, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Registrada como Julyana de Souza Pontes, ela tinha 49 anos e ficou conhecida a primeira mulher trans a conquistar projeção no funk carioca. A causa da morte ainda depende de perícia.
Das paródias à Furacão 2000
A trajetória musical começou numa rádio carioca, onde Julyanna fazia paródias de sucessos do funk. As versões despertaram o interesse dos ouvintes, que passaram a telefonar para pedir suas interpretações. Fã de Xuxa, escolheu o nome artístico Garota X e conseguiu um contrato com a Furacão 2000 em 2002, numa época em que a equipe de som e produtora ajudava a levar o funk das comunidades do Rio de Janeiro para o restante do país.
Sua estreia nos palcos da Furacão aconteceu em 2003 e foi marcada pela hostilidade. Vestida com uma fantasia de colegial, recebeu latinhas arremessadas por espectadores que rejeitavam a presença de uma artista trans no palco. Numa entrevista à Vice em 2015, recordou o preconceito e explicou como decidiu enfrentá-lo por meio da música. “A arma é meu microfone e minhas letras são minhas munições”, afirmou.
Como surgiu a Mulher Banana?
O nome pelo qual se tornaria mais conhecida surgiu durante a febre das mulheres-fruta no funk carioca. Julyanna escreveu “Mulher Banana” e transformou a canção em sua marca artística. A música conquistou espaço no repertório da Furacão 2000, com apresentações registradas em vídeos e DVDs da equipe. Entre outras gravações da época estão “Assumida”, “Mundo Gay”, “Peitinho” e “Coraçãozão”, que permanecem disponíveis em plataformas musicais.
A cantora utilizava o repertório para abordar sexualidade, identidade e preconceito num ambiente em que artistas trans enfrentavam dificuldades para obter reconhecimento profissional. Em “Assumida”, abordou de forma mais pessoal a descoberta de sua identidade de gênero. A letra narra lembranças de infância, como a vontade de brincar de boneca e o hábito de enrolar a sunga para transformá-la numa calcinha improvisada. Também reproduz as conversas em que a protagonista revela à mãe que deseja ser mulher e pede ao pai que passe a reconhecê-la como filha. A aceitação familiar apresentada na música contrasta com o preconceito enfrentado por Julyanna nos palcos. Ao transformar essas experiências em funk, a artista levou ao público dos bailes uma narrativa de afirmação trans numa época em que essa representação ainda era rara no gênero.
Em entrevista publicada pelo Observatório G em 2017, quando completava 15 anos de carreira, reivindicou seu lugar na história do gênero. “Ajudei a construir esse momento. Fui a precursora deste movimento transgênero”, declarou. Também comemorou o surgimento de nomes como Pabllo Vittar, Mulher Pepita, Lia Clark e Gloria Groove, defendendo mais oportunidades para artistas LGBTQIA+.
Violência e resistência
A trajetória da funkeira também foi marcada pela violência transfóbica. Em outubro de 2018, ela denunciou ter sido espancada por um grupo de homens em Nova Iguaçu, quando voltava para casa. Segundo seu relato à BBC News Brasil, os agressores fizeram insultos contra pessoas LGBTQIA+ e mencionaram Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, antes de atacá-la com uma barra de ferro, socos e chutes.
A cantora levou dez pontos na cabeça e registrou a agressão na polícia. Na entrevista, evitou afirmar que os responsáveis eram eleitores do candidato, embora tivesse ouvido seu nome durante o ataque. “Nem sei se a agressão teve a ver com política”, declarou. O caso ganhou repercussão nacional em meio às denúncias de violência contra pessoas LGBTQIA+ durante a campanha eleitoral daquele ano.
Julyanna não se intimidou. Em 2023, reuniu-se com MC Xuxú e MC Trans para lançar “Tr4ve$ty”, colaboração que retomou seu trabalho de afirmação da identidade travesti.
Proteção animal e homenagens
Fora dos palcos, ela dedicava parte de sua rotina à proteção animal. A cantora acolhia gatos abandonados e mantinha um espaço que chamava de santuário para cuidar deles. O trabalho de resgate e acolhimento tornou-se outra atividade pela qual passou a ser conhecida nas redes sociais.
A morte foi anunciada publicamente na manhã deste sábado por Tati Quebra Barraco, que prestou uma homenagem à colega no Instagram. “Uma grande perda para o mundo do funk! Nossa querida MULHER BANANA nos deixou. Descanse em paz!”, escreveu a funkeira, que também manifestou solidariedade aos familiares e amigos.
MC Xuxú, que dividiu gravações com Julyanna, lembrou sua importância para a presença de artistas trans na música brasileira. A cantora a definiu como “uma travesti que fez história” e destacou seu papel na resistência contra o preconceito. “Sua irreverência, sua ousadia e sua existência fazem parte da história do funk e da resistência travesti brasileira”, escreveu.