
Instagram/Ana Castela
Deputada propõe CPI do Agronejo para investigar cachês milionários de sertanejos
Talíria Petrone quer apurar contratos pagos por cidades pequenas e participação do agronegócio no financiamento de artistas
CPI mira cachês milionários
A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) anunciou nesta quarta-feira (26/8) a proposta de criação da chamada “CPI do Agronejo” para investigar contratos milionários de artistas sertanejos pagos por pequenos municípios. A parlamentar pretende apurar a origem dos recursos, a compatibilidade dos cachês com os orçamentos das cidades e uma possível participação de setores ligados ao agronegócio no financiamento e promoção desses artistas com dinheiro público.
O que a CPI do Agronejo pretende investigar?
“Em alguns casos, os cachês são maiores do que o orçamento destinado à saúde e educação dessas cidades”, afirmou Talíria. A deputada disse que considera o investimento cultural legítimo, mas defendeu maior controle sobre os pagamentos. “Investimento na cultura é fundamental, mas é preciso prestação de contas e transparência.”
Como exemplo, ela citou Ana Castela, contratada por R$ 900 mil pela prefeitura de Nova Belém, em Minas Gerais. O município tem 3.151 habitantes, e o cachê equivale a 8,7% dos R$ 10,34 milhões recebidos pela cidade em repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) em 2026 até o período analisado.
Ana Castela virou centro da discussão
O caso ganhou maior visibilidade nesta semana após levantamentos mostrarem que Ana Castela soma R$ 22,68 milhões em 26 shows contratados por prefeituras em 2026. Fora desse total, a cantora também receberá R$ 850 mil para se apresentar na Expo São Fidélis, no Rio de Janeiro, com verba proveniente de uma emenda federal de R$ 1 milhão solicitada pela deputada Dani Cunha (PL-RJ).
A discussão cresceu depois de Ana posar sorrindo ao lado do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) na Festa do Peão de Barretos. Na foto, a cantora também fez o número 22, do PL, e posteriormente deixou emojis de fogo na publicação do parlamentar. A maioria das prefeituras identificadas nos contratos milionários da artista é administrada por partidos de direita ou centro.
A coincidência reacendeu nas redes sociais um debate que começou quatro anos antes e que já vem sendo acompanhado por órgãos de fiscalização.
Fiscalização ganhou força após ataque a Anitta
A atuação dos Ministérios Públicos sobre cachês sertanejos se intensificou a partir de 2022 depois que Zé Neto, da dupla com Cristiano, atacou Anitta e a Lei Rouanet durante um show contratado por R$ 400 mil pela prefeitura de Sorriso, em Mato Grosso. “Nós somos artistas que não dependemos de Lei Rouanet. Nosso cachê quem paga é o povo”, afirmou no palco, antes de fazer uma referência à tatuagem íntima da cantora.
A fala teve efeito contrário ao pretendido. Anitta respondeu expondo propostas de superfaturamento que sua equipe dizia já ter recebido para shows pagos por prefeituras, e os contratos públicos dos sertanejos passaram a ser examinados com maior atenção. A sequência de investigações ganhou nas redes o apelido de “efeito tororó”.
Desde então, Ministérios Públicos e tribunais questionaram apresentações de nomes como Gusttavo Lima, Leonardo, César Menotti e Fabiano, Zezé di Camargo, Israel e Rodolffo, Bruno e Marrone e Ana Castela. Em alguns casos, houve suspensão de shows ou decisões determinando devolução de dinheiro aos cofres públicos.
Sertanejo domina gastos municipais
Um levantamento divulgado nesta semana pelo Tribunal de Contas do Paraná mostrou a dimensão desse mercado. Os municípios paranaenses gastaram quase R$ 1,2 bilhão com shows entre 2021 e o 1º semestre de 2026, e os maiores valores identificados estão concentrados no sertanejo.
Fernando e Sorocaba lideram o ranking, com R$ 18,1 milhões, seguidos por Guilherme e Benuto, com cerca de R$ 13 milhões. Ana Castela aparece na 3ª posição, com R$ 12,6 milhões recebidos por 31 apresentações. Os cachês atuais da cantora, porém, já são muito maiores que os do período analisado e chegam à faixa de R$ 800 mil a R$ 900 mil.
O TCE-PR também identificou indícios de utilização de recursos vinculados a áreas como saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Corpo de Bombeiros e iluminação pública no pagamento das apresentações. O tribunal informou que abrirá procedimentos de fiscalização onde o uso irregular for comprovado.
CPI ainda depende de assinaturas
A “CPI do Agronejo” ainda não está instalada. Para que uma Comissão Parlamentar de Inquérito seja criada na Câmara dos Deputados, Talíria Petrone precisa reunir o apoio de pelo menos um terço dos 513 deputados, equivalente a 171 assinaturas.
Após atingir esse número, o requerimento ainda precisa atender aos requisitos regimentais da Câmara para que a comissão seja efetivamente criada. A evidência do “patrocínio” de uma deputada federal do PL a eventos do gênero pode dar o tom da dificuldade para a aprovação.