
Instagram/Netinho
Morre Netinho, voz de Milla e ícone do axé, aos 60 anos
Cantor morreu após complicações de um linfoma e deixa carreira marcada por sucessos e polêmicas envolvendo bolsonarismo
Cantor morreu em Salvador
O cantor Netinho, um dos responsáveis pela popularização do axé music nos anos 1990, morreu na manhã desta terça-feira (13/10) aos 60 anos, em Salvador. Intérprete de sucessos como “Milla”, “Beijo na Boca” e “Menina”, ele estava internado no Hospital Aliança Star, onde tratava um linfoma não Hodgkin do tipo B. Segundo sua equipe, o câncer evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
Como o câncer evoluiu?
Netinho recebeu o diagnóstico em março de 2025 e passou por sessões de quimioterapia. Chegou a anunciar a remissão da doença e voltou a se apresentar, mas exames realizados em maio deste ano revelaram o retorno do linfoma, quando ele procurou atendimento por um problema nos rins. O cantor retomou o tratamento e informou, em agosto, que havia completado nove das 16 sessões previstas antes de um transplante de medula óssea.
O quadro se agravou em setembro, quando o artista voltou a ser internado e anunciou seu afastamento das redes sociais. A assessoria informou que Netinho costumava dizer durante o tratamento: “Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei”. Por determinação do próprio cantor, o velório e a cremação serão restritos aos familiares e amigos próximos. Ele deixa a filha Bruna Trindade, de 28 anos, fruto do casamento com a jornalista Mariana Trindade.
Da Banda Beijo ao estrelato
Ernesto de Souza Andrade Júnior nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, em 12 de julho de 1966. Ainda adolescente, mudou-se para Salvador, onde começou a tocar violão e se aproximou da cena musical. A grande oportunidade surgiu em 1987, quando foi escolhido para comandar a Banda Beijo, que estreou no Carnaval do ano seguinte e rapidamente conquistou projeção nacional com “Beijo na Boca”.
À frente do grupo, Netinho lançou sucessos como “Prefixo de Verão” e “A Vida É Festa”, integrando a geração que transformou o Carnaval baiano em um fenômeno nacional. Em 1990, protagonizou uma experiência inédita ao levar um trio elétrico para a Itália durante a Copa do Mundo. A estrutura, transportada de navio, animou torcedores brasileiros em Turim.
A carreira solo começou em 1993, com o disco “Um Beijo pra Você”. A mudança ampliou sua popularidade e abriu caminho para uma sequência de álbuns que misturavam axé, pop e baladas românticas. O auge veio com “Netinho ao Vivo!” (1996), gravado em Aracaju, que vendeu milhões de cópias e transformou “Milla” num dos maiores sucessos brasileiros da década.
O sucesso de Milla e das novelas
Composta por Manno Góes, a música nasceu de uma história real de amor de verão vivida pelo compositor em Mar Grande, na Ilha de Itaparica. A gravação de Netinho atravessou gerações e permaneceu associada ao Carnaval, às festas populares e à memória afetiva dos anos 1990.
O cantor também conquistou espaço nas trilhas sonoras da Globo. “A Vida É Festa” integrou “Mulheres de Areia” (1993), enquanto “Menina” embalou o romance da personagem Amanda, interpretada por Paloma Duarte, em “Tropicaliente” (1994).
Outras gravações, como “Caso Sério”, de Rita Lee, chegaram à televisão por meio de “Malhação”. Em “Terra Nostra” (1999), Netinho gravou em italiano “O Surdato ‘Nnammurato”, tema de Paola, personagem de Maria Fernanda Cândido.
Primeiro grande problema de saúde
A carreira sofreu uma interrupção dramática em 2013, quando o cantor foi internado após complicações no fígado. Durante uma biópsia, sofreu uma hemorragia que exigiu uma cirurgia de emergência. Transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, enfrentou três acidentes vasculares cerebrais e passou por operações no cérebro.
