
Divulgação/SBT
Morre Roberto Maya, ator, dublador e apresentador de TV, aos 91 anos
Ator marcou novelas como "Final Feliz" e dublou o Superman antes de se consagrar no jornalismo da TV Manchete
Morte em Campinas
O ator, dublador e apresentador Roberto Maya morreu na noite de terça-feira (27/10), aos 91 anos, no Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas, no interior de São Paulo. A causa da morte foi insuficiência respiratória, segundo comunicado divulgado pelo SBT nesta quarta (28). Conhecido por suas atuações em novelas e pela voz grave que marcou o programa jornalístico “Documento Especial”, Maya teve uma carreira de mais de seis décadas no rádio, cinema e televisão.
Do rádio às novelas
Roberto Maya nasceu em 5 de janeiro de 1935, em Campinas, e começou a carreira no rádio durante a década de 1950. Sobrinho do ator Wálter Forster, estudou na Escola de Arte Dramática de São Paulo, mas não concluiu o curso. Trabalhou como radioator e logo encontrou espaço na dublagem, emprestando sua voz a personagens como o Superman na versão original do desenho animado “Super Amigos”, de 1973, e o tigre Shere Khan em “Mogli – O Menino Lobo” (1967).
Sua estreia no cinema aconteceu em “Teus Olhos Castanhos” (1961), de Ibáñez Filho. Nos anos seguintes, participou de filmes como “Juventude e Ternura” (1968) e fez novelas nas antigas emissoras Excelsior e Tupi, entre elas “A Pequena Órfã” (1968), “Simplesmente Maria” (1970), “O Profeta” (1977) e “Éramos Seis” (1977). Também interpretou o padre Vicente em “O Espantalho” (1977), produção posteriormente reprisada pelo SBT.
Vilões, cinema e Boca do Lixo
Durante os anos 1970, Maya se tornou presença constante no cinema brasileiro, especialmente em produções realizadas na região da Boca do Lixo, em São Paulo. Atuou em “O Prisioneiro do Sexo” (1978), “Herança dos Devassos” (1979), “Os Rapazes da Difícil Vida Fácil” (1980) e “Convite ao Prazer” (1980), entre outros títulos. Trabalhou com cineastas como Walter Hugo Khouri e Anselmo Duarte, e contracenou com atrizes como Sandra Bréa, Dina Sfat e Renée de Vielmond.
Embora muitos desses filmes fossem classificados como pornochanchadas, Maya contestava a generalização. Em entrevista ao jornal O Globo, em 2015, defendeu a importância da produção cinematográfica da época e destacou as diferenças entre o erotismo sofisticado de Khouri e as comédias sexuais populares. Também reconheceu que a Boca do Lixo proporcionou trabalho a numerosos profissionais do audiovisual brasileiro.
Um de seus papéis mais conhecidos na televisão foi o empresário César Brandão, vilão de “Final Feliz” (1982), novela de Ivani Ribeiro na Globo. O personagem era pai de Débora (Natália do Vale) e Suzy (Lídia Brondi), cujas vidas eram afetadas por seus negócios e manipulações. Na trama, Maya contracenou com Lilian Lemmertz, que interpretava sua mulher, Maria Luísa.
A voz de Documento Especial
Em 1983, Roberto Maya foi contratado pela recém-inaugurada TV Manchete para integrar a equipe do “Jornal da Manchete”, principal telejornal da emissora de Adolpho Bloch. Permaneceu na bancada até 1989, quando recebeu um convite do jornalista e diretor Nelson Hoineff que mudaria sua trajetória profissional.
Maya assumiu a apresentação e a narração de “Documento Especial: Televisão Verdade”, que estreou em 2 de agosto de 1989. O programa rompeu com o padrão predominante dos grandes jornalísticos da televisão aberta ao abordar temas como desigualdade social, sexualidade, violência, preconceito e situações marginalizadas. A voz grave do apresentador, sua dicção e o texto elaborado por Hoineff se tornaram características da atração.
Entre as reportagens mais conhecidas estavam “Os Pobres Vão à Praia”, que expôs o preconceito de classe nas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro, e “O Suicídio dos Kaiowá”, sobre a situação de indígenas em Mato Grosso do Sul. O programa chegou a liderar a audiência na Manchete e se transferiu para o SBT em 1992. Permaneceu na emissora de Silvio Santos até 1995, antes de retornar à televisão pela Band em 1997. Ao longo de sua trajetória, conquistou três Troféus Imprensa de Melhor Programa Jornalístico.
Últimos trabalhos e vida pessoal
Mesmo após o sucesso como apresentador, Maya continuou atuando. Voltou ao cinema com “Cafuné” (2005), participou de “A Casa da Mãe Joana” (2008) e apareceu na Globo em produções como “Paraíso Tropical” (2007), “Lara com Z” (2011) e “As Brasileiras” (2012). Também fez uma participação na série “Psi” (2015), da HBO, e integrou o elenco da comédia “Mulheres no Poder” (2016), com Dira Paes, Stella Miranda e Totia Meirelles.
Em entrevista concedida aos 80 anos, em maio de 2015, contou que levava uma vida afastada das festas e da exposição pública, ao lado da mulher, Flora, com quem já estava casado havia mais de 50 anos. O casal não teve filhos. Embora tivesse reduzido suas atividades profissionais, Maya ainda desejava voltar às novelas e lamentava que os convites tivessem desaparecido.