
Instagram/Antonio Tabet
Piada de Antonio Tabet viraliza após Justiça mandar apagar
Humorista não citou Flávio Bolsonaro, mas campanha recorreu ao TSE e transformou “família miliciana” em tendência no X
Ordem faz piada explodir
Uma tentativa de retirar uma piada das redes produziu o efeito contrário. Quase 24 horas depois de o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandar Antonio Tabet apagar uma publicação que mencionava uma “família miliciana”, a expressão continuava entre os tópicos destacados do X no Brasil neste sábado (26/9). O humorista não havia citado Flávio Bolsonaro nem qualquer integrante de sua família no post original.
O que Tabet escreveu?
Na quinta-feira (24/9), em meio à polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida, Tabet publicou uma imagem da santa com a frase: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”.
A publicação já tinha ultrapassado 195 mil visualizações, 11 mil curtidas e 2 mil compartilhamentos quando a campanha de Flávio Bolsonaro acionou o TSE. O candidato entendeu que a mensagem fazia referência a ele e a seus familiares, embora nenhum deles aparecesse nominalmente no texto.
Mendonça manda apagar
André Mendonça acolheu o pedido da campanha e determinou a remoção. O ministro considerou que a publicação continha expressões de forte carga depreciativa e ultrapassava a crítica política ao relacionar a família do candidato a uma informação que classificou como falsa ou gravemente descontextualizada. “Ao afirmar que a família do representante resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida, a postagem não se limita a formular juízos abstratos”, determinou o ministro.
A decisão acabou criando o elemento que fez a piada ganhar outra dimensão. Ao examinar uma publicação que dizia apenas “família miliciana”, Mendonça passou a tratá-la como uma referência legítima à família de Flávio Bolsonaro. O próprio pedido apresentado pela campanha havia feito essa associação.
Além da retirada, a decisão estabeleceu multa de R$ 30 mil em caso de descumprimento. Tabet apagou a postagem, mas sua defesa anunciou recurso e acusou a ordem de restringir indevidamente uma manifestação de humor e crítica política.
“Autoidentificação” vira nova piada
A equipe de Tabet percebeu imediatamente a ironia criada pela decisão. Em nota, os advogados destacaram que Flávio não havia sido citado e classificaram o episódio como um “curioso fenômeno de autoidentificação”.
Segundo a defesa, o fato de a campanha ter se reconhecido na expressão não poderia ser usado como fundamento para retirar a postagem. Os advogados ainda recorreram à expressão popular “vestir a própria carapuça” ao contestar a interpretação adotada pelo ministro.
A discussão então deixou de girar principalmente em torno de Nossa Senhora Aparecida. Nas redes, o centro da piada passou a ser justamente quem havia decidido que “família miliciana” se referia à família Bolsonaro.
Tabet pede “perdão”
Obrigado a apagar a publicação original, Tabet reagiu com outra piada. Em nova postagem, anunciou que vinha pedir desculpas “à família miliciana” por chamá-la de “família miliciana” e repetiu várias vezes a expressão sem identificar quem seria essa família.
A ironia amplificou o caso. Usuários passaram a reproduzir “FAMÍLIA MILICIANA” em caixa alta, enquanto outros destacavam que a associação com a família de Flávio Bolsonaro tinha partido da própria campanha do candidato e reconhecida oficialmente pelo TSE.
Piada permanece entre os assuntos do X
Na noite de sexta, “FAMÍLIA MILICIANA” chegou ao grupo dos cinco assuntos mais destacados do X no Brasil. A expressão continuou aparecendo entre as principais tendências durante a madrugada, mesmo com a entrada de novos temas relacionados à proibição das bets, “A Fazenda” e outros acontecimentos do dia, e seguiu resistindo até a noite de sábado como um dos assuntos mais comentados do país.
A repercussão também levou “Tabet” e “Censura” aos destaques na plataforma, reforçando o “efeito Streisand”. A ordem para retirar a publicação original acabou multiplicando justamente o que pretendia tirar de circulação.
O que é ó “efeito Streisand”?
O termo surgiu em 2003, quando a cantora e atriz americana Barbra Streisand processou um fotógrafo. Ela exigiu a remoção de uma foto aérea de sua mansão na Califórnia de um site público de preservação da costa. Antes do processo, a imagem havia sido acessada apenas seis vezes. Depois que a ação judicial virou notícia, mais de 400 mil pessoas acessaram o site para ver a casa. A estrela perdeu a causa e ainda teve que pagar os custos de defesa do fotógrafo.
De onde veio a polêmica religiosa?
O post original surgiu durante a repercussão de uma informação que atribuía a Flávio Bolsonaro a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O candidato à presidente também protestou contra este boato.
A ideia, porém, existiu. O PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado e pastor evangélico Victorio Galli, propunha trocar na legislação “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O próprio texto justificava que a alteração retiraria o título nacional da santa. O projeto foi arquivado em 2008.
Galli foi assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro e atualmente é aliado e apoiador da candidatura de Flávio. A associação nas redes também ganhou combustível com uma declaração feita pelo presidenciável em agosto: “Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Flávio, porém, negou defender qualquer mudança no título de Nossa Senhora Aparecida.