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Hackers atacam Ancine com xenofobia, ameaças e apoio a Flávio Bolsonaro
Invasão exibe candidato fazendo gesto de arminha e Júlia Zanatta chicoteando mapa do Nordeste, além de sugerir ataques terroristas
Invasão mostra lado sombrio do bolsonarismo
O portal de um sistema da Agência Nacional do Cinema (Ancine) sofreu um ataque hacker nesta segunda-feira (12/10) e passou a exibir propaganda favorável à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), acompanhada de ofensas xenófobas aos nordestinos e ameaças de terrorismo contra universidades públicas. Os invasores substituíram a página por mensagens políticas e uma montagem com o candidato e a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC).
Quem aparece na montagem?
Flávio Bolsonaro foi retratado com a camiseta da seleção brasileira e óculos escuros, fazendo o gesto de arma com os dedos, popularizado por seu pai, Jair Bolsonaro. Ao lado, Júlia Zanatta, parlamentar catarinense conhecida por usar tiaras de flores, aparece com um chicote diante do mapa do Nordeste pintado de vermelho.
A imagem da deputada recupera uma polêmica recente. Reeleita com mais de 560 mil votos em 4 de outubro, Zanatta comemorou a vitória pelas ruas de Florianópolis estalando um chicote. Depois das críticas, explicou que o gesto fazia referência à expressão regional “ganhou de relho”, equivalente a uma vitória por larga margem. A parlamentar classificou o episódio como uma “brincadeira simbólica”. Não há informações que vinculem a participação dela ou de Flávio à autoria da invasão.
O que escreveram os hackers?
O conteúdo foi preservado pelo serviço de arquivamento de páginas Wayback Machine. Sob o aviso “You’ve been hacked” (“Você foi hackeado”), os invasores colocaram em destaque a inscrição “NORDESTINOS BURROS”. Outra mensagem anunciava que as universidades públicas seriam incendiadas, acompanhada de insultos a pessoas identificadas como comunistas.
O texto também antecipava uma acusação de fraude caso Flávio Bolsonaro seja derrotado no 2º turno, marcado para 25 de outubro. “Se o Flávio não ganhar, eles manipularam as eleições com a China”, afirmava a mensagem, sem apresentar qualquer evidência para a acusação.
Os hackers declararam apoio à direita conservadora e evocaram o lema “Deus, pátria e família”, associado ao bolsonarismo. Também exaltaram os Estados Unidos, Israel e a região Sul do Brasil. A página terminava com um pedido de ajuda aos americanos, escrito numa mistura de inglês e português: “Help me EUA”.
Invasores defendem filme sobre Bolsonaro
O ataque também incorporou referências ao escândalo do Banco Master e ao financiamento de produções cinematográficas. Os responsáveis pela invasão defenderam o dinheiro destinado à cinebiografia de Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, e alegaram que recursos para um documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva teriam sido repassados irregularmente.
A comparação reproduz acusações que circulam na disputa eleitoral. O financiamento de “Dark Horse” por Daniel Vorcaro tem farto arsenal de provas e é objeto de investigação da Polícia Federal, enquanto a denúncia de um suposto patrocínio do banqueiro a um documentário sobre Lula, feita pela revista Veja, foi rechaçada pela PF, PGR e até o próprio advogado do réu e não aparece nas mensagens extraídas de seu celular, conforme apuração do UOL.
Como a Ancine reagiu?
A invasão atingiu uma página do Sistema Ancine Digital (SAD), plataforma utilizada pela agência para serviços relacionados ao setor audiovisual. Segundo a Folha de S.Paulo, as mensagens permaneceram disponíveis por aproximadamente uma hora.
A Associação das Servidoras e dos Servidores da Ancine (Aspac) informou que alertou a equipe técnica assim que recebeu relatos do problema. “Avisamos imediatamente a TI. Já tiraram do ar. Muito gratos!”, publicou a entidade. O conteúdo foi retirado, mas o sistema se tornou inacessível. A agência não divulgou uma manifestação oficial sobre o ataque até a publicação das primeiras reportagens.
Ancine já foi alvo de tentativas de desmonte
A escolha do órgão como alvo tem significado político. Durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, a agência enfrentou cortes orçamentários e paralisações que afetaram o financiamento do cinema brasileiro. Bolsonaro ameaçou extinguir a agência caso não pudesse estabelecer um “filtro” sobre as produções beneficiadas pelas políticas do audiovisual.
Em dezembro de 2019, ele afirmou que as produções brasileiras não deveriam mais abordar a “questão de ideologia” e classificou como “mentiras” histórias sobre o período de 1964 a 1985. “Os filmes que estamos fazendo a partir de agora não vão ter mais a questão de ideologia, aquelas mentiras todas de histórias passadas, falando do período de 1964 a 1985”, declarou, ao defender uma “releitura” daquele período.
“Há quanto tempo a gente não faz um bom filme, não é?”, perguntou retoricamente, sugerindo que o cinema brasileiro não tinha qualidade, apesar de ter sido eleito poucos meses antes de “Bacurau” e “A Vida Invisível” serem premiados em Cannes.
Ataque após recordes no Oscar
O ataque contra a Ancine acontece após os dois anos de maior projeção do cinema brasileiro na história do Oscar, graças à retomada dos incentivos com o governo Lula.
Foram justamente dois filmes centrados na repressão e nas consequências da ditadura que deram ao Brasil suas campanhas mais fortes no Oscar em sequência. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, sobre o desaparecimento e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva pelo regime militar, recebeu três indicações em 2025 e conquistou o primeiro Oscar brasileiro de Melhor Filme Internacional. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, ambientado em 1977 e construído sobre a violência e o apagamento produzidos pelo regime, recebeu quatro indicações em 2026, incluindo Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura.
Outro tipo de ataque contra a Ancine
A pressão pela extinção da Ancine chegou ao Congresso neste ano. Em 6 de março, o deputado federal Capitão Augusto (PL-SP) apresentou o Projeto de Lei 994/2026, que propõe acabar com a agência e transferir suas atribuições ao Ministério da Cultura. A proposta ainda aguarda despacho da Presidência da Câmara dos Deputados.
A retomada da discussão vai ocorrer após Capitão Augusto ser reeleito e o candidato presidencial de seu partido, Flávio Bolsonaro, filho de Jair, chegar ao 2º turno com um programa que prevê redução da estrutura e dos gastos do Estado, com propostas de fechamento de agências federais e ministérios.