
Divulgação/Go Up Entertainment
Produtora de filme sobre Bolsonaro é autuada pela Ancine
Go Up pode receber multa de até R$ 100 mil por filmar obra estrangeira sem fazer comunicação obrigatória
Produtora pode receber multa
A Agência Nacional do Cinema autuou a Go Up Entertainment por filmar no Brasil “Dark Horse”, produção estrangeira sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, sem fazer a comunicação prévia exigida pela legislação. O auto de infração, emitido em 28 de julho, pode resultar em multa de R$ 2 mil a R$ 100 mil, mas não impede automaticamente o lançamento do longa nos cinemas.
Qual foi a irregularidade apontada?
Segundo o jornal O Globo, a Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria concluiu que a produtora descumpriu as regras para filmagens estrangeiras em território brasileiro.
A legislação determina que esse tipo de produção fique sob a responsabilidade de uma empresa brasileira registrada na Ancine. Antes do início das filmagens, a produtora deve comunicar sua participação no projeto e entregar documentos como o contrato com a companhia estrangeira, o plano de trabalho e a identificação dos profissionais vindos de outros países.
Embora esteja registrada na Ancine desde julho de 2025, a Go Up não teria formalizado a comunicação referente a “Dark Horse”. O longa é falado em inglês e tem protagonistas, diretor e roteiristas americanos, características que levaram a própria distribuidora a registrá-lo posteriormente como obra estrangeira.
Filmagens ocuparam ruas de São Paulo
A apuração ganhou força porque “Dark Horse” não realizou apenas uma captação isolada no país. O filme mobilizou elenco, equipe técnica, equipamentos e uma estrutura de produção durante as filmagens realizadas entre outubro e novembro de 2025.
Cenas foram rodadas em diferentes pontos de São Paulo, incluindo ruas do centro da capital. Diante da dimensão do trabalho, a Ancine entendeu que a Go Up deveria ter cumprido integralmente o procedimento previsto para produções internacionais.
A área técnica da agência ainda analisará as circunstâncias da infração antes de definir o valor de uma eventual multa. A autuação abre o processo administrativo e não representa, por si só, a aplicação imediata da penalidade máxima.
Lançamento segue em processo de registro
A infração cometida durante as filmagens tramita separadamente do procedimento necessário para exibir a obra no Brasil. A Europa Filmes protocolou em 22 de junho o Registro de Obra Estrangeira de “Dark Horse”.
Esse registro informa oficialmente a existência do longa, mas não encerra o processo. A distribuidora ainda precisa solicitar à Ancine o Certificado de Registro de Título e, depois, encaminhar o filme ao Ministério da Justiça para receber a classificação indicativa.
A Europa planeja um lançamento amplo, com exibição em centenas de salas brasileiras. A autuação não suspende automaticamente esse cronograma, embora a agência possa exigir a regularização de pendências antes de concluir os procedimentos.
Spcine também terá de prestar esclarecimentos
A Ancine também pediu informações à Spcine, empresa de cinema ligada à Prefeitura de São Paulo, para verificar se a produção comunicou as filmagens às autoridades municipais.
A São Paulo Film Commission, administrada pela Spcine, recebe os pedidos de filmagens que envolvem espaços públicos, ocupação do solo ou interferências no trânsito de veículos e pedestres.
A resposta deverá esclarecer quais cenas foram informadas, que autorizações locais foram solicitadas e qual empresa apareceu como responsável pela produção na cidade.
Financiamento provocou crise política
Antes da autuação, “Dark Horse” já havia ganhado repercussão por causa de mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Conversas obtidas durante a investigação sobre o banco indicaram que o senador procurou Vorcaro para financiar o longa sobre seu pai. Flávio confirmou que buscou investidores privados para o projeto, mas negou oferecer qualquer benefício em troca do apoio.
A Go Up afirmou que não recebeu dinheiro de Vorcaro nem de empresas ligadas a ele. A origem completa dos recursos utilizados na produção não foi divulgada.
Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora, também é investigada pela Polícia Civil de São Paulo em outro procedimento. A apuração envolve suspeitas de irregularidades em um contrato firmado entre a Prefeitura e o Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por ela, para instalar pontos públicos de internet.
A polícia investiga ainda uma possível confusão patrimonial entre o instituto e a Go Up e tenta determinar se recursos públicos foram direcionados à produção do filme. A Prefeitura de São Paulo e Karina negam desvios.
Qual a história do filme?
Dirigido por Cyrus Nowrasteh, “Dark Horse” acompanha a ascensão política de Jair Bolsonaro e sua campanha presidencial de 2018. A trama também dramatiza o atentado sofrido pelo então candidato durante um ato eleitoral em Juiz de Fora.
Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em “A Paixão de Cristo”, vive Bolsonaro. O elenco reúne atores estrangeiros e brasileiros, enquanto o ex-secretário de Cultura Mario Frias interpreta o médico que operou o político após o ataque.
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.