
Divulgação/Go Up Entertainment
Documento revela ligação da produtora de Dark Horse com advogado de Eduardo Bolsonaro
Metadados apontam Paulo Calixto como autor de mensagem enviada pela Go Up
Metadados revelam autoria inesperada
Um documento enviado pela Go Up Entertainment para responder a questionamentos sobre “Dark Horse” foi criado por Paulo Calixto, advogado amigo de Eduardo Bolsonaro e administrador do Havengate Development Fund, segundo metadados analisados pela revista Piauí. Calixto não aparece formalmente como produtor, executivo ou integrante da Go Up, responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.
O que a Go Up tentou esclarecer?
A Piauí enviou 146 perguntas ao sócio da produtora Michael Davis para tentar esclarecer como foram utilizados os milhões destinados ao longa. Entre as questões estavam quem contratou formalmente elenco e equipe nos Estados Unidos, quem tinha poder para autorizar gastos e quem movimentava os recursos.
Davis não respondeu individualmente às perguntas, alegando cláusulas de confidencialidade. Em vez disso, enviou uma nota na qual a Go Up afirma trabalhar de maneira “documentada, transparente” e em conformidade com suas obrigações contratuais.
Arquivo aponta Paulo Calixto como criador
O problema surgiu nos metadados do PDF. Eles indicam Calixto como autor do arquivo e registram que o documento foi criado cerca de duas horas antes de chegar à revista.
A descoberta chamou atenção porque Calixto administra justamente o Havengate, fundo sediado no Texas que recebeu os recursos ligados a Daniel Vorcaro antes de repassá-los para a produtora. Ele também é amigo de Eduardo Bolsonaro, cujo grau de participação no controle desses recursos está sendo investigado.
Davis negou que Calixto tenha participado da elaboração da resposta e sugeriu que o escritório brasileiro da Go Up explicasse os metadados. Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora, enviou a mesma nota e apresentou versões contraditórias quando questionada sobre a origem do documento, até afirmar que a produtora não sabia informar quem o havia escrito.
Produtora ainda não detalhou US$ 13,4 milhões
A nova revelação ocorre quase quatro meses depois de Flávio Bolsonaro prometer uma prestação de contas pública sobre o financiamento de “Dark Horse”. O senador ainda não apresentou os documentos prometidos. A Go Up, por sua vez, entregou às autoridades uma perícia investigativa defensiva encomendada pela própria empresa.
O laudo afirma que, até 4 de junho, a produção havia gasto US$ 13.393.081,29 e recebido exatamente US$ 13.393.081,29 do Havengate. O documento, porém, não discrimina quanto foi pago a atores, diretores ou produtores, quais fornecedores foram contratados, que serviços prestaram nem quando os pagamentos ocorreram.
A Pipoca Moderna já havia apontado em junho que a perícia apresentava categorias gerais de despesas, mas não notas fiscais, contratos ou documentos que permitissem verificar individualmente a aplicação dos recursos. Flávio declarou posteriormente que a prestação de contas da produtora encerrava o assunto e classificou a controvérsia como “página virada”.
Calixto está no centro da rota financeira
A presença do advogado nos metadados aproxima ainda mais duas estruturas que formalmente deveriam desempenhar papéis distintos: a produtora do filme e o fundo encarregado de administrar o dinheiro dos investidores.
O Havengate recebeu valores que tinham origem em Daniel Vorcaro e depois realizou transferências para a Go Up. A Polícia Federal tenta reconstruir esse percurso para determinar quanto efetivamente chegou ao filme, quanto permaneceu no fundo e quem exercia controle sobre as contas.
Segundo a Piauí, o total destinado por Vorcaro pode alcançar US$ 14 milhões, aproximadamente R$ 72 milhões na cotação da época. Um relatório do Coaf já comprovou uma parcela de US$ 1,67 milhão transferida em setembro de 2025, quatro meses depois da data que Flávio havia apontado publicamente como encerramento dos pagamentos. Há ainda mensagens indicando um possível novo repasse em outubro.
Dinheiro fez caminho por empresa investigada
Os valores não saíram diretamente das empresas de Vorcaro para a produtora. As remessas passaram pela Entre Investimentos e Participações, controlada por Antonio Freixo Junior, o “Mineiro”, antes de chegar ao Havengate.
A Entre não é uma intermediária isolada nesse caso. Empresas do grupo estiveram envolvidas em centenas de milhões de reais em operações relacionadas ao Banco Master, e Freixo foi alvo da Operação Compliance Zero. Relatórios do Coaf também registraram movimentações consideradas atípicas envolvendo empresas do grupo.
Esse percurso tornou-se uma das principais frentes da investigação da Polícia Federal.
Qual é o papel de Eduardo Bolsonaro?
A PF também investiga se parte dos valores permaneceu sob controle do Havengate ou teve destino diferente da produção cinematográfica, incluindo a suspeita de que recursos possam ter sido usados para custear Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo passou a viver no país em fevereiro de 2025, mesmo mês em que ocorreu a primeira remessa conhecida de Vorcaro para o fundo.
O próprio Eduardo minimizou anteriormente seu papel. Disse à CBN ter colocado apenas US$ 50 mil de recursos pessoais no filme para garantir a contratação do diretor e afirmou ter sido posteriormente reembolsado.
Documentos americanos, entretanto, já o apresentaram ora como “produtor executivo”, ora como “financiador”. Mensagens reveladas anteriormente também o vinculam às conversas sobre recursos da produção. A investigação busca determinar até onde ia seu poder sobre o Havengate.
Produtora mudou versão sobre dinheiro de Vorcaro
Quando o financiamento se tornou público em maio, a Go Up inicialmente negou ter recebido qualquer recurso de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele. Dias depois, Karina Ferreira da Gama reconheceu que o banqueiro havia sido responsável por viabilizar mais de 90% do projeto, embora continuasse sustentando que ele não era formalmente um investidor direto.
A perícia apresentada posteriormente acabou registrando que todos os US$ 13,393 milhões declarados como recebidos pela produção vieram justamente do Havengate, fundo que administrava os recursos associados ao banqueiro.
Agora, os metadados acrescentam uma nova pergunta: por que o administrador desse fundo aparece como criador de uma resposta oficial enviada em nome da produtora, embora a Go Up negue sua participação?
Aberto para posicionamentos
Paulo Calixto não respondeu aos contatos da piauí sobre os metadados. A Go Up sustenta que suas operações são documentadas e regulares e afirma adotar medidas contra o compartilhamento não autorizado de documentos internos.
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.