
IA Arte/Pipoca Moderna
IA da Meta censura criações centradas em Lula e libera artes de Flávio Bolsonaro
Empresa reconhece problema após testes viralizarem, mas mantém ferramenta produzindo peças eleitorais apenas para candidato do PL
Meta reconhece falha na inteligência artificial
A Meta confirmou nesta quarta-feira (14/10) uma falha nos filtros de sua inteligência artificial que bloqueia artes relacionadas a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto permitia produzir propaganda eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL). O problema foi denunciado por diversos usuários nas redes sociais e reproduzido em testes de diferentes veículos de imprensa, que comprovaram a diferença de tratamento entre os candidatos à Presidência.
Como a discriminação foi descoberta?
As reclamações começaram a circular na terça-feira (13/10), com usuários compartilhando capturas de tela de conversas com a Meta AI, ferramenta integrada ao WhatsApp. A inteligência artificial se recusava a criar imagens com expressões como “Lula 13” e “Vote Lula”, mas atendia normalmente a comandos com “Flávio 22” e “Vote Flávio”. A coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, reproduziu os testes e conseguiu gerar um cartaz para o senador, com palavras como “compromisso”, “trabalho” e “renovação”.
A diferença foi confirmada em experimentos independentes do Brasil de Fato, Metrópoles, Tecnoblog e Olhar Digital. A ferramenta bloqueava até variações do nome do presidente, como “Vote Luiz Inácio”, enquanto produzia banners com as cores da bandeira brasileira e referências ao candidato do PL.
O que a Meta confirmou?
Questionada pela imprensa, a Meta informou que havia proibido temporariamente recomendações de candidatos e a geração de imagens eleitorais para cumprir as regras brasileiras. A empresa reconheceu problemas na aplicação dos filtros aos nomes usados nas urnas. “Tomamos medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens”, afirmou em nota.
O Tecnoblog apurou que o episódio era tratado internamente como um erro de configuração. Supostamente, o sistema havia sido preparado para bloquear os nomes completos dos políticos, mas não aplicava a mesma restrição a determinadas versões abreviadas. Entretanto, os nomes “Lula” e até “Luiz Inácio” estavam sendo barrados, enquanto “Flávio” não só passava pelo bloqueio como era imediatamente identificado como sendo Flávio Bolsonaro.
A própria Meta AI reconheceu a inconsistência ao ser confrontada com os resultados pela Folha. “Sei que parece incoerente”, respondeu o chatbot, depois de gerar material para Flávio e recusar uma imagem equivalente para Lula. A ferramenta atribuiu a diferença a filtros automáticos de segurança que não estariam funcionando da mesma maneira para os dois candidatos.
Correção não resolveu o problema
A empresa anunciou medidas corretivas, mas novos testes mostraram que a ferramenta continua produzindo material para Flávio e recusando pedidos para Lula, mesmo depois da suposta correção. A Folha repetiu os testes e constatou que a restrição continuava desigual.
O Olhar Digital, por outro lado, conseguiu registrar o bloqueio de uma nova tentativa de gerar imagens com o nome do senador após o posicionamento da empresa. Os resultados divergentes indicam que as medidas adotadas não estavam produzindo efeitos uniformes em todos os testes.
Outra investigação da Folha identificou um componente geográfico. Correspondentes nos Estados Unidos, na Alemanha e na Argentina conseguiram gerar propaganda para Lula utilizando contas de WhatsApp vinculadas a números estrangeiros. Os mesmos comandos eram recusados para números brasileiros, inclusive quando utilizados fora do país.
O que o TSE está investigando?
O anúncio da correção ocorreu quando a Meta já enfrentava uma cobrança do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por denúncias de restrições contra a campanha petista. No sábado (10/10), o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a empresa apresentasse esclarecimentos sobre problemas na distribuição de conteúdos, limitações de anúncios e quedas inexplicadas na contagem de visualizações. A decisão também exigiu a preservação dos registros técnicos necessários à investigação.
Na resposta apresentada ao tribunal, a Meta reconheceu uma falha global ocorrida em 7 de outubro, que afetou a contagem de visualizações de vídeos Reels em mais de cem países. A empresa negou que o problema tivesse alterado a distribuição das publicações ou provocado prejuízo seletivo à candidatura de Lula. Essa manifestação, feita antes da descoberta dos bloqueios da Meta AI, tratava de outro conjunto de problemas técnicos.
Com os novos testes, a campanha petista apresentou nesta quarta-feira uma petição ao TSE, acusando a plataforma de interferência eleitoral. A Resolução nº 23.755/2026 proíbe que sistemas de inteligência artificial recomendem candidaturas, indiquem preferência eleitoral ou pratiquem qualquer forma de favorecimento ou desfavorecimento político, inclusive por respostas automatizadas. A aplicação desigual de filtros passou, assim, a integrar os questionamentos judiciais sobre a conduta da empresa.
Denúncias de censura se multiplicam
A organização CTRL+Z também acionou a Corregedoria-Geral da Justiça Eleitoral para solicitar uma investigação sobre a Meta. A entidade reuniu 1.121 relatos de restrições durante a campanha, principalmente contra perfis favoráveis a Lula. Desse total, 36% envolvem redução de alcance, 32% limitações de funcionalidades e 22% banimentos de contas, publicações ou comentários. A organização pede acesso aos critérios de moderação e a suspensão das funcionalidades de bloqueio automatizado caso as irregularidades sejam confirmadas.
A deputada federal Erika Hilton também afirmou, em vídeo publicado nas redes nesta quarta, que seu canal “Tropa da Erika Hilton” não aparece nos resultados de busca do WhatsApp. Segundo ela, o aplicativo sugere o canal “Tropa do Flávio Bolsonaro” quando usuários procuram pelo seu.
A repercussão levou a campanha de Lula a anunciar uma denúncia internacional. Segundo a coluna de Tatiana Farah, do UOL, o presidente determinou que sua equipe formalizasse uma queixa à Organização dos Estados Americanos (OEA). O coordenador da campanha, Camilo Santana, afirmou que pretende levar o caso também aos observadores estrangeiros que acompanham a eleição brasileira. Em três dias, a equipe petista registrou mais de 2.500 reclamações de usuários contra a atuação da Meta.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.