
Divulgação/Globo
Cancelamento de debate expõe perda de poder da Globo nas eleições
Emissora ficou sem seu tradicional confronto presidencial enquanto Lula e Flávio reuniram grandes audiências fora da TV aberta
Globo perde relevância política
O debate presidencial desapareceu da programação da Globo na noite de quinta-feira (1º), mas a disputa política não sumiu com ele. Enquanto a emissora desistia de seu tradicional confronto da reta final e voltava à programação regular, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) falavam diretamente pela internet para públicos que, somados, superaram 15 milhões de espectadores. A cena deu outra dimensão a um cancelamento inicialmente explicado por uma sucessão de decisões judiciais: o palco político já não depende exclusivamente da emissora da família Marinho.
Milhões acompanharam candidatos na internet
Lula participou do “Flow Podcast” no mesmo horário reservado ao debate e alcançou pico de 1,7 milhão de espectadores simultâneos no YouTube, atingindo 10 milhões em visualizações até a manhã de sexta (2). Flávio também transmitiu uma live, acompanhado de aliados, e chegou a cerca de 900 mil pessoas ao mesmo tempo, chegando a 5 milhões na sexta. Os números não podem ser comparados diretamente aos pontos de Ibope da televisão, calculados por outra metodologia. Ainda assim, demonstram capacidade de mobilização em grande escala sem a intermediação de uma grande emissora.
O presidente do Brasil bateu seu próprio recorde no “Flow”, superando os 1,09 milhão de espectadores simultâneos da entrevista anterior, feita em 2022. A marca também representou praticamente o dobro da audiência atingida por seu rival nas eleições e entrou para a lista das maiores audiências simultâneas já registradas por uma transmissão política no YouTube brasileiro.
Como o debate desmoronou?
O recorde de Lula contrastou com o fracasso da Globo. Durante décadas, o último debate presidencial antes da votação ocupou posição central na campanha, com candidatos reorganizando agendas para estar no estúdio da emissora. Na quinta-feira, os dois nomes de maior projeção da disputa não estavam ali — e ainda assim conseguiram transformar plataformas digitais em seus próprios palcos.
A crise começou antes da transmissão. Lula já havia comunicado que não iria ao debate e escolheu o Flow para falar ao público. Pelas regras acertadas entre a Globo e representantes das campanhas, seu lugar permaneceria vazio e identificado no cenário. Quando chegasse a vez do ausente participar de uma rodada, o púlpito receberia destaque e o mediador lembraria que o candidato não compareceu. Além disso, seus rivais teriam direito a fazer perguntas ao candidato ausente. A campanha petista recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral por considerar que o formato criaria um palanque desigual.
A ministra Estela Aranha, do TSE, acolheu o pedido e proibiu tanto o destaque ao púlpito vazio quanto perguntas dirigidas a Lula sem possibilidade de resposta imediata. Em sua decisão, considerou que a dinâmica poderia produzir desequilíbrio entre as candidaturas e ultrapassar a simples informação de que um concorrente havia recusado o convite. “A consequência jurídica da ausência é simplesmente que ele perde a oportunidade de participar daquela rodada”, escreveu.
O fator Renan Santos
A ausência antecipada de Lula também ativou uma brecha prevista nas próprias regras do debate. O regulamento permitia que a Globo convidasse outro candidato para ocupar a vaga aberta por alguém que anunciasse previamente que não participaria. A substituição não era obrigatória e ficava a critério da emissora, mas a previsão existia.
Renan Santos, que apesar de pertencer ao campo da direita é declaradamente antibolsonarista, apoiou-se nessa cláusula para reivindicar participação. Inicialmente excluído porque o Missão não atingia o critério parlamentar adotado pela Globo, ele argumentou que a desistência de Lula permitia à emissora ampliar o debate para outro candidato. A campanha recorreu à Justiça depois que o convite não veio.
O ministro do STF Gilmar Mendes acolheu o pedido e determinou a inclusão de Renan, transformando em obrigação uma alternativa que a própria emissora havia reservado para si. Em sua decisão, Gilmar considerou que a emissora não havia seguido adequadamente suas próprias regras, além de ter criado uma expectativa legítimas para o candidato ao convidá-lo em diversos outros momentos a participar da discussão eleitoral.
A mudança ganhou peso político porque, segundo revelou Malu Gaspar na GloboNews, Flávio Bolsonaro havia condicionado sua presença à exclusão de Renan. Sem Renan, ele participaria do debate cercado de aliados políticos, sem nenhuma voz de dissenso. Pouco depois que a participação do candidato do Missão foi garantida judicialmente, Flávio desistiu do debate.
A desculpa conveniente
Flávio só cancelou após a confirmação de Renan, mas jogou a culpa na determinação do TSE, que chamou de “censura” e criticou as mudanças nas regras. Ele não reclamou quando outra decisão judicial anterior, do ministro Kássio Nunes Marques, obrigou a inclusão de Romeu Zema (Novo) no debate. Havia, inclusive, expectativa nas redes sociais de que Zema fosse renunciar e anunciar seu apoio ao próprio Flávio durante o debate.
