
Divulgação/Paramount
Morre Patrick Stewart, o capitão Picard de Star Trek e Professor X dos X-Men
Ator britânico de 86 anos uniu Shakespeare, ficção científica e super-heróis, mas enfrentava Alzheimer e demência com corpos de Lewy
Morte em Los Angeles
Patrick Stewart, o ator britânico que interpretou o capitão Jean-Luc Picard na franquia “Star Trek” e o professor Charles Xavier nos filmes dos “X-Men”, morreu na quarta-feira (28/10) aos 86 anos, em sua casa em Los Angeles, nos Estados Unidos. A morte foi confirmada nesta quinta (29) por sua representante, que informou que ele enfrentava Alzheimer e demência com corpos de Lewy. Stewart estava sob os cuidados da mulher, a cantora Sunny Ozell, e acompanhado de familiares e amigos.
Uma infância marcada pela violência
A carreira do ator atravessou mais de seis décadas, do teatro clássico britânico à ficção científica e aos filmes de super-heróis, e incluíram três prêmios Olivier, um Grammy e uma condecoração de cavaleiro concedida pela rainha Elizabeth II. Mas até chegar lá, foi muito sofrimento.
Patrick Hewes Stewart nasceu em 13 de julho de 1940, em Mirfield, uma pequena cidade industrial de Yorkshire, no norte da Inglaterra. Era o caçula de três irmãos, filho de Gladys, uma operária da indústria têxtil, e Alfred Stewart, um militar que participou da 2ª Guerra Mundial. A família vivia numa casa sem água quente, banheiro interno ou aquecimento central. O pai, que havia participado da retirada das tropas britânicas de Dunquerque, retornou da guerra com traumas que transformaram a vida doméstica num ambiente de medo. Stewart cresceu testemunhando agressões contra a mãe e, ao lado do irmão Trevor, tentava intervir para protegê-la. Em 2009, num depoimento publicado pelo jornal The Guardian, recordou que aprendeu ainda criança a reconhecer o momento exato em que uma discussão terminaria em violência física. Também denunciou a atitude de policiais e profissionais de saúde que culpavam sua mãe pelas agressões. “A violência é uma escolha que o homem faz, e só ele é responsável por ela”, escreveu.
O refúgio veio dos livros, do cinema e de um professor de inglês chamado Cecil Dormand, que apresentou Shakespeare ao garoto quando ele estudava na Mirfield Secondary Modern School. Stewart começou a participar de encenações escolares e descobriu que podia assumir outras identidades durante algumas horas. Em entrevistas posteriores, relacionou diretamente essa descoberta à infância difícil. “O palco era um lugar muito mais seguro para mim do que qualquer coisa que eu tivesse de enfrentar em casa”, afirmou. Sua formação foi estimulada por Dormand e pela professora de interpretação Ruth Wynn Owen, que o ajudou a desenvolver a dicção pela qual se tornaria conhecido. Décadas depois, ele dedicou sua autobiografia aos dois professores.
Da escola de teatro a Shakespeare
Stewart deixou a escola aos 15 anos e trabalhou por um breve período como jornalista num jornal regional, antes de conseguir uma bolsa para estudar na Bristol Old Vic Theatre School, em 1957. A formação abriu caminho para companhias de repertório, nas quais os atores precisavam interpretar personagens muito diferentes em rápida sucessão. Sua estreia profissional aconteceu em 1959, numa montagem de “Cyrano de Bergerac”. Na juventude, começou a perder os cabelos e precisou enfrentar a resistência de produtores que consideravam sua aparência inadequada para papéis românticos. Chegou a comparecer a testes usando uma peruca e a retirá-la durante a audição, na tentativa de demonstrar que podia interpretar personagens de idades distintas.
Em 1966, ingressou na Royal Shakespeare Company, onde permaneceu por cerca de 14 anos e consolidou sua formação clássica. Trabalhou com diretores como Peter Hall, John Barton e Trevor Nunn e interpretou personagens de Shakespeare como Marco Antônio, Macbeth, Próspero e Shylock. A companhia também lhe permitiu conviver com atores como Ian McKellen, com quem desenvolveria uma amizade que atravessaria o teatro, o cinema e a vida pessoal. Em 1979, recebeu seu primeiro prêmio Olivier pela atuação em “Antônio e Cleópatra”. A experiência nos palcos britânicos seria fundamental para sua interpretação de personagens de autoridade, mas também para as figuras atormentadas e moralmente ambíguas que marcariam sua trajetória.
