
Instagram/Ed Sheeran
Bono revela que Ed Sheeran teve medo de gravar música politizada
Cantor do U2 lembra hesitação do britânico ao gravar música sobre Ucrânia após exclusão de Macklemore da turnê por falas pró-Palestina
Sheeran não queria saber de política
Bono revelou que Ed Sheeran demonstrou receio de se envolver em questões políticas ao participar de “Yours Eternally”, música do U2 inspirada pela guerra entre Ucrânia e Rússia. A lembrança chega num momento delicado para o cantor britânico, que enfrenta críticas após Macklemore ser retirado de sua turnê por manifestações pró-Palestina.
O que Ed Sheeran disse a Bono?
Durante a produção da faixa, Sheeran perguntou ao líder do U2 se a colaboração não o colocaria no centro de uma discussão política. “Você não vai me meter em política, vai?”, recordou Bono em entrevista à Rolling Stone UK. A conversa aconteceu durante a produção do EP “Days of Ash”, lançado pelo U2 em fevereiro. Bono lembrou a Sheeran que a música havia sido inspirada por um soldado ucraniano que admirava seu trabalho e ele acabou convencido.
“Yours Eternally” também conta com Taras Topolia, músico ucraniano que se tornou combatente durante a guerra. A letra assume a perspectiva de um soldado escrevendo para pessoas próximas enquanto permanece no front.
Bono considerou a hesitação normal
Bono disse compreender a preocupação e defendeu que artistas tenham liberdade para escolher até onde querem associar suas carreiras a causas políticas. Larry Mullen Jr. também apoiou essa posição durante a entrevista, apesar do histórico do próprio U2 de envolvimento com temas sociais e políticos.
A revelação teria passado quase como curiosidade de bastidor em outro momento. Agora, porém, ganha peso diante da crise que transformou a turnê de Sheeran num debate sobre os limites da neutralidade artística.
Como o cantor foi jogado na política?
A neutralidade de Sheeran acabou custando parte de sua reputação pela falta de posicionamento durante um incidente de sua turnê. O rapper Macklemore fazia parte da “Loop Tour” quando aproveitou apresentações no MetLife Stadium, em Nova Jersey, para manifestar apoio aos palestinos. Durante seu discurso, afirmou que Gaza e a Cisjordânia ocupada não haviam sido esquecidas, gritou “Free Palestine” e exibiu imagens relacionadas ao conflito.
As declarações provocaram reação de grupos pró-Israel e de proprietários de estádios que receberiam a turnê. Entre eles estava Robert Kraft, dono do Gillette Stadium e importante financiador de iniciativas ligadas a Israel. Macklemore acabou retirado das apresentações seguintes.
Sheeran afirmou que a decisão foi tomada pela promotora da turnê e não diretamente por ele. Disse também ter tentado negociar com os responsáveis pelos locais para manter Macklemore no espetáculo. Entretanto, justificou a decisão ao dizer que seu público “não espera um fórum político” nos shows e explicou que prefere usar sua plataforma como espaço de “segurança e acolhimento”. Também afirmou que escolher não falar publicamente sobre suas posições não significa falta de preocupação ou cumplicidade.
Outros artistas deixam a turnê
A saída de Macklemore e as declarações provocaram um efeito dominó. Finneas, Aaron Rowe, a banda Beoga e o grupo Lukas Graham abandonaram a turnê, da qual também faziam parte, em solidariedade ao rapper e à defesa do direito de artistas se manifestarem sobre a situação dos palestinos.
Finneas afirmou que não poderia permanecer na turnê depois do afastamento de um artista por suas manifestações. O Beoga, que trabalha com Sheeran há mais de dez anos, também deixou a agenda americana e criticou tentativas de silenciamento de posicionamentos pró-Palestina.
O público ameaçou boicote, os shows não venderam todos os ingressos e o Los Angeles Times destacou o paradoxo, ao observar que a tentativa de permanecer apolítico acabou colocando Sheeran no centro de uma disputa política.
Cantor acabou obrigado a se manifestar
A pressão levou Sheeran a abordar diretamente os ataques de Israel durante um show em Filadélfia. Ele classificou a situação humanitária em Gaza como “injustificável”, mas ainda assim buscou o meio-termo, classificando os ataques do Hamas em 7 de outubro de “horríveis” para completar, dizendo que o que acontece atualmente no território palestino é “catastrófico”. Também pediu desculpas pelos erros cometidos durante a crise envolvendo a turnê.
Macklemore, por sua vez, transformou a expulsão numa nova agenda de shows. Sua “Free Palestine Tour”, com apresentações em Londres, Paris e Dublin, teve ingressos esgotados rapidamente e destinará recursos a organizações ligadas à população palestina.