
Instagram/Antonio Tabet
Tabet reposta “família miliciana” após Dino derrubar censura de Mendonça
Ordem anterior tinha atingido 1.125 links, incluindo posts de 641 perfis do X e até conteúdo do Santuário Nacional de Aparecida
Dino reverte ordem de Mendonça
Antonio Tabet republicou neste domingo (27/9) a piada sobre “família miliciana” que havia sido retirada do X por determinação do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Horas antes, Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), cassou a ordem de remoção e determinou que as plataformas restabelecessem não apenas o post do humorista, mas outras publicações excluídas pelo mesmo fundamento.
Quantos posts foram atingidos?
O alcance da decisão original era muito maior que a postagem de Tabet. A ordem de Mendonça listou 1.125 endereços para remoção: 1.022 no X, 54 no TikTok, 42 no Instagram, 4 no Facebook e 3 no YouTube. A relação ocupava dezenas de páginas do processo e havia sido apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro.
Uma análise independente dos 1.022 links do X identificou 641 perfis diferentes atingidos pela decisão original – uma reação ao rumor de que Flávio Bolsonaro, candidato evangélico à Presidência, pretendia tirar de Nossa Senhora Aparecida o posto de Padroeira do Brasil.
Lista atingiu até perfil do Santuário
A amplitude da relação produziu situações inesperadas. Entre os links incluídos na decisão estava um vídeo do TikTok da conta @santuarionacional, utilizada pelo Santuário Nacional de Aparecida para conteúdo religioso. O endereço aparece expressamente entre os posts que Mendonça determinou às plataformas analisar e retirar caso reproduzissem o núcleo considerado falso.
A lista também incluía vídeos do frei carmelita Gilvander Moreira, além de publicações do teólogo Leonardo Boff, de políticos como Erika Hilton, Jean Wyllys, Rogério Correia, Ivan Valente e do MST. O próprio processo registra links de Boff e do frei entre centenas de endereços enviados pela campanha.
Mendonça havia ressalvado em sua decisão que críticas, opiniões, sátiras e debates gerais sobre religião não deveriam ser atingidos. Ao mesmo tempo, autorizou as plataformas a retirar conteúdos “idênticos ou substancialmente equivalentes” sem necessidade de uma nova decisão para cada publicação e permitiu que novos posts fossem indicados diretamente às empresas.
Dino aponta risco à liberdade religiosa
Ao analisar um recurso de Tabet contra o que sua defesa considerou censura, Dino considerou que a intervenção tinha consequências além da liberdade de expressão. Segundo o ministro, a ordem poderia atingir também a liberdade religiosa ao deixar devotos de Nossa Senhora Aparecida receosos de participar do debate durante a campanha eleitoral.
Dino escreveu que seria “impossível enxergar” na postagem de Tabet um grau de ilegalidade que justificasse consequências tão severas antes de uma análise aprofundada. Também afirmou que restrições à circulação de opiniões em período eleitoral exigem cautela especial porque o calendário da eleição pode tornar seus efeitos irreversíveis.
A decisão determinou ao TSE e às plataformas o restabelecimento da postagem de Tabet “e das demais que tenham sido excluídas pelo mesmo fundamento”.
“Família miliciana” volta ao centro
Dino também atacou o ponto que havia transformado a primeira decisão em motivo de piada nas redes. Tabet não mencionava Flávio Bolsonaro no texto original. Ele publicou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida acompanhada da frase: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”.
Mendonça havia interpretado o texto como referência à família do candidato. Em sua fundamentação, escreveu que Tabet afirmava que “a família do representante” havia atacado Nossa Senhora. A defesa do humorista reagiu falando em um “curioso fenômeno de autoidentificação”.
Dino foi diretamente a esse ponto ao reverter a ordem. Segundo ele, considerar a publicação ilícita exigiria primeiro “presumir e estabelecer como verdade” que a expressão “família miliciana” se referia à família Bolsonaro. Para o ministro, essa associação não poderia ser simplesmente estabelecida judicialmente para justificar a retirada do conteúdo.
Tabet publica tudo outra vez
Após a decisão do STF, Tabet anunciou que não seria possível recuperar tecnicamente a publicação apagada e decidiu colocar outra idêntica no ar. Ele ainda pediu aos seguidores que ajudassem a fazer o conteúdo chegar outra vez a quem já o tinha visto e a quem havia sido impedido de vê-lo.
O resultado ampliou ainda mais a repercussão. O post original tinha sido retirado depois de alcançar cerca de 195 mil visualizações, 11 mil curtidas e 2 mil compartilhamentos. Já a republicação já superava 800 mil visualizações, 74 mil curtidas e 25 mil compartilhamentos até a noite de domingo.
A tentativa de retirada acabou, portanto, multiplicando o alcance da piada. Primeiro, a decisão de Mendonça alimentou a ironia sobre quem havia se identificado com a expressão “família miliciana”. Depois, a reversão de Dino permitiu que o mesmo texto voltasse às redes e explodisse em visualizações.
Polêmica começou com projeto de 2007
A controvérsia nasceu da circulação de mensagens que atribuíram diretamente a Flávio Bolsonaro a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou defender a medida. O projeto que deu origem à discussão existiu, mas foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli e arquivado no ano seguinte. Galli posteriormente foi assessor especial da Presidência durante o governo Jair Bolsonaro e apoia a candidatura de Flávio.
O debate também recuperou uma declaração recente de Flávio de que, se eleito, pretendia “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A combinação desses elementos foi alimentada ainda pelo bispo JB Carvalho, que batizou Flávio e que condena o culto à chamada “Rainha dos Céus”, relacionando a devoção a Maria a antigas práticas pagãs.
Flávio acusa integrantes da CNBB
Neste domingo, Flávio ampliou a polêmica ao acusar pessoas “de dentro da CNBB” de terem ajudado o PT a espalhar a informação contra sua candidatura. Ele não apresentou provas da participação de integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A declaração foi feita durante agenda eleitoral em Goiânia.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, reagiu em defesa da entidade e afirmou que a CNBB vem sofrendo ataques injustos. A acusação coloca a principal representação institucional dos bispos católicos no centro da disputa eleitoral, numa escalada do candidato evangélico.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.
A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida! pic.twitter.com/aiL4I3tLDH
— Antonio Tabet (@antoniotabet) September 27, 2026