
Divulgação/Paramount
Guia da Pipoca: Cinemas recebem Street Fighter, sátiras ácidas e maratona de Jogos Vorazes
Filmes de Romain Gavras e Karim Aïnouz, sci-fi brasileira de baixo orçamento e suspense de sobrevivência fazem parte da programação
A nova adaptação de “Street Fighter”, fenômeno dos videogames, encabeça as estreias de cinema desta quinta (15/10). A programação inclui duas sátiras ácidas sobre os ricos: “Sacrifício”, de Romain Gavras, com Chris Evans, e “Rosebush Pruning”, do brasileiro Karim Aïnouz, e também contrasta a sci-fi brasileira de baixo orçamento “Consequências Paralelas” com o relançamento dos cinco blockbusters de “Jogos Vorazes”. “Dentro da Baleia”, suspense sobre um mergulhador engolido por um cachalote, completa a lista. Confira os detalhes.
🎞️ STREET FIGHTER
Depois de duas adaptações cinematográficas mal recebidas, a franquia de videogames da Capcom retorna às telas com uma produção que mergulha nas origens dos jogos, com uma estética inspirada nos fliperamas dos anos 1990. A adaptação abandona a tentativa de transformar o universo dos jogos numa história militar convencional, como aconteceu no filme de 1994 com Jean-Claude Van Damme. A proposta agora assume o exagero dos personagens, os golpes especiais e a lógica dos confrontos que consagraram a franquia.
Dirigido por Kitao Sakurai (“Twisted Metal”), o filme se passa em 1993, época em que “Street Fighter II” já havia transformado os jogos de luta num fenômeno mundial. Andrew Koji (“Warrior”) interpreta Ryu, Noah Centineo (“Para Todos os Garotos que Já Amei”) vive Ken Masters e Callina Liang (“Presença”) assume o papel de Chun-Li.
A trama reúne Ryu e Ken, antigos companheiros que seguiram caminhos diferentes, depois que Chun-Li os convoca para participar do World Warrior Tournament, competição internacional que reúne os lutadores mais perigosos do planeta. O torneio esconde uma conspiração que coloca os amigos em lados opostos e os obriga a enfrentar conflitos do passado.
O elenco ainda inclui Jason Momoa (“Aquaman”) como Blanka, Curtis “50 Cent” Jackson como Balrog e o cantor Orville Peck como Vega, além de David Dastmalchian (“O Esquadrão Suicida”) como o grande chefão M. Bison. A produção combina atores, lutadores profissionais e músicos, numa abordagem que privilegia o espetáculo físico e a identidade visual dos videogames. A nostalgia é parte central do projeto, embora não baste para construir uma narrativa que funcione além da sucessão de referências reconhecíveis.
🎞️ SACRIFÍCIO
O diretor franco-grego Romain Gavras (“Athena”), filho do lendário cineasta político Costa-Gavras (“Z”), combina sátira social, comédia absurda e suspense em seu filme sobre celebridades, fanatismo religioso e ativismo ambiental. Chris Evans (“Vingadores: Ultimato”) interpreta um astro de filmes de ação em decadência que tenta recuperar a fama durante um evento beneficente na Grécia.
O roteiro, escrito por Gavras e Will Arbery (“Succession”), reúne Anya Taylor-Joy (“Furiosa: Uma Saga Mad Max”), Salma Hayek (“Frida”), Vincent Cassel (“Cisne Negro”) e John Malkovich (“Quero Ser John Malkovich”) numa trama que confronta a ostentação dos milionários com crenças apocalípticas. O personagem de Evans participa de uma festa de gala ambiental organizada por um bilionário e sua esposa, quando o evento é invadido por um grupo radical que acredita numa profecia sobre o fim da humanidade. Segundo seus seguidores, uma catástrofe destruirá o planeta em três dias, a menos que três pessoas sejam sacrificadas num vulcão. A tentativa de sobrevivência coloca os reféns numa jornada que mistura violência, situações absurdas e referências à mitologia grega.
