
Divulgação/Globo
Globo discutiu volta das bets com Flávio Bolsonaro em almoço, revela O Povo
Executivos da emissora também teriam ouvido proposta para reverter o fim da escala 6x1
Interesses comerciais no almoço com Flávio
O almoço reservado entre a cúpula da Globo e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na sexta-feira (16/10), teve como principal assunto a possibilidade de restabelecer as apostas online no Brasil, segundo a coluna de João Paulo Biage publicada no sábado (17/10) pelo jornal cearense O Povo. O encontro, apresentado inicialmente pela emissora como uma visita institucional, teria sido motivado pelas perdas financeiras provocadas pela proibição das bets no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A revelação ganhou repercussão nas redes sociais no domingo (18/10), após ser compartilhada pelo cineasta Kleber Mendonça Filho (“O Agente Secreto”).
O que Flávio prometeu aos executivos?
A reunião aconteceu poucas horas antes da sabatina do candidato no “Jornal Nacional” e contou com João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais. Segundo Biage, Flávio afirmou aos dirigentes que já existe um acordo no Congresso Nacional para permitir a volta das casas de apostas. A negociação dependeria ainda da definição sobre a liberação dos cassinos virtuais, segmento que concentra jogos como o tigrinho e o aviãozinho, responsáveis por grande parte da arrecadação do setor.
O encontro também teve a participação de Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial. De acordo com o colunista, Flávio e Rogério afirmaram aos executivos que também pretendem rever o fim da escala de trabalho 6×1. A mudança constitucional havia sido promulgada pelo Congresso no mesmo dia da reunião, depois de uma votação que estabeleceu dois dias de descanso semanal e a redução gradual da jornada máxima para 40 horas, sem diminuição salarial.
Por que a proibição das bets afetou a Globo?
O Grupo Globo possui participação direta no mercado de apostas. Em agosto de 2024, anunciou uma sociedade com a americana MGM Resorts International para explorar apostas esportivas e jogos online no Brasil. A parceria deu origem à BetMGM, lançada em fevereiro de 2025, com uma operação que utiliza a tecnologia da MGM e a estrutura de comunicação e conhecimento do mercado brasileiro da Globo. A empresa opera por meio da Boa Lion S.A., autorizada pelo Ministério da Fazenda.
O negócio representava uma fonte de receita para o conglomerado, que também recebia publicidade de outras casas de apostas em suas transmissões esportivas, programas como o BBB, eventos e plataformas digitais. A medida provisória assinada por Lula em 25 de setembro proibiu a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa no país, atingindo simultaneamente a operação da BetMGM e os contratos comerciais do grupo com o setor.
A proibição interrompeu uma fonte importante de faturamento publicitário que, segundo O Povo, a Globo não teria conseguido substituir. O jornalista afirma que as propostas recebidas de outros anunciantes apresentam valores inferiores aos contratos anteriores, o que obrigou a direção a reduzir despesas. O tamanho das perdas não foi quantificado na reportagem.
Emissora cortou festas e ameaçou participação nos lucros
As consequências teriam chegado diretamente aos funcionários. Fontes internas ouvidas por Biage relataram que o grupo suspendeu as comemorações mensais dos aniversariantes e cancelou a tradicional festa de fim de ano da empresa. As medidas foram apresentadas como parte de uma contenção de gastos diante da queda na arrecadação comercial.
O comunicado também teria colocado os empregados diante de uma escolha: aceitar a eliminação das festas ou arriscar a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), benefício que representa uma parcela significativa da remuneração anual de parte dos profissionais. A reportagem descreve a mensagem como uma pressão indireta sobre os funcionários. A empresa não apresentou publicamente números que permitam dimensionar o impacto financeiro da proibição das apostas sobre essas despesas.
Globo também teria tentado manter a escala 6×1
A questão trabalhista constitui o segundo eixo da revelação de O Povo. Segundo Biage, o Grupo Globo tentou obter uma exceção à proposta que extinguiu a escala 6×1. Uma alteração conhecida nos bastidores como “Emenda Globo” pretendia excluir os empregados de empresas de comunicação dos benefícios da nova jornada, mas teria sido rejeitada durante a tramitação.
A atuação do grupo nas negociações da reforma já havia aparecido em outra investigação. Em maio, Raphael Di Cunto revelou na Folha de S. Paulo que a Globo e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) participaram de articulações para incluir na proposta uma regra que retirava o limite de horas trabalhadas de empregados com curso superior e remuneração superior a 2,5 tetos da Previdência Social. O dispositivo poderia atingir até 434 mil trabalhadores, segundo estimativa do Dieese, e entrou no texto aprovado pela Câmara. Na ocasião, a Globo negou ter participado das negociações.
A medida mencionada pela Folha é diferente da exclusão geral dos funcionários de empresas de comunicação relatada pelo O Povo. Ambas, entretanto, envolvem tentativas de flexibilizar as proteções trabalhistas previstas na reforma. A Emenda Constitucional 141, promulgada na sexta-feira, estabelece uma transição para a redução da jornada semanal de 44 para 42 horas em 60 dias e para 40 horas após um ano.