O cinema começou a abrir espaço para Stewart ainda nos anos 1970. Apareceu em “Hedda” (1975), adaptação da peça de Henrik Ibsen, e interpretou Sejano na minissérie histórica “Eu, Cláudio” (1976), da BBC. Depois participou de “Excalibur” (1981), de John Boorman, no papel do rei Leondegrance, e interpretou o guerreiro Gurney Halleck em “Duna” (1984), de David Lynch. Em “Força Sinistra” (1985), de Tobe Hooper, viveu um cientista envolvido numa investigação sobre vampiros espaciais. Mesmo com essas produções no currículo, Stewart ainda era relativamente pouco conhecido do público americano quando recebeu o convite que mudaria sua carreira.
O capitão que Gene Roddenberry não queria
Patrick Stewart tinha 47 anos quando foi escolhido para interpretar Jean-Luc Picard em “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”, lançada em 1987. A escalação contrariou inicialmente Gene Roddenberry, criador da franquia, que não considerava o britânico adequado para comandar a nova Enterprise. Em entrevista à revista People, Stewart contou que sua primeira reunião com Roddenberry durou aproximadamente seis minutos. Depois de sua saída, o produtor teria perguntado quem havia sugerido convidá-lo e classificado o encontro como uma perda de tempo. Seis meses depois, o ator recebeu o papel porque os demais responsáveis pela produção conseguiram superar a resistência do criador.
A escolha estabeleceu um contraste com o capitão James T. Kirk, interpretado por William Shatner na série original. Enquanto Kirk frequentemente resolvia os conflitos com iniciativa pessoal e ação física, Picard era um comandante mais reservado, diplomático e intelectual, que procurava compreender seus adversários antes de recorrer à força. Stewart construiu o personagem com a disciplina do teatro shakespeariano, mas também com dúvidas, fragilidades e conflitos éticos. Sua voz e a maneira de conduzir os diálogos se tornaram marcas do capitão, especialmente quando precisava defender os princípios da Federação diante de ameaças militares ou decisões políticas controversas.
A série permaneceu no ar por sete temporadas, até 1994, com 178 episódios, e transformou Stewart num astro internacional. Entre os momentos mais lembrados estão “The Best of Both Worlds”, no qual Picard é capturado e assimilado pelos Borgs, e “The Inner Light”, em que o capitão experimenta uma vida inteira numa civilização distante durante poucos minutos de inconsciência. Sua interpretação marcou histórias sobre guerra, intolerância, sacrifício, diplomacia e os limites da tecnologia, estabelecendo Picard como um dos personagens centrais da televisão de ficção científica.
O sucesso levou o elenco da série para o cinema em “Jornada nas Estrelas: Generations” (1994), que promoveu o encontro de Picard com Kirk, e prosseguiu em “Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato” (1996), “Jornada nas Estrelas: Insurreição” (1998) e “Jornada nas Estrelas: Nêmesis” (2002). Stewart também ampliou sua participação criativa nos filmes, especialmente depois que Picard passou a ocupar o centro das histórias cinematográficas. “Primeiro Contato”, que recuperou o trauma do personagem com os Borgs, tornou-se um dos capítulos mais populares dessa fase.
Professor Xavier e o reencontro com Ian McKellen
Em 2000, Stewart conquistou outro personagem que definiria sua imagem para uma geração de espectadores: Charles Xavier, fundador da escola para jovens mutantes em “X-Men: O Filme”, dirigido por Bryan Singer. A escalação aproveitou sua experiência como Picard, mas também sua formação teatral. Xavier precisava transmitir autoridade sem recorrer à força física, defender uma convivência pacífica entre humanos e mutantes e enfrentar o antigo amigo Magneto, interpretado por Ian McKellen. A relação entre os personagens deu aos primeiros filmes da franquia um conflito político e moral que ultrapassava os confrontos entre super-heróis e vilões.
Stewart voltou ao papel em “X-Men 2” (2003), “X-Men: O Confronto Final” (2006), “X-Men Origens: Wolverine” (2009) e “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” (2014), entre outras participações. A parceria com Hugh Jackman ganhou uma dimensão diferente em “Logan” (2017), de James Mangold. Ambientado num futuro em que os mutantes praticamente desapareceram, o longa apresentava o Professor Xavier idoso, vulnerável e com dificuldades para controlar seus poderes. O personagem depende dos cuidados de Wolverine, numa história que abandona o espetáculo convencional dos super-heróis para tratar da deterioração física, da responsabilidade e da morte. Stewart considerou a experiência tão definitiva que chegou a anunciar sua despedida do personagem.
