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Metrópoles acusa Estadão e Correio Braziliense de ligação com Vorcaro
Portal divulga conversas sobre influência em dois jornais, mas também enfrenta denúncias de interferência editorial e contratos milionários com o banqueiro
Disputa entre jornais amplia escândalo do Master
O Metrópoles ampliou na quinta-feira (22/10) suas acusações contra outros veículos de imprensa ao divulgar mensagens que associam o Estadão e o Correio Braziliense a tentativas de influência de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. As denúncias surgem depois de reportagens revelarem que o próprio portal recebeu milhões do banqueiro e submeteu textos à sua aprovação antes da publicação. O Estadão rebateu as acusações e denunciou uma ofensiva contra sua credibilidade.
O que o Metrópoles revelou sobre o Estadão?
O portal publicou conversas de maio de 2024 nas quais Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro discutem formas de ampliar sua presença no jornal paulista. “No Estadão estamos em casa, temos crédito lá”, afirmou Carneiro. O banqueiro também manifestou interesse numa operação de financiamento de R$ 142,5 milhões que permitiu ao Grupo Estado renegociar dívidas. Ao descobrir que não havia participado do negócio, lamentou: “Oportunidade ímpar. De blindar lá”.
O Estadão contestou a interpretação das mensagens. Segundo o jornal, elas mostram uma intenção de aproximação que não se concretizou, ao contrário do que o Metrópoles sugere. O empresário Rubens Ometto, que participou do financiamento, afirmou que sua atuação foi exclusivamente financeira, sem interferência editorial, e negou conhecer Carneiro. O jornal também acusou o concorrente de selecionar trechos das conversas para criar uma relação que não existiu.
Vorcaro tentou comprar o Correio Braziliense
Outra reportagem do Metrópoles revelou negociações de Vorcaro e Carneiro para comprar o Correio Braziliense, controlado pelos Diários Associados. O projeto previa utilizar precatórios federais para abater dívidas tributárias do grupo. Em abril de 2025, Carneiro comunicou ao banqueiro que os empresários haviam assumido o comando editorial do jornal desde o começo daquele mês.
As mensagens também registram pedidos de interferência na cobertura. Em abril de 2024, Carneiro ofereceu publicar uma nota sobre Vorcaro: “Se quiser, eu planto uma nota no Correio Braziliense amanhã cedo”. Em março de 2025, depois do anúncio da tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), Vorcaro reclamou que seus veículos não haviam publicado análises favoráveis ao negócio e pediu providências a Carneiro.
As conversas avançaram até agosto, quando Carneiro comunicou: “Correio assinado. Agora depende só de nós”. Em outra troca de mensagens, os dois discutiram uma ofensiva contra Ricardo Cappelli, crítico das relações entre o Master e o BRB. Vorcaro ordenou “moer” o adversário, e Carneiro respondeu: “Vamos desancar esse desgraçado”. Apesar das declarações sobre o controle editorial, a compra do jornal não foi concluída.
Metrópoles recebeu R$ 26,9 milhões do Master
As acusações são publicadas por um veículo que mantém sua própria relação financeira sob investigação jornalística. Em abril, o Estadão revelou que relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram R$ 27,28 milhões em repasses do grupo Master ao Metrópoles entre 2024 e 2025. Parte dos recursos foi transferida para empresas ligadas à família do ex-senador Luiz Estevão, proprietário do portal, em operações consideradas suspeitas pelo órgão.
Uma nova apuração do Estadão, divulgada em outubro, identificou negociações que somavam R$ 51,9 milhões. O Metrópoles confirmou os valores contratados, mas afirmou que recebeu efetivamente R$ 26,9 milhões, pois a liquidação do Master impediu a conclusão dos pagamentos. O portal atribuiu as quantias a publicidade, projetos de educação financeira e patrocínios esportivos.
