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Oscar 2027: Brasil tem 15 filmes na disputa e vários ainda são inéditos
Lista reúne vencedores de Berlim e Gramado, filmes já lançados e produções que ainda nem chegaram ao circuito comercial
15 filmes entram na corrida brasileira
A Academia Brasileira de Cinema habilitou 15 longas para disputar a indicação do país ao Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional. A lista divulgada nesta segunda (24/8) vai muito além de títulos já conhecidos do público: inclui vencedores de festivais internacionais, campeões das duas últimas edições de Gramado e produções que ainda não tiveram lançamento comercial amplo. A comissão formada por 15 profissionais reduzirá a relação a seis finalistas em 9 de setembro e anunciará o representante brasileiro em 16 de setembro.
Festival de Berlim impulsiona candidatos
“Feito Pipa”, de Allan Deberton, apresenta uma das trajetórias mais premiadas da seleção. O drama sobre Gugu, menino criado pela avó com Alzheimer que teme ser obrigado a morar com o pai, estreou mundialmente no Festival de Berlim e saiu da mostra Generation Kplus com os dois principais prêmios de sua categoria: o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo júri jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme. A produção ainda chegou a Gramado neste mês e levou quatro prêmios da competição principal, entre eles Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Direção para Deberton.
Também lançado internacionalmente em Berlim, “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, acompanha o relacionamento secreto entre um ator em ascensão e um político, que passam a transformar o risco de serem descobertos em parte de sua vida sexual. Depois da estreia na mostra Panorama, o filme venceu o prêmio da crítica internacional (FIPRESCI) no Festival de Mar del Plata e o prêmio do público no FIRE!!, em Barcelona. No Festival do Rio, ainda conquistou Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Melhor Ator para Gabriel Faryas, além do Prêmio Félix de Melhor Filme Brasileiro.
Outra estreia da Berlinale, “A Natureza das Coisas Invisíveis” foi premiado nos EUA como Melhor Primeiro Longa de Ficção no Frameline, tradicional festival LGBTQIA+ de San Francisco. A obra acompanha a amizade entre duas meninas de 10 anos diante da doença e do luto. Além disso, também foi premiado no Festival de Gramado do ano passado com o Prêmio Especial do Júri, Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante para Aline Marta Maria e Melhor Trilha Musical.
“A Fabulosa Máquina do Tempo” é outro exemplo de projeção após a estreia mundial em Berlim. O documentário de Eliza Capai sobre meninas do interior do Piauí que imaginam o futuro enquanto confrontam as expectativas impostas às mulheres de suas famílias, ganhou o prêmio de Melhor Feito Técnico-Artístico no Festival de Guadalajara, no México. No Brasil, Capai venceu Melhor Direção no Cine PE, onde a obra também ganhou Melhor Trilha Musical e um prêmio coletivo de Melhor Atriz, além do voto popular e de uma Menção Honrosa na Mostra Ecofalante.
Destaques de Gramado qualificam a lista
“Nosso Segredo”, estreia de Grace Passô na direção de longas, chega à seleção apenas dois dias depois de vencer o Festival de Gramado. O drama sobre uma família negra de Belo Horizonte que tenta reorganizar a vida após a morte do pai conquistou os Kikitos de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. Antes disso, teve sua estreia internacional na mostra Perspectives do Festival de Berlim. O lançamento comercial acontece já nesta quinta-feira (27/8).
A lista recupera ainda os principais vencedores da edição do festival do ano passado, incluindo o já citado “A Natureza das Coisas Invisíveis”.
“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, entrelaça cinco personagens numa trama de violência, luto, paixão e vingança em Cuiabá e terminou a edição de 2025 com quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Melhor Ator Coadjuvante para Xamã. “Papagaios”, de Douglas Soares, também levou quatro: Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator para Gero Camilo, Melhor Direção de Arte e Melhor Desenho de Som. O longa acompanha um homem que faz carreira como “papagaio de pirata”, aparecendo atrás de repórteres de televisão, até encontrar um aprendiz tão obcecado pela fama quanto ele.
Por que há tantos filmes inéditos no cinema?
A relação chama atenção porque parte dos candidatos ainda não chegou ao circuito comercial amplo. “Nosso Segredo” só estreia nacionalmente nesta semana. “Feito Pipa”, apesar da extensa carreira em festivais e da exibição em Gramado, teve o lançamento nacional transferido para 5 de novembro. “100 Dias”, de Carlos Saldanha, está anunciado para 29 de outubro. “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, sequer iniciou sua principal carreira internacional: será exibido em setembro nos festivais de Toronto e San Sebastián.
Isso não significa que os filmes estejam fora das regras. Para participar da seleção brasileira, as produções precisam comprovar uma exibição comercial qualificatória de pelo menos sete dias consecutivos numa mesma sala, dentro da janela de 1º de outubro de 2025 a 30 de setembro de 2026. Uma passagem limitada por cinema pode, portanto, cumprir a exigência sem equivaler ao lançamento amplo que chegará posteriormente ao público.
“100 Dias” torna essa diferença especialmente visível. A produção de Carlos Saldanha traz Filipe Bragança como Amyr Klink e dramatiza a travessia solitária do navegador pelo Atlântico Sul em um barco a remo em 1984. Sua estreia nacional está marcada para 29 de outubro, quase um mês depois do encerramento da janela do Oscar. Portanto, a estreia ampla anunciada não é aquela que sustenta sua habilitação à seleção brasileira.