A aposentadoria do universo Marvel, entretanto, não durou. Ele voltou a interpretar uma variante de Xavier em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” (2022) e foi confirmado no elenco de “Vingadores: Doutor Destino”, com estreia brasileira marcada para 17 de dezembro deste ano. O novo filme reúne integrantes dos antigos “X-Men”, incluindo McKellen, Rebecca Romijn, James Marsden, Alan Cumming e Kelsey Grammer. A produção deve chegar aos cinemas menos de dois meses depois de sua morte, com sua última participação na franquia.
Outros personagens, humor e prêmios
Embora as duas franquias tenham dominado sua popularidade internacional, Stewart nunca abandonou a variedade de personagens. Interpretou Ricardo Coração de Leão na comédia “A Louca, Louca História de Robin Hood” (1993), de Mel Brooks, participou do drama “Jeffrey – De Caso com a Vida” (1995) e foi o capitão Ahab na minissérie “Moby Dick” (1998), pela qual recebeu indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro. Também interpretou o rei Henrique II em “O Leão no Inverno” (2003), produção televisiva com Glenn Close, e apareceu como ele mesmo na comédia britânica “Extras” (2005), numa participação que lhe rendeu outra indicação ao Emmy.
Na contramão de sua imagem de autoridade, demonstrou gosto pelo humor irreverente. Emprestou a voz ao diretor da CIA Avery Bullock na animação “American Dad!”, narrou as comédias “Ted” (2012) e “Ted 2” (2015) e protagonizou “Blunt Talk” (2015–2016), como um apresentador britânico de televisão que tenta reconstruir a carreira nos Estados Unidos enquanto enfrenta problemas com álcool e relacionamentos. Também surpreendeu ao interpretar um líder neonazista no suspense “Sala Verde” (2015), de Jeremy Saulnier, e dublou o personagem Cocô em “Emoji: O Filme” (2017). Para um ator associado a comandantes respeitados e mentores de super-heróis, esses trabalhos ofereciam a oportunidade de explorar figuras grotescas, patéticas e moralmente repulsivas.
Seu trabalho de voz lhe rendeu um Grammy em 1996, pela narração de “Pedro e o Lobo”, de Sergei Prokofiev. Naquele mesmo ano, recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. O teatro, porém, continuou a render alguns de seus maiores reconhecimentos profissionais. Em 1994, conquistou o segundo Olivier pelo espetáculo solo “Um Conto de Natal”, adaptação de Charles Dickens na qual interpretava os diferentes personagens. O terceiro veio em 2009, por sua atuação como Cláudio e o fantasma do pai do protagonista numa montagem de “Hamlet”, estrelada por David Tennant. Em 2010, Stewart foi nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth II, em reconhecimento à sua contribuição para as artes dramáticas britânicas.
A amizade com Ian McKellen
A relação com Ian McKellen ganhou uma dimensão particular depois que os dois trabalharam juntos nos filmes dos “X-Men”. Embora se conhecessem desde os tempos da Royal Shakespeare Company, foi durante as filmagens da franquia que estreitaram a amizade. McKellen, que interpretava Magneto, chegou a contar que os longos períodos de espera nos bastidores permitiram que se aproximassem. A cumplicidade também se estendeu aos palcos, onde protagonizaram montagens de “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, e “Terra de Ninguém”, de Harold Pinter, apresentadas em Londres e na Broadway.
A amizade ultrapassou a relação profissional. Os dois passaram a aparecer juntos em eventos públicos, entrevistas e fotografias nas quais brincavam com a própria intimidade, inclusive com beijos diante das câmeras. Quando Stewart se casou com a cantora americana Sunny Ozell, em setembro de 2013, foi McKellen quem celebrou a cerimônia, depois de obter autorização para conduzir o casamento. Em 2019, no aniversário de 80 anos do amigo, Stewart publicou uma homenagem e agradeceu por McKellen ter participado de sua vida como colega de trabalho, amigo e celebrante de seu matrimônio.
Stewart havia sido casado anteriormente com a coreógrafa Sheila Falconer, entre 1966 e 1990, com quem teve dois filhos, Daniel e Sophia, e com a produtora Wendy Neuss, entre 2000 e 2003. Seu terceiro casamento começou quando já estava na casa dos 70 anos e se tornou uma das principais referências de sua vida pessoal nos últimos anos. Em entrevistas, o ator destacava a inteligência e a curiosidade intelectual de Sunny, que acompanhou sua trajetória durante a retomada de “Jornada nas Estrelas” e a publicação de suas memórias.