O conflito opõe duas formas de espetáculo: a caridade publicitária das elites e o radicalismo de um grupo disposto a cometer assassinatos em nome da salvação coletiva. Conhecido por viver o Capitão América dos filmes da Marvel, Evans explora a vaidade de um personagem acostumado a representar heróis nos cinemas, mas incapaz de enfrentar uma crise verdadeira. Gavras encontra nessa contradição seu principal instrumento de humor, embora a mistura de gêneros nem sempre sustente a contundência política pretendida. Exibido no Festival de Toronto de 2025, o longa dividiu a crítica entre elogios à direção visual e ressalvas à maneira como sua sátira perde precisão ao avançar para o terreno do fantástico.
🎞️ DENTRO DA BALEIA
A história bíblica de Jonas encontra o cinema de sobrevivência num suspense que transforma o interior de uma baleia em cenário de confinamento extremo. Baseado no romance de Daniel Kraus, o filme é dirigido por Brian Duffield (“Ninguém Vai te Salvar”), especialista em combinar situações fantásticas com conflitos emocionais.
Austin Abrams (“Resident Evil”) interpreta um mergulhador que vasculha o mar na Califórnia para procurar os restos mortais do pai (Josh Brolin, “Duna”), com quem manteve uma relação difícil. Durante a busca, é engolido por um cachalote de aproximadamente 24 metros e fica preso em seu aparelho digestivo, com apenas uma hora de oxigênio disponível. Para sobreviver, precisa encontrar uma saída enquanto enfrenta o ambiente hostil e relembra ensinamentos paternos que ignorou durante anos. A narrativa alterna a luta pela sobrevivência com lembranças de uma convivência marcada por conflitos e ressentimentos.
A situação remete a outros suspenses em espaços restritos, como “Enterrado Vivo” e “127 Horas”, mas incorpora uma dimensão biológica que determina os obstáculos enfrentados pelo protagonista. Duffield trabalha com a contradição entre a escala gigantesca do animal e o espaço reduzido disponível para o personagem. O interior da baleia também se torna uma representação física do luto, com a necessidade de escapar diretamente associada à dificuldade de superar o passado.
🎞️ ROSEBUSH PRUNING
O diretor brasileiro Karim Aïnouz (“A Vida Invisível”) revisita o clássico italiano “I Pugni in Tasca”, dirigido por Marco Bellocchio em 1965, numa sátira sobre a decadência moral de uma família milionária. A atualização tem roteiro de Efthimis Filippou, colaborador de Yorgos Lanthimos em “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, e reúne um elenco impressionante, formado por Callum Turner (“Eternidade”), Jamie Bell (“Quarteto Fantástico”), Lukas Gage (“Sorria 2”), Riley Keough (“Jay Kelly”), Elle Fanning (“Predador: Terras Selvagens”), Tracy Letts (“Ford vs Ferrari”) e Pamela Anderson (“A Última Showgirl”).
Quatro irmãos americanos vivem isolados numa mansão na Catalunha, sustentados pela fortuna da família e submetidos aos caprichos de um pai cego e autoritário. Ed (Turner), Jack (Bell), Anna (Keough) e Robert (Gage) mantêm relações marcadas por dependência emocional, rivalidades e desejos reprimidos. A convivência começa a desmoronar quando Jack anuncia a intenção de sair de casa para viver com a namorada Martha (Fanning). Sua decisão desencadeia disputas e revelações sobre o passado familiar, incluindo as circunstâncias da morte da mãe (Anderson), supostamente atacada por lobos.