Com Lula e Flávio ausentes, permaneceriam no encontro Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Zema e Renan Santos. A Globo poderia realizar o debate com esses participantes dentro das determinações judiciais. Nenhuma das decisões ordenou o cancelamento.
A emissora optou por retirar o programa da grade. Para a Globo, as intervenções do TSE e do STF, feitas poucas horas antes da transmissão, provocaram “insegurança jurídica” e representaram “interferência indevida” na organização jornalística do evento.
Essa distinção acabou se perdendo em parte da repercussão imediata. O Judiciário não proibiu a realização do debate. Estela Aranha limitou o tratamento dado aos ausentes, enquanto Kássio Nunes Marques e Gilmar Mendes ampliaram a lista de participantes. O cancelamento foi uma decisão editorial exclusiva da Globo diante do cenário criado pelas ausências de Lula e Flávio, líderes da disputa e maiores atrativos de audiência.
Censura ou limite ético?
Entidades patronais como Abert, ANJ e Aner reagiram em conjunto e ecoaram a Globo, considerando as decisões jurídicas uma agressão à liberdade de imprensa. As entidades sustentaram que emissoras precisam ter autonomia para definir a dinâmica dos debates e ressaltaram que as regras haviam sido negociadas previamente com representantes das campanhas.
Entretanto, o fundamento de Estela Aranha não atacou a liberdade imprensa. A ministra não questionou o direito da Globo de realizar o programa, mas entendeu que o direito legal de um candidato faltar não poderia resultar em manifestações dirigidas a ele sem contraditório no próprio debate. Uma das regras básicas da ética jornalística é justamente o direito ao contraditório – isso sem entrar no direito de resposta.
Em 2018, Jair Bolsonaro também adiantou que não compareceria ao último debate da Globo antes do primeiro turno. Sete candidatos foram ao estúdio e não havia um púlpito vazio com o nome de Bolsonaro no palco. O então presidente alegou recomendação médica enquanto se recuperava do atentado com facada. No mesmo horário do debate, porém, a Record exibiu uma entrevista com ele.
Lula também não foi no primeiro debate da Band deste ano. A emissora deixou um púlpito vazio com seu nome, mas Flávio também não apareceu. Renan Santos estava presente.
Globo tem histórico
A inevitável razão do cancelamento do debate da Globo passa pelos índices baixíssimos dos remanescentes nas pesquisas, que não despertam o mesmo engajamento que Lula e Flávio. Lula propôs um debate apenas com Flávio, após sua campanha considerar a proposta original de juntá-lo com vários opositores de direita como uma armadilha. A Globo não topou. Na noite de sexta, porém, em vez de assumir a questão fundamental da audiência, a empresa decidiu creditar o cancelamento às decisões judiciais, mesmo que a consequência desta postura alimente crise institucional.
Nascida durante a ditadura militar, a emissora dos Marinho já tinha usado seu poder para influenciar a eleição de Fernando Collor em 1989, ao editar de forma inverídica um debate com Lula. A situação tornou-se um marco do partidarismo televisivo e sua polêmica acabou mudando as regras do jornalismo político brasileiro. Anos depois, o próprio Memória Globo incorporou o episódio à seção de erros da emissora e preservou depoimentos de antigos dirigentes sobre a edição. O fato histórico tornou-se símbolo da interferência editorial da emissora numa eleição, que foi vencida pelo candidato que ela apoiava.
Os novos tempos
Líder da audiência televisiva há meio século, a Globo tem perdido relevância por erros estratégicos que fortalecem sua principal concorrência: o universo digital. Ao abrir mão da exclusividade da Copa do Mundo de Futebol para economizar com o pacote de direitos esportivos, permitiu que a CazéTV se tornasse uma potência no YouTube. Sua audiência caiu de 98% de alcance na TV aberta em 2022 para 82% em 2026, enquanto a CazéTV chegou a 44%. Foi um choque para a empresa carioca, que logo depois encerrou relações profissionais com alguns dos diretores responsáveis pela decisão controversa. Oficialmente, a empresa rejeitou essa explicação para a saída de seus profissionais mais poderosos, afirmando que as mudanças já faziam parte de um processo anterior.
Com a implosão do debate presidencial, o grupo empresarial volta a expor um vacilo. A emissora voluntariamente abandona o campo político, em que cada vez mais podcasts, redes sociais e canais digitais ampliam seus domínios de influência.
Lula explicitou essa escolha durante o Flow. O presidente criticou o formato tradicional dos debates e disse considerar pouco produtiva a reunião de candidatos com diferenças muito grandes de apoio eleitoral. Nesta campanha, ele preferiu entrevistas e podcasts aos confrontos organizados pelas emissoras.
O paradoxo da noite
A Globo planejava transformar a quinta-feira em seu grande momento eleitoral antes do 1º turno. O debate substituiria a novela das nove e teria cobertura especial nos canais do grupo. No fim, a emissora não exibiu o encontro, enquanto candidatos que recusaram ou abandonaram seu palco continuaram falando ao público por outros meios.
O resultado parece preconizar o fim de uma era: pela primeira vez numa reta final presidencial, o debate da Globo deixou de acontecer e a conversa política simplesmente mudou para outras telas.