
Divulgação/Netflix
Advogado aponta “erros gravíssimos” em filme de Elize Matsunaga
Criminalista da família de Marcos Matsunaga contesta a reconstituição do disparo e a versão sobre o esquartejamento
Acusação contesta versão do filme
O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso afirma que “Elize: Sombras de Uma Mulher” alterou pontos importantes do assassinato de Marcos Matsunaga e deixou de fora elementos apresentados pela acusação durante o julgamento. O criminalista, que representou a família da vítima, analisou a produção da Netflix em entrevista ao Metrópoles.
O que ele disse?
D’Urso elogiou a qualidade da realização do longa, mas ressaltou que a história não deve ser tratada como uma reprodução fiel das provas reunidas no processo.
“O filme vale como uma obra de ficção, mas, no que diz respeito ao crime em si, comete erros gravíssimos”, afirmou.
Filme é abordagem ficcional
A própria Netflix apresenta “Elize: Sombras de Uma Mulher” como uma abordagem ficcional inspirada no caso. O filme lançado em 22 de julho é protagonizado por Lorena Comparato, com Henrique Kimura no papel de Marcos Matsunaga. Raphael Montes e Mariana Torres assinam o roteiro, enquanto Felipe Vellas dirige a produção.
Para o advogado, essa liberdade criativa permitiu alterar detalhes importantes sobre o disparo, a posição de Marcos no momento em que foi atingido e o instrumento que pode ter sido usado no esquartejamento.
Que “erros graves” aparecem na produção?
O filme mostra Elize e Marcos de pé durante uma discussão na sala. Ela pega a arma e dispara depois de ser confrontada pelo marido. D’Urso afirma que essa dinâmica não corresponde à reconstrução sustentada pela acusação. A trajetória descendente da bala indicaria que Marcos, mais alto que Elize, estava agachado ou encolhido no momento do tiro.
Vestígios de pólvora na região atingida também indicaram um disparo feito a curta distância. O laudo apontou que a bala percorreu uma trajetória de cima para baixo.
“Na reconstituição, o que veio ao processo é que ele entra no apartamento com a pizza em uma das mãos e abre a porta com a outra. E ele encontra com ela, com o revólver em punho, em cima dele para disparar. Se não houvesse elemento de surpresa, ele jogaria a pizza em cima dela e entraria em luta corporal. A única reação dele, tendo convicção de que ela iria atirar, foi se encolher”, narra o advogado.
A perícia também apontou que o tiro foi disparado de frente, a curta distância e em trajetória descendente.
Que provocou a morte do empresário?
O laudo do Instituto Médico Legal indicou que Marcos ainda respirava quando começou a ser decapitado. A causa da morte foi registrada como traumatismo craniano associado à asfixia provocada pela aspiração de sangue durante o corte do pescoço.
A conclusão contrariou a versão inicial de que o empresário teria morrido imediatamente após ser atingido na cabeça.
Serra elétrica virou argumento da acusação
Elize afirmou no julgamento que utilizou uma faca para cortar o corpo do marido, versão também adotada por “Elize: Sombras de Uma Mulher”.
D’Urso sustenta que outra ferramenta foi empregada. O advogado cita uma serra elétrica comprada em Cascavel, no Paraná, no dia em que Elize retornou a São Paulo.
“No caminho da casa da tia, no Paraná, para o aeroporto, ela passou em uma loja de ferragens e comprou uma serra elétrica. Ela comprou e trouxe para São Paulo na bagagem da babá”, relembra o criminalista.
A compra foi relatada pelas babás da família à polícia e durante o julgamento. A ferramenta, porém, nunca foi localizada, e não houve comprovação pericial de que tenha sido usada no esquartejamento.
A defesa de Elize argumentou que a serra havia sido comprada a pedido de Marcos para abrir caixas de vinho. Também sustentou que os cortes encontrados no corpo não eram compatíveis com o equipamento.
D’Urso considera que a rapidez e a precisão do esquartejamento reforçam a hipótese de utilização de uma ferramenta elétrica.
“O esforço do esquartejamento é muito grande. Os peritos disseram que, com uma faca, demoraria horas para ela conseguir segmentar o corpo como ela fez.”
Premeditação dividiu acusação e defesa
A compra da serra foi usada pela acusação para defender que Elize planejou o assassinato. A defesa sustentou que ela agiu durante uma discussão após descobrir uma traição do marido.
D’Urso também relaciona a viagem ao Paraná à contratação dos detetives que investigaram Marcos e afirma que o apartamento teria sido preparado para facilitar a limpeza.
“[O crime] foi todo premeditado. Ela viajou para o Paraná para dar liberdade para que os detetives investigassem Marcos e a amante. Ela comprou a serra elétrica. E a perícia nunca encontrou traços de sangue no apartamento, mesmo com o luminol. Como que você esquarteja alguém e não tem sangue? Porque ela colocou plástico, protegeu as paredes. Tudo foi muito bem pensado”, encerra o advogado da família Matsunaga.
Esse ponto, entretanto, diverge do laudo final do Instituto de Criminalística divulgado em 2012. O documento registrou manchas de sangue de Marcos na sala, no corredor e no quarto de hóspedes após a aplicação de luminol.
Família aceitou resultado do julgamento
Elize Matsunaga foi condenada em 2016 a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão por homicídio qualificado, destruição e ocultação de cadáver. O julgamento durou sete dias no Tribunal do Júri de São Paulo.
O Superior Tribunal de Justiça reconheceu posteriormente a atenuante da confissão e reduziu a pena para 16 anos e três meses.
Segundo D’Urso, a família de Marcos não recorreu da sentença por considerar que o resultado atendia ao pedido de responsabilização pelo crime.
“A família queria justiça e a Justiça se manifestou dessa forma. Mas onde que está o ponto final disso? Filmes foram feitos, documentários foram feitos e [a memória do crime] vai ficar”, conclui.
A plataforma já havia lançado em 2021 a série documental “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”, que reuniu depoimentos de Elize, advogados, peritos, jornalistas e pessoas ligadas ao casal.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.