Aïnouz utiliza a fotografia de Hélène Louvart (“A Quimera”) e a arquitetura luxuosa da residência para contrapor beleza visual e degradação psicológica. A influência de Lanthimos aparece no humor desconfortável do roteiro, na sexualidade perturbadora e na representação de personagens incapazes de estabelecer relações afetivas convencionais. A sátira procura associar o privilégio econômico à infantilização dos herdeiros, mas seu interesse pela perversidade frequentemente se sobrepõe à investigação das estruturas que pretende criticar. Exibido no Festival de Berlim deste ano, a produção acabou rejeitada pela crítica, com apenas 16% de aprovação no Rotten Tomatoes.
🎞️ CONSEQUÊNCIAS PARALELAS
A ficção científica brasileira busca ser uma alternativa aos lançamentos com grandes efeitos especiais do gênero ao construir sua trama em torno de recursos mínimos: três atores, uma locação e uma máquina do tempo improvisada. Dirigido por Gabriel França e CD Vallada, o longa transforma uma experiência aparentemente inofensiva numa sucessão de tentativas de assassinato. Felipe Hintze interpreta Max, que passa a enfrentar repetidas versões de um mesmo acontecimento ao lado dos amigos Pedro (João Fenerich, “Fim”) e Bruna (Carol Macedo, de “Fina Estampa”). Camila Morgado (“Bom Dia, Verônica”) também participa do elenco com uma atuação de voz.
Os três amigos visitam uma casa de campo pertencente à falecida mãe de Bruna, onde encontram uma poltrona capaz de provocar pequenos deslocamentos temporais. A descoberta desperta a curiosidade do trio, mas a experiência termina em violência quando Pedro tenta matar Max sem qualquer explicação. O rapaz descobre que pode retornar alguns segundos ao passado para evitar a própria morte. Cada nova tentativa modifica o desenrolar dos acontecimentos e revela aspectos desconhecidos das relações entre os personagens, que passam a desconfiar uns dos outros.
Premiado em festivais especializados em cinema fantástico, incluindo o Macabro, no México, o filme aposta numa construção próxima do teatro, com longos diálogos e um plano-sequência inicial de quase 20 minutos, mas também expõe os riscos de uma narrativa que depende de repetidas discussões sobre as regras da viagem no tempo. Mesmo com o contraste entre a ambição conceitual e os recursos modestos, a produção acaba se destacando numa vertente ainda pouco explorada do cinema brasileiro de gênero.
🎞️ JOGOS VORAZES — MARATONA
A franquia baseada nos romances de Suzanne Collins retorna aos cinemas para preparar o lançamento de “Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita”, novo capítulo que estreia no mês que vem. A maratona reúne, em ordem de lançamento, “Jogos Vorazes” (2012), “Jogos Vorazes: Em Chamas” (2013), “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1” (2014), “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final” (2015) e “Jogos Vorazes – A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” (2023). A saga começou sob a direção de Gary Ross e passou para Francis Lawrence a partir do 2º filme, com Jennifer Lawrence (“O Lado Bom da Vida”) no papel que a transformou numa estrela mundial. As sessões especiais incluem materiais inéditos da próxima produção.
Os quatro primeiros longas acompanham Katniss Everdeen (Lawrence), adolescente de um país dividido em distritos submetidos ao governo autoritário da Capital. Ao se oferecer para substituir a irmã numa competição televisiva em que jovens precisam lutar até a morte, ela inicia uma trajetória que a transforma em símbolo de resistência. Ao lado de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), enfrenta o presidente Snow (Donald Sutherland) e participa de uma revolução que revela contradições também entre os rebeldes. O 5º filme recua 64 anos para contar a juventude de Snow (Tom Blyth) e sua relação com Lucy Gray Baird (Rachel Zegler), estabelecendo as origens políticas e pessoais do futuro ditador.
O impacto da franquia ultrapassou o fenômeno juvenil que a impulsionou nas bilheterias. A competição mortal se tornou metáfora pop do mundo político real, ao criticar a desigualdade social, a manipulação midiática e a transformação da violência em entretenimento, temas que ganharam novas leituras com a expansão das redes sociais e com a eleição de populistas com projetos extremistas.