
Divulgação/Go Up Entertainment
Dados da PF expõem nova contradição nas contas de Dark Horse
Coaf registrou apenas R$ 9 milhões em entradas durante as filmagens, com maioria de remetentes brasileiros
Números deixam de encaixar
Dados financeiros usados pela Polícia Federal na investigação de “Dark Horse” abriram uma nova divergência nas contas apresentadas pela Go Up Entertainment para explicar o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Enquanto uma perícia privada contratada pela própria produtora sustenta que a maior parte do dinheiro usado no Brasil veio do exterior e nega a presença de recursos públicos, relatórios do Coaf mostram que, durante as filmagens, a maior parcela identificável das entradas veio de remetentes brasileiros. A comparação foi feita por Artur Rodrigues e Amanda Rossi, do UOL, a partir dos documentos tornados públicos com a Operação Make Up.
O que mostram os dois levantamentos?
A perícia apresentada pela Go Up examinou documentos entre 1º de junho de 2025 e 4 de junho de 2026. Segundo o laudo, “Dark Horse” consumiu US$ 13,4 milhões, equivalentes a R$ 75,2 milhões pela cotação adotada. Desse total, R$ 20,9 milhões teriam sido gastos no Brasil. O documento afirma que a maior parte dos recursos usados nessa etapa foi transferida pela Go Up Entertainment LLC, registrada nos Estados Unidos, para a empresa brasileira.
Entretanto, a PF encontrou dados divergentes. Um comunicado do Coaf analisou as movimentações da Go Up entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período que coincide efetivamente com as filmagens brasileiras. Nesses 50 dias, a produtora recebeu cerca de R$ 9 milhões e gastou R$ 10 milhões, menos da metade do que afirmou a perícia.
Maioria identificada veio do Brasil
Dos R$ 9 milhões recebidos no período acompanhado pelo Coaf, R$ 3,9 milhões passaram pela Moneycorp Banco de Câmbio. A empresa atua com pagamentos internacionais, mas os documentos divulgados não estabelecem se essa quantia efetivamente veio do exterior. O montante representa cerca de 44% das entradas.
Os aproximadamente R$ 5,1 milhões restantes partiram de remetentes instalados no Brasil. Entre eles aparecem a GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, outra empresa de Karina Gama, com R$ 2,6 milhões, o ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro Marcello Lopes, com R$ 1 milhão, a NTT Brasil, com R$ 750 mil, e o próprio Mario Frias, que transferiu R$ 645 mil à produtora.
O quadro não prova que a perícia esteja errada ao apontar outras remessas internacionais ao longo de um período maior. Entretanto, cria uma lacuna importante: durante os 50 dias examinados pelo Coaf, que coincidem com as filmagens, a maior parcela cuja origem pode ser identificada diretamente partiu de fontes brasileiras e não do fundo que recebeu o aporte financeiro de Daniel Vorcaro nos Estados Unidos. Para completar, o UOL também observa que o comunicado do órgão de inteligência financeira não registrou movimentações consideradas atípicas da produtora fora desse intervalo. Ou seja, não houve outras grandes entradas financeiras.
Suspeita alcança dinheiro público
A divergência mais sensível envolve a origem dos recursos. A perícia privada afirmou não ter encontrado “entradas de caixa oriundas de recursos públicos, repasses governamentais ou financiamentos” e concluiu, a partir dos documentos fornecidos para análise, que o dinheiro do filme tinha origem privada.
A Operação Make Up investiga justamente uma possível rota em sentido contrário. A PF apura se recursos de emendas parlamentares enviados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, circularam por empresas contratadas pela entidade antes de chegar ao núcleo responsável por “Dark Horse”.
Uma das operações envolve R$ 700 mil pagos pelo ICB à Dinâmica Editora e ao Instituto Super Poder Educacional para um projeto financiado com emenda de Mario Frias. Posteriormente, a NTT Brasil, administrada por um empresário com vínculos familiares e societários com as fornecedoras, enviou R$ 750 mil à Go Up durante as filmagens. A PF ressalva que ainda não conseguiu estabelecer compatibilidade temporal completa entre os repasses, mas considera a proximidade dos valores e das relações empresariais um indício a ser apurado.
Perícia já apresentava limitações
A própria natureza do documento apresentado pela Go Up também limita suas conclusões. A perícia foi encomendada pela defesa de Karina Gama e produzida a partir dos materiais fornecidos pela empresária. Reportagens anteriores já haviam apontado que o laudo não identifica individualmente todos os fornecedores, não apresenta ao público os documentos fiscais que permitiriam acompanhar o destino de cada pagamento e reúne despesas em categorias amplas.
O documento atribui ao Havengate Development Fund LP um aporte de exatamente US$ 13.393.081,29 até sua elaboração. O mesmo valor, até os centavos, aparece como custo total apurado para a produção no Brasil e nos Estados Unidos. O fundo americano recebeu os pagamentos determinados por Daniel Vorcaro para financiar o longa e tem entre seus responsáveis Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Operação ampliou investigação
A Operação Make Up foi deflagrada pela PF com apoio da CGU na quinta (10/9) e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Segundo a corporação, a investigação apura possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em contratações.
A apuração também identificou R$ 645 mil transferidos diretamente por Mario Frias à Go Up em menos de dois meses. A PF questionou o lastro financeiro desse valor diante dos rendimentos mensais de cerca de R$ 44 mil registrados pelo deputado.
Flávio Bolsonaro classificou a operação como “fajuta” e voltou a defender o financiamento do filme. “Foi tudo redondinho”, afirmou. “Investimento privado num filme privado.” O senador participou das negociações que levaram Daniel Vorcaro a financiar “Dark Horse” e aparece em outra investigação sobre os recursos enviados ao Havengate.
O escritório responsável pela perícia e a Go Up Entertainment foram procurados pelo UOL após a divulgação dos novos dados e não haviam respondido até a publicação da reportagem.
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