Almoço foi apresentado como visita institucional
O almoço de Flávio com João Roberto Marinho e Paulo Tonet havia sido revelado na própria sexta-feira pelo jornalista Igor Gadelha, do Metrópoles. A notícia foi confirmada posteriormente pela Globo, que classificou o encontro como uma visita institucional e afirmou que não houve participação de profissionais da redação. “O encontro não contou com a presença de lideranças do Jornalismo”, declarou a emissora. Participou apenas o chefão de todos.
A reunião provocou protestos da campanha de Lula, que havia participado da sabatina na noite anterior sem receber convite semelhante. O ministro Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação do governo, considerou inadequada a aproximação da direção da empresa com um dos candidatos em plena disputa presidencial. A Globo argumentou que visitas de cortesia são comuns e afirmou que Lula também poderia ter sido recebido caso tivesse solicitado um encontro.
O episódio ocorreu um dia depois da demissão de Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, após a divulgação de mensagens que expuseram sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. As conversas revelaram negociações de patrocínios e pedidos do banqueiro para promover interesses pessoais em publicações do grupo. A empresa classificou a relação de Kachar com o anunciante como inadequada.
Lula já havia apontado interesse da Globo nas bets
Antes da publicação da reportagem de O Povo, Lula havia associado o encontro de Flávio aos interesses econômicos da emissora. Durante um ato de campanha em Ipatinga, Minas Gerais, na sexta-feira, o presidente afirmou que a Globo estaria insatisfeita com medidas de seu governo, especialmente a proibição das casas de apostas e o fim da escala 6×1.
“Certamente, a Globo tá com raiva de mim porque eu acabei com bets e ela tinha a bet”, declarou o presidente. Também questionou a realização do almoço no mesmo dia da sabatina e afirmou que a emissora estava sob suspeição.
A investigação de João Paulo Biage teria confirmado o conteúdo da conversa e os interesses comerciais envolvidos. Ao contrário das primeiras notícias sobre o encontro, que se concentravam na diferença de tratamento entre os candidatos e nas possíveis consequências para a cobertura eleitoral, a coluna do O Povo identificou dois assuntos concretos discutidos pela direção da Globo com Flávio: a retomada das apostas online e a revisão dos direitos trabalhistas recém-aprovados.
Flávio também é investigado por vínculos com bets
A revelação da conversa com Flávio Bolsonaro sobre a retomada das apostas ocorre em meio a uma investigação sobre as próprias relações do candidato com empresários do setor. A Polícia Federal encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz, ligado à Rede Loto, uma das primeiras empresas autorizadas a explorar apostas esportivas no Brasil. A investigação foi revelada no domingo (18/10) pelo Estadão. A PF apura suspeitas de evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas e o processo está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Entre os documentos analisados pela PF estão mensagens e e-mails que identificam Flávio como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa administrada por Tomaz. O cadastro permitiria acesso e gerenciamento dos recursos. Em maio de 2025, uma funcionária do advogado pediu ao Santander que retirasse o nome do senador da conta. A descoberta levantou suspeitas de participação financeira ou societária de Flávio nos negócios do empresário, embora ambos neguem ter compartilhado contas ou mantido relações comerciais.
Os investigadores também identificaram que a Cathedral, holding ligada ao advogado e controladora da Rede Loto, pagou viagens de Flávio em jatos executivos entre Portugal e França, em 2025, conforme revelou a Folha de S. Paulo. O próprio Flávio admitiu que viajou com a família num jato particular do advogado, de Miami para Brasília, em janeiro de 2025. “Eu viajei com o dono do avião, que é o Willer”, declarou em setembro. A aeronave também tinha entre seus proprietários o banqueiro Daniel Vorcaro, por meio de uma empresa que administrava o compartilhamento do jato.
Willer Tomaz também é acusado pelo jogador Richarlison, atacante do Tottenham, de ter participado com Flávio Bolsonaro de uma manobra para tomar a posse de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ). Em vídeo divulgado no sábado (17/10), o atleta afirmou ter investido cerca de R$ 10 milhões no imóvel e acusou os dois de obter sua posse judicialmente depois que ele recusou uma proposta de venda. Flávio chegou a visitar a propriedade com Tomaz em 2021. O imóvel acabou sob controle da WT Administração de Imóveis, empresa do advogado, após uma disputa judicial encerrada em 2025. Richarlison pediu à Polícia Federal que investigue o caso. Tomaz contesta as acusações e afirma que a empresa ligada ao jogador perdeu a disputa na Justiça. Flávio nega participação na negociação.
O novo inquérito é o 2º envolvendo Flávio no STF. O primeiro apura a origem dos recursos utilizados para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro que recebeu dinheiro de pessoas ligadas ao Banco Master.
Aberto para posicionamentos
A Globo ainda não se manifestou sobre a denúncia publicada pelo jornal cearense. Flávio Bolsonaro também não se manifestou sobre a nova investigação, mas anteriormente negou manter negócios com Willer Tomaz. O advogado, por sua vez, rejeitou irregularidades e afirmou que os dois possuem apenas uma relação de amizade. Tomaz ainda questionou a divulgação da investigação poucas horas antes do debate presidencial de domingo.
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.