Netinho reconheceu posteriormente que havia utilizado anabolizantes prescritos por um médico. As substâncias foram associadas a parte das complicações que enfrentou. A recuperação exigiu reabilitação prolongada, depois de perder temporariamente a voz e parte da capacidade de movimentação. Ele conseguiu retornar aos palcos nos anos seguintes.
Quando Netinho revelou ser bissexual?
A vida pessoal do artista também ganhou repercussão nacional. Em 2008, Netinho declarou publicamente ser bissexual numa entrevista à revista Quem e contou que havia mantido um relacionamento amoroso de três anos com outro homem.
“Eu gosto de meninos e meninas, mas hoje gosto mais de meninas. Eu me considero bissexual”, afirmou na ocasião. O cantor descreveu a relação masculina como uma experiência importante de sua vida e explicou que os dois não chegaram a morar juntos.
Em 2010, após uma reportagem do “Fantástico” que o comparou a Ricky Martin, Netinho criticou a edição da Globo e rejeitou a tentativa de enquadrá-lo numa identidade fixa. “Não gosto de me rotular. Em nada”, escreveu, argumentando que seu desejo e seus afetos poderiam se direcionar tanto a homens quanto a mulheres.
O conservadorismo e a rejeição à própria identidade
A posição pública do cantor mudou de tom nos anos seguintes, quando se aproximou do conservadorismo político. Em julho de 2020, durante uma transmissão com o então deputado federal Eduardo Bolsonaro, Netinho atacou a comunidade LGBTQIA+ por não apoiar o governo de Jair Bolsonaro.
“Se esse pessoal LGBT não vivesse de acordo com o fiofó”, declarou, antes de afirmar que integrantes da comunidade poderiam participar do governo se apoiassem o então presidente. O cantor também acusou pessoas LGBT de enxergarem a vida apenas pela sexualidade.
Na mesma conversa, atacou o Carnaval de Salvador, responsável por sua projeção nacional, classificando a festa como “Sodoma e Gomorra”. Netinho afirmou que famílias deixavam de frequentar a folia baiana por causa das demonstrações públicas de afeto entre homens e de comportamentos que considerava inadequados.
Bolsonarismo provoca rompimento com compositor
O envolvimento político também provocou uma ruptura pública com Manno Góes, compositor de “Milla”. Em 1º de maio de 2021, Netinho se apresentou num ato pró-Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo, diante de manifestantes que defendiam dar carta branca ao então presidente.
Antes de cantar seu maior sucesso, o artista pediu que os presentes levantassem as mãos em apoio a Bolsonaro. A utilização da música no evento provocou uma reação imediata de Manno, que questionou o teor político da manifestação.
“Autorizam o que? Golpe militar? Portanto, eu NÃO AUTORIZO esse débil mental de cantar minha música”, escreveu o compositor nas redes sociais.
Disputa por Milla foi parar na Justiça
Manno Góes anunciou que recorreria à Justiça para exigir a remoção dos vídeos da apresentação. Posteriormente, esclareceu que não poderia impedir Netinho de interpretar a composição ao vivo, mas buscava barrar a divulgação da música naquele contexto político.
A disputa teve outro desdobramento quando Daniela Mercury anunciou que gravaria uma versão de “Milla”, em solidariedade ao compositor. Netinho, por sua vez, também acionou judicialmente Manno Góes por declarações consideradas ofensivas, numa ação de indenização de R$ 40 mil.
O apoio a Bolsonaro levou Netinho a disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2022, pelo PL da Bahia. O cantor recebeu 31.448 votos e não foi eleito.
Apoio ao 8 de janeiro
Em janeiro de 2023, voltou a provocar controvérsia ao apoiar publicamente os envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília. A manifestação resultou no cancelamento de uma apresentação que faria durante o Carnaval no Iate Clube de Aracaju, cujo comando declarou não compactuar com atos antidemocráticos.
Nos últimos anos, Netinho manteve suas posições conservadoras e passou a criticar também os rumos do Carnaval de Salvador. Afastado há mais de uma década da festa que o consagrou, afirmou em 2025 que já não encontrava espaço para sua música na programação atual.