
Divulgação/Simon & Schuster
Elon Musk ameaça processar produtores de documentário sobre sua vida
Advogado contesta sequência sobre Starlink e eleição de 2024, enquanto produtora rebate ameaça ao diretor Alex Gibney
Ameaça chega após estreia em Veneza
Elon Musk ameaçou tomar medidas legais contra os responsáveis por “Musk”, documentário de quase quatro horas dirigido por Alex Gibney que estreou nesta semana no Festival de Veneza. O advogado do bilionário, Alex Spiro, acusa o filme de apresentar informações falsas e potencialmente difamatórias, com foco numa sequência que, segundo ele, sugere que a rede de satélites Starlink teria sido usada para interferir na eleição presidencial americana de 2024.
O que motivou a ameaça?
A contestação envolve um depoimento de Ashley St. Clair, ex-parceira de Musk e mãe de um de seus filhos. Ela relata no filme uma troca de mensagens ocorrida em outubro de 2024, semanas antes da eleição vencida por Donald Trump, na qual Musk teria falado em “liberar a anomalia na Matrix” e mencionado possuir “10 mil lasers no espaço”. Questionada por Gibney se ele poderia estar falando dos satélites da SpaceX, St. Clair responde que não sabia onde mais Musk teria “lasers”.
Spiro argumenta que a montagem cria uma insinuação falsa envolvendo a Starlink e a apuração dos votos. Autoridades eleitorais e especialistas em segurança já haviam rejeitado, após a eleição de 2024, teorias segundo as quais a rede de Musk teria sido utilizada para alterar a contagem. Na carta, o advogado acusa os produtores de recusarem esclarecimentos da equipe do empresário e resume sua crítica: “Este projeto não começou como uma investigação. Começou com uma conclusão”.
Musk parte para o ataque
A notificação foi enviada à Jigsaw Productions em 3 de setembro, cinco dias antes da apresentação do documentário em Veneza, e também alcançou empresas envolvidas na distribuição e divulgação, como HBO, Bleecker Street e Universal. O documento exige a preservação de materiais relacionados à produção para uma eventual disputa judicial.
Musk intensificou os ataques após a estreia. Em uma série de publicações no X, chamou Gibney de “velho amargo”, “ser humano horrível” e afirmou que o cineasta não possui “integridade nenhuma”. Também classificou “Musk” como um ataque deliberado e ironizou sua duração: segundo ele, o filme comete “o pecado fatal de ser chato por quatro horas”.
O empresário também criticou a seleção dos entrevistados, afirmando que Gibney reuniu pessoas que teriam ressentimentos contra ele ou sequer o conheceriam. Entre os participantes estão Justine Musk, sua ex-mulher, o pai Errol Musk, St. Clair, o cofundador da Tesla Martin Eberhard, as jornalistas Kara Swisher e Zoë Schiffer e o pesquisador de inteligência artificial Geoffrey Hinton.
Diretor já havia relatado medo de represálias
A ofensiva ocorre dois dias depois de Gibney revelar, durante a apresentação de “Musk” em Veneza, que encontrou grande resistência para conseguir depoimentos. “Havia um enorme medo de falar, realmente um medo quase existencial, tanto entre pessoas que o criticavam quanto entre colegas de negócios e amigos”, afirmou.
O diretor disse ter procurado Musk logo no início do projeto, em 2023, mas o empresário recusou a entrevista. A ausência acabou incorporada à própria linguagem do filme: uma versão digital de Musk, produzida com inteligência artificial, reproduz declarações reais feitas por ele ao longo dos anos.
Com 225 minutos, “Musk” acompanha a trajetória do empresário desde seus primeiros negócios até Tesla, SpaceX e a compra do Twitter, posteriormente transformado em X. A produção também examina sua aproximação de Trump, contratos com o governo americano e o crescimento de sua influência política.
Gibney, vencedor do Oscar de Melhor Documentário por “Um Táxi para a Escuridão” (2007), afirmou em Veneza que consultou advogados durante a produção e recebeu aval jurídico para seguir com o filme.
Produtora rebate ameaça
A Jigsaw Productions reagiu à notificação defendendo a trajetória jornalística de Gibney e afirmou que seus documentários são reconhecidos por investigações aprofundadas e baseadas em fatos sobre pessoas e instituições poderosas.
A empresa também devolveu a discussão ao terreno da liberdade de expressão. Em nota, afirmou que o direito ao debate aberto e à investigação factual de figuras públicas poderosas é protegido pela 1ª Emenda da Constituição americana e acrescentou que esse princípio deveria ser defendido “inclusive pelos associados de Elon Musk, que se proclamou um ‘absolutista da liberdade de expressão’”.
“Musk” estreia em circuito limitado nos Estados Unidos em 16 de outubro e amplia sua distribuição uma semana depois. Ainda não há lançamento confirmado no Brasil.