A situação cria uma peculiaridade: a comissão poderá escolher em setembro um filme que a grande maioria do público brasileiro ainda não teve oportunidade de assistir. Festival, sessão qualificatória e lançamento comercial amplo passaram a constituir momentos bastante diferentes da trajetória de algumas produções.
História, terror e internet
Entre os títulos já lançados, “A Conspiração Condor”, de André Sturm, é um thriller político protagonizado por Mel Lisboa. A atriz interpreta uma jornalista que começa a investigar as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart em 1976 e acaba chegando também a Carlos Lacerda e às operações repressivas que atravessaram as ditaduras do Cone Sul. O filme estreou comercialmente em abril.
“Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, volta ainda mais no tempo para reconstruir a Revolta dos Malês, levante de africanos muçulmanos escravizados ocorrido em Salvador em 1835. O longa, que reúne Antonio, Camila e Rocco Pitanga no elenco, chegou aos cinemas em 2 de outubro de 2025, praticamente na abertura da janela de elegibilidade desta edição do Oscar.
“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, acompanha três gerações de mulheres movidas por sonhos bastante diferentes. A personagem-título, aos 65 anos e com histórico de dependência em jogos, acredita que será dona de um cassino; sua filha espera o namorado sair da prisão; e a neta sonha em trabalhar nos Estados Unidos. O filme teve estreia mundial na mostra Horizontes Latinos de San Sebastián em 2025 e circulou neste ano pelo Festival de Rotterdam.
“Herança de Narcisa”, primeiro longa de Clarissa Appelt e Daniel Dias, coloca Paolla Oliveira no centro de um terror psicológico sobre uma mulher que volta ao casarão herdado da mãe e encontra traumas familiares tão ameaçadores quanto qualquer assombração. A produção foi escolhida Melhor Longa-Metragem pelo Voto Popular na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025 e estreou comercialmente em julho.
“O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar, parte de uma história real para contar a história de um hacker que ainda adolescente movimentou milhões por meio de crimes virtuais até se tornar alvo da Polícia Federal. João Guilherme interpreta o protagonista. O longa teve sua estreia sul-americana no BAFICI, em Buenos Aires, antes de chegar aos cinemas brasileiros em maio.
O documentário “Quando Vira a Esquina”, de Chris Alcazar, mergulha na Vila Mimosa, no Rio, a partir dos relatos das profissionais do sexo que trabalham no local. Estreou mundialmente no Festival do Rio de 2024, onde Fernando Aranha e Guga Bruno dividiram o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original, e posteriormente passou pela Mostra de São Paulo e pelo Canal Brasil.
Brasil pode ter mais de um título indicado
Entre os inéditos, “Vicentina Pede Desculpas” é um caso especialmente interessante. O novo drama de Gabriel Martins acompanha uma professora aposentada de 75 anos que procura as famílias das vítimas de um acidente provocado pelo ônibus dirigido por seu filho. O longa está selecionado para a seção Platform do Festival de Toronto, que acontece entre 10 e 20 de setembro, e depois disputa a Concha de Ouro na competição principal de San Sebastián, entre 18 e 26 de setembro.
Neste ano, o Oscar criou pela primeira vez uma alternativa à indicação oficial feita por cada país. Filmes em língua não inglesa que vencerem determinados prêmios de seis festivais poderão ser inscritos independentemente da escolha nacional. Um desses troféus é justamente o Platform Award de Toronto. Se “Vicentina Pede Desculpas” vencer a competição canadense, ganhará uma via própria para ser submetido à categoria de Melhor Filme Internacional, mesmo que outro longa seja escolhido pelo Brasil.
A novidade não vale para qualquer prêmio de festival. Os dois troféus conquistados por “Feito Pipa” em Berlim, por exemplo, reforçam seu currículo, mas a porta automática prevista pelo novo regulamento é reservada ao Urso de Ouro da competição principal. Toronto, por sua vez, tem exatamente o Platform Award entre os seis prêmios reconhecidos.
A cerimônia do Oscar 2027 está marcada para 14 de março.
Os 15 filmes na disputa
“100 Dias”
Carlos Saldanha
“A Conspiração Condor”
André Sturm
“A Fabulosa Máquina do Tempo”
Eliza Capai
“A Natureza das Coisas Invisíveis”
Rafaela Camelo
“Ato Noturno”
Marcio Reolon e Filipe Matzembacher
“Cinco Tipos de Medo”
Bruno Bini
“Dolores”
Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes
“Feito Pipa”
Allan Deberton
“Herança de Narcisa”
Clarissa Appelt e Daniel Dias
“Nosso Segredo”
Grace Passô
“O Rei da Internet”
Fabrício Bittar
“Quando Vira a Esquina”
Chris Alcazar
“Malês”
Antonio Pitanga
“Papagaios”
Douglas Soares
“Vicentina Pede Desculpas”
Gabriel Martins
CORRIDA PELO OSCAR! O Brasil tem 15 filmes disputando a indicação para Melhor Filme Internacional, entre vencedores de Berlim e Gramado e produções que o grande público ainda nem viu. #Oscar2027 #CinemaBrasileiro #Oscar 🔗 https://pipocamoderna.com.br/2026/08/oscar-2027-brasil-15-filmes-disputa/