
Divulgação/Prime Video
Por que “Corrida dos Bichos” precisou de três diretores?
Amazon exigiu Fernando Meirelles no projeto após considerar arriscado entregar sua maior produção a dois estreantes
Direção a seis mãos
“Corrida dos Bichos” chegou à Prime Video na sexta (7/8) com uma configuração pouco comum, especialmente no cinema brasileiro: três diretores dividindo o comando do mesmo longa. Ernesto Solis (“O Último Animal”), criador e roteirista do projeto, Rodrigo Pesavento (“Pico da Neblina”) e Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) repartiram cenas e responsabilidades da produção. Eles explicaram porque isso aconteceu.
Amazon pediu um diretor experiente
A configuração foi uma exigência da Amazon, que considerou arriscado colocar sua maior produção do momento nas mãos de dois cineastas que nunca haviam dirigido um longa-metragem.
Para o projeto ser aprovado, foi necessária a entrada de Fernando Meirelles na direção de “Corrida dos Bichos”. Inicialmente, ele seria apenas produtor.
Como Fernando Meirelles entrou no filme?
Ernesto Solis desenvolvia “Corrida dos Bichos” havia cerca de 20 anos quando a Prime Video decidiu realizar o projeto. Apesar da experiência do criador na televisão, ele ainda não havia dirigido um longa e teria pela frente cenas de ação complexas.
A produção chamou então Rodrigo Pesavento, diretor com experiência em publicidade e streaming, para assumir principalmente essa parte do filme. A dupla estava definida quando a Amazon decidiu que ainda faltava alguém com experiência em cinema para dar segurança ao projeto.
“Dois meses antes de começar a pré-produção, a Amazon falou: ‘Nem o Pesa nem o Ernesto fizeram longa, e este é o maior orçamento que temos no momento. Precisamos que você entre para o pessoal em Los Angeles se sentir seguro’”, contou Meirelles em entrevista à Veja.
Como três diretores dividiram “Corrida dos Bichos”?
Meirelles afirma que entrou sem assumir o comando criativo sobre Solis. A história, o conceito e o roteiro continuaram sob responsabilidade do criador, que mantinha a palavra final sobre as decisões do filme.
A solução foi dividir o roteiro entre os três. Pesavento ficou responsável pelas sequências de ação, enquanto Solis e Meirelles repartiram as cenas dramáticas.
A estrutura também permitiu que diferentes partes do longa fossem preparadas com mais atenção ao mesmo tempo. “Para um filme desse tamanho, foi bom ter três diretores para dividir a responsabilidade sem ninguém enlouquecer, permitindo uma preparação muito maior”, explicou Meirelles.
Cronograma tornou divisão indispensável
A decisão acabou ganhando importância ainda maior perto do início das filmagens. O planejamento original previa dez semanas de trabalho, limite estabelecido pelo orçamento, mas a produção perdeu duas semanas pouco antes de começar.
Solis ressaltou à Veja que o filme precisava caber num plano apertado. Meirelles foi mais direto sobre o impacto da redução: “Se não houvesse três diretores, não teríamos dado conta”.
O modelo também levou Meirelles a retomar uma função que havia deixado de exercer com frequência. O diretor voltou a operar pessoalmente a câmera em algumas das cenas que comandou.
“Voltei a operar câmera e a criar imagens, o que foi sensacional, pois fazia muito tempo que eu não operava”, contou.
Projeto nasceu duas décadas antes
Solis começou a desenvolver a ideia depois que um produtor franco-português ligado a Luc Besson demonstrou interesse por um trabalho seu que misturava futurismo e Rio de Janeiro. O roteirista decidiu manter essa combinação, mas procurou uma identidade brasileira em vez de reproduzir referências estrangeiras.
O jogo do bicho acabou servindo como ponto de partida. “Mais do que prever o futuro, eu queria fazer uma alegoria da nossa sociedade, do presente, do passado e desse jogo social perverso”, explicou.
A história se passa num Rio de Janeiro distópico, onde participantes usam máscaras de animais e disputam uma competição violenta por um prêmio milionário. Para Solis, a desigualdade está no centro da alegoria: uma elite acompanha o jogo confortavelmente enquanto a população precisa literalmente correr para sobreviver.
Qual é a história?
A distopia brasileira transforma o jogo do bicho em uma competição mortal, travada num Rio de Janeiro devastado por um desastre ambiental. Depois que a elevação do mar destrói parte da cidade e o recuo das águas deixa bairros inteiros em ruínas, a Mata Atlântica volta a ocupar áreas urbanas e a desigualdade social se aprofunda. Nesse cenário, magnatas conhecidos como Jogadores controlam competidores pobres, os Bichos, que representam os animais da loteria popular numa corrida por um prêmio milionário.
Mano (Matheus Abreu, de “Dois Irmãos”) lidera o Perímetro da Morte, território rebelde que intercepta corredores, destrói rotas da competição e ajuda fugitivos. Sua oposição ao sistema muda quando Dalva (Thainá Duarte, de “Aruanas”), sua irmã, é oferecida pelo próprio namorado como garantia de uma aposta. Para resgatá-la, Mano precisa entrar no jogo que combate e sobreviver a uma disputa na qual os participantes servem como peças de entretenimento para as classes dominantes.
Esta mistura de “Jogos Vorazes”, “O Sobrevivente” e “Round 6” conta com um elenco de peso, que inclui Rodrigo Santoro (“Bom Dia Verônica”), Isis Valverde (“A Força do Querer”), Bruno Gagliasso (“O Sétimo Guardião”), João Guilherme (“De Volta aos 15”), Grazi Massafera (“Três Graças”), Silvero Pereira (“Pantanal”), Leandro Firmino e Seu Jorge (ambos de “Cidade de Deus”), além da cantora Anitta.
Filme pode ganhar continuações?
Apesar do tamanho da produção, a Prime Video ainda não definiu uma sequência. Solis afirma que existe material suficiente para ampliar a história até uma trilogia, mas qualquer continuação dependerá da recepção do primeiro longa.
“Temos história para contar e dá para fazer uma trilogia se quiser, mas depende do resultado deste primeiro filme. Não tem nada definido, mas, se funcionar, temos vontade e história”, afirmou.
Meirelles resumiu a disposição da equipe: “Se funcionar, a gente quer fazer”.