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Instagram/Padre Julio Lancellotti

Etc|19 de agosto de 2026

Padre Júlio reage à condenação de Danilo Gentili: “É doloroso ser atingido”

Religioso considera decisão pedagógica, revela oferta de R$ 8 mil para encerrar disputa e destino da indenização à Pastoral


Pipoque pelo Texto ocultar
1 Padre chama decisão de pedagógica
2 O que Padre Júlio disse sobre os ataques?
3 Por que Danilo Gentili foi processado?
4 Condenação veio por comemoração de vitória
5 Indenização irá para trabalho com população de rua
6 Religioso sofre restrição imposta pela Igreja
7 Aberto para posicionamentos

Padre chama decisão de pedagógica

O padre Júlio Lancellotti se pronunciou nesta quarta-feira (19/8) sobre a condenação de Danilo Gentili a pagar R$ 10 mil por danos morais. Em entrevista ao UOL News, o religioso disse que os ataques sofridos foram dolorosos e avaliou a decisão da Justiça de São Paulo como uma forma de estabelecer limites para manifestações que atingem a dignidade de outras pessoas.

O que Padre Júlio disse sobre os ataques?

“Sempre é doloroso ser atingido, seja de forma humorística ou de qualquer outra forma, de forma pejorativa, de forma ácida, de forma a destruir a pessoa. A liberdade de expressão não significa falar o que quer, na hora que quer, do jeito que quer. Nós precisamos ter um parâmetro de respeito à dignidade humana, de respeito aos direitos humanos. Eu recebo essa decisão da Justiça com serenidade, achando que é importante pedagogicamente que a própria Justiça e os meios de comunicação vão se moldando a uma forma de expressão que seja livre, mas que não seja destrutiva, ofensiva e de forma negativa para destruir, atingir a dignidade da pessoa”, afirmou.

Padre Júlio também disse que continua recebendo ataques nas redes e considera parte deles “orquestrada”. Segundo ele, prints de perfis falsos e contas que aparentam ser operadas por robôs estão sendo reunidos e encaminhados à polícia. O religioso defendeu que a responsabilização judicial também sirva para inibir novas agressões num ambiente marcado pela circulação de deepfakes e notícias falsas. “É preciso que essa inibição seja uma inibição legal, ética”, afirmou.

Por que Danilo Gentili foi processado?

O religioso explicou que não buscava apenas uma reparação financeira. Segundo ele, a intenção era obter um “efeito pedagógico demonstrativo” diante de manifestações que considerava homofóbicas e ofensivas.

“Eu quis ir à Justiça nesse caso para ter um efeito pedagógico demonstrativo e para mostrar, limitando, que eu não posso dizer coisas racistas, como não posso dizer coisas homofóbicas. E nesse caso, quando uma pessoa que tem grande visibilidade e diz de forma deliberadamente ofensiva e de destruir a dignidade do outro, é preciso que a gente até diferencie: a gente pode perdoar. Perdoar não é esquecer, é não fazer igual.”

A Justiça condenou Gentili por novas publicações feitas depois de uma primeira disputa entre os dois. Na sentença atual, a juíza Daniela Dejuste de Paula entendeu que conteúdos posteriores ultrapassaram a sátira e atingiram diretamente a honra e a reputação do padre. Entre eles estavam imagens produzidas com inteligência artificial que colocavam o religioso em situações sexualizadas e outras afirmações consideradas sem suporte factual. A decisão ainda cabe recurso.

Condenação veio por comemoração de vitória

A disputa começou em dezembro de 2022, quando Padre Júlio processou Gentili após publicações com referências sexuais e apelidos dirigidos a ele. A primeira ação terminou em 2025 com derrota do religioso. Na ocasião, o juiz Marcelo Castro Almeida Prado de Siqueira considerou as manifestações vulgares e socialmente reprováveis, mas entendeu que permaneciam dentro dos limites da liberdade de expressão.

Gentili comemorou aquela decisão em sua newsletter “Não É Imprensa”, numa publicação de 25 de abril de 2025 intitulada “#Perdeu, Padre — Padre da Linguiça leva uma invertida”. O conteúdo veio acompanhado de imagens geradas por inteligência artificial e acabou originando parte da nova disputa judicial.

Padre Júlio resumiu a sequência ao explicar que recusou uma proposta para encerrar o conflito. “Nessa ocasião, eles me ofereceram R$ 8 mil para que eu retirasse a ação. Eu disse que nós não íamos retirar a ação, que íamos continuar. Essa primeira ação nós perdemos, entramos com uma outra ação e agora ganhamos. Eu tive que conversar com o Danilo Gentili face a face e onde ele reiterou várias ofensas a mim e o conciliador não aceitou consignar na ata da audiência as ofensas que ele me fez.”

Indenização irá para trabalho com população de rua

Padre Júlio afirmou que os R$ 10 mil determinados pela Justiça serão destinados à Pastoral do Povo da Rua de São Paulo, organização ligada ao trabalho que desenvolve há décadas com pessoas em situação de vulnerabilidade. Ele também ressaltou que a ação foi apresentada contra Gentili como pessoa física e reconheceu que a sentença ainda pode ser contestada.

No processo, a defesa do apresentador sustentou que as publicações eram “manifestações humorísticas e satíricas” protegidas pela liberdade de expressão. Também negou a existência de conteúdo ilícito, dano moral indenizável e relação causal capaz de justificar a condenação. A juíza rejeitou esses argumentos em relação às novas publicações analisadas.

A sentença da 29ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, definida em 6 de agosto, também determinou a retirada de publicações consideradas ilícitas. Embora tenha sido parcialmente revelado pela imprensa, o processo tramita sob segredo de Justiça.

Religioso sofre restrição imposta pela Igreja

Na mesma entrevista, Padre Júlio também falou sobre a determinação do cardeal Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, que desde dezembro de 2025 o impede de transmitir missas pela internet e de manter suas atividades habituais nas redes sociais. O religioso afirmou que não considera a medida uma censura e disse que permanece obediente à hierarquia da Igreja. A restrição foi confirmada pelo próprio padre e pela Arquidiocese no fim do ano passado.

“Eu não acredito que seja uma censura. Eu respeito, tenho uma hierarquia, devo obedecer a hierarquia da qual eu faço parte e a qual estou submetido, mas o principal eu não deixei de fazer. Eu continuo diariamente convivendo com os irmãos de rua, eu continuo diariamente partilhando pão com eles. Eu continuo diariamente enxugando as lágrimas deles e eles enxugam as minhas também. Então, podem proibir de falar, mas a nossa atitude continua a gritar, continua a se manifestar. Se tentam me reduzir a zero, a gente continua sendo zero, mas continuando firme na nossa ação.”

Aberto para posicionamentos

Até esta quarta-feira, Gentili não havia apresentado manifestação pública sobre a nova condenação. Procurada pela Folha, a assessoria do apresentador visualizou as mensagens enviadas pelo jornal, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.

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