O combate à violência doméstica
A infância em Yorkshire também teve consequências que ultrapassaram sua carreira artística. Depois de passar décadas sem falar publicamente sobre as agressões que testemunhou em casa, Stewart se tornou um defensor das vítimas de violência doméstica. Participou de campanhas da Anistia Internacional e apoiou a organização britânica Refuge, dedicada à proteção de mulheres e crianças. Em seus depoimentos, condenava especialmente a tendência de responsabilizar as vítimas pela violência sofrida, comportamento que havia testemunhado entre policiais e profissionais de saúde quando era criança.
Com o passar dos anos, também procurou compreender a experiência do pai durante a guerra. O ator afirmou acreditar que Alfred sofria de transtorno de estresse pós-traumático, uma condição pouco reconhecida entre veteranos de sua geração. Essa descoberta o levou a apoiar a organização Combat Stress, voltada ao atendimento psicológico de ex-militares. Stewart insistia, porém, na distinção entre compreender as origens da violência e justificá-la. O sofrimento do pai, argumentava, não diminuía sua responsabilidade pelas agressões contra Gladys.
A experiência ganhou um tratamento mais extenso em “Making It So”, autobiografia lançada em 2023. No livro, o ator revisitou a pobreza da infância, a formação teatral, o relacionamento difícil com os pais, os dois primeiros casamentos e as oportunidades profissionais que transformaram sua vida. Também reconheceu que precisou de décadas de terapia para compreender os efeitos das agressões que presenciou. Em entrevista ao The Guardian durante o lançamento, contou que escrever as memórias o obrigou a revisitar episódios sobre os quais havia permanecido em silêncio durante grande parte da vida.
A despedida de Jean-Luc Picard
A última grande fase de sua carreira começou com o retorno ao papel que o havia transformado num astro mundial. Em 2018, Stewart foi procurado pelos produtores Alex Kurtzman e Akiva Goldsman para discutir uma nova série centrada em Jean-Luc Picard. Sua reação inicial foi negativa. Ele considerava a trajetória do personagem encerrada desde “Jornada nas Estrelas: Nêmesis” e não queria repetir uma fórmula que havia funcionado décadas antes. Mesmo assim, aceitou ouvir os produtores e acabou convencido pela possibilidade de mostrar um Picard envelhecido, afastado da Frota Estelar e confrontado com as consequências de suas antigas decisões.
Stewart estabeleceu condições para voltar. Não queria que a atração dependesse de uma reunião nostálgica do elenco original, insistiu que Picard não usasse uniforme e pediu que a produção terminasse depois de três temporadas. O acordo deu origem a “Star Trek: Picard”, lançada em 2020 pela Paramount+. Na primeira fase, a série apresentou o antigo capitão como um homem desiludido com decisões da própria Federação. A história recuperava personagens e conflitos da franquia, mas também abordava o envelhecimento, a perda e a dificuldade de permanecer fiel aos próprios princípios.
A 3ª e última temporada, exibida em 2023, acabou reunindo praticamente todo o elenco principal de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”, incluindo Jonathan Frakes, Gates McFadden, Michael Dorn, Marina Sirtis, Brent Spiner e LeVar Burton. O reencontro levou Picard de volta à Enterprise e encerrou sua trajetória televisiva ao lado dos companheiros que haviam marcado o início de sua fama. No mesmo ano, Stewart publicou “Making It So”, título retirado de uma das expressões mais conhecidas de seu personagem.
Os últimos trabalhos e o desejo de continuar
Mesmo depois do encerramento de “Star Trek: Picard”, o ator continuou a trabalhar. Narrou documentários, participou de produções de animação e integrou o elenco de vozes de “As Ovelhas Detetives” (2026), aventura baseada no livro de Leonie Swann. Também dublou uma personagem da série “Bait”, estrelada por Riz Ahmed, e manteve o interesse por novas interpretações de Shakespeare. Em julho deste ano, poucos dias antes de completar 86 anos, desmentiu rumores de que sua participação em “Vingadores: Doutor Destino” marcaria sua aposentadoria.
Na entrevista concedida ao TV Insider, Stewart reconheceu que as ofertas de papéis diminuíam com a idade, mas afirmou que ainda recebia propostas capazes de despertar seu interesse. “Adoro ser desafiado por novos trabalhos”, declarou. Em seguida, rejeitou a ideia de encerrar voluntariamente a carreira: “Não consigo imaginar uma aposentadoria oficial. Sempre serei ator”.