O problema vai além dos contratos comerciais. Em 15 de outubro, uma investigação do UOL revelou que pelo menos 14 textos do Metrópoles foram enviados antecipadamente a Vorcaro, dos quais 11 passaram por alterações após pedidos do banqueiro. Duas reportagens teriam sido publicadas por solicitação dele. A CEO do portal, Lilian Tahan, justificou o procedimento: “Checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”. Ela negou relação entre os contratos publicitários e a cobertura jornalística.
Parceiro de Vorcaro deixa o Brazil Journal
As revelações também provocaram uma consequência no Brazil Journal. Nesta quinta-feira, Flávio Carneiro decidiu se afastar da sociedade e das funções executivas no veículo, após a divulgação de suas conversas com Vorcaro.
Em editorial intitulado “Um dia triste”, o Brazil Journal reconheceu que seu nome foi utilizado indevidamente pelo empresário. “Infelizmente, em suas interações com Daniel Vorcaro, o nome do Brazil Journal foi usado indevidamente e de forma que coloca em risco a credibilidade do veículo”, afirmou a publicação, que reafirmou sua independência editorial.
Investigação do UOL revelou que o fundador do Brazil Journal, Geraldo Samor, submetia reportagens sobre o Master à avaliação de Vorcaro. O banqueiro solicitava alterações que eram atendidas antes da publicação. Mensagens divulgadas posteriormente pelo Estadão mostraram que ele também interferia em datas de publicação e pedia a retirada de conteúdos já disponíveis no site.
PlatôBR e IstoÉ também aparecem nas mensagens
A influência de Vorcaro sobre a imprensa foi documentada em outros veículos. O PlatôBR tem como sócia a Foone, empresa de Carneiro, que enviava textos ao banqueiro antes da publicação e recebia pedidos de alterações. Em março de 2025, ao encaminhar uma entrevista do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, Carneiro escreveu: “Vou te mandando as minutas e você analisa e publicamos”. O banqueiro também determinou que o site evitasse determinados políticos e pediu ataques a Ricardo Cappelli. O diretor de redação do PlatôBR, Rodrigo Rangel, negou interferência de Vorcaro nas reportagens de sua equipe.
Carneiro também era investidor da IstoÉ e da IstoÉ Dinheiro, controladas pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Em 2024, Vorcaro encomendou uma capa sobre a farmacêutica Biomm, na qual havia investido. “Na IstoÉ é que controlamos mais”, afirmou ao assessor. O banqueiro também exigia ser consultado antes da publicação de notícias envolvendo políticos de seu interesse.
O esquema alcançou ainda o Diário do Centro do Mundo (DCM) e a CartaCapital. Segundo mensagens analisadas pelo UOL, o DCM recebia pagamentos mensais para não publicar críticas ao banqueiro e permitir a publicação de conteúdos escolhidos por seus representantes. O site negou o acordo e afirmou ter publicado dezenas de denúncias contra Vorcaro. Na CartaCapital, contratos publicitários e adiantamentos financeiros chegaram a ser acompanhados de negociações para uma possível entrada do banqueiro na sociedade, que não se concretizou. A publisher Manuela Carta afirmou que os contratos comerciais eram regulares e negou interferência editorial.
Escândalo já provocou demissão na Globo
O caso também derrubou um dos principais executivos do Grupo Globo. Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, foi demitido em 15 de outubro após a divulgação de conversas com Vorcaro. Responsável por negócios que incluíam O Globo, Extra, Valor Econômico, Vogue, Marie Claire e CBN, Kachar negociava patrocínios, recebia reclamações sobre reportagens críticas e discutia pedidos para promover os interesses pessoais e empresariais do banqueiro.
Entre os episódios revelados estava a solicitação para divulgar uma marca de Martha Graeff, então namorada de Vorcaro, nas publicações do grupo. A Globo classificou a relação do executivo com o anunciante como inadequada e reafirmou a independência de suas redações.
O escândalo também alcançou a CNN Brasil, após a divulgação de mensagens sobre negociações publicitárias e tentativas de interferência na programação econômica da emissora, que negou ter cedido às exigências.
Aberto para posicionamentos
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