
Divulgação/BMG
Morre Noca da Portela, lenda do samba, aos 93 anos
Compositor da azul e branco assinou mais de 500 músicas e estava internado para tratar complicações de saúde
O samba fica triste
O samba perdeu um de seus grandes expoentes. O cantor, compositor e instrumentista portela/" class="tag-link" title="Ver mais sobre Noca da Portela">Noca da Portela faleceu neste domingo (17/5), aos 93 anos, no Rio de Janeiro. A confirmação do falecimento foi feita por meio de uma nota oficial de pesar divulgada pela diretoria de sua agremiação de coração. “O G.R.E.S. Portela lamenta, com profundo pesar, o falecimento do cantor, compositor e instrumentista Noca da Portela, um dos grandes nomes da nossa história”, declarou a escola de samba.
Como estava a saúde do artista?
O sambista estava sob cuidados médicos intensivos há cerca de uma semana na unidade hospitalar Memorial São Cristóvão, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde realizava um tratamento oncológico contra um tumor na próstata.
De acordo com informações fornecidas por familiares do músico, o quadro clínico geral do paciente se agravou de forma irreversível após ele contrair uma pneumonia hospitalar durante o período de internação, que havia começado inicialmente para conter uma infecção urinária.
A projeção musical
Noca deixa um acervo artístico monumental na cultura brasileira, sendo o autor de mais de 500 composições criadas ao longo de décadas de atuação em estúdios e terreiros. O principal marco de sua guinada profissional aconteceu com o lançamento de “É Preciso Muito Amor”, uma de suas obras mais célebres, lançada originalmente em 1979. A canção obteve um alcance comercial estrondoso nas rádios e na televisão, funcionando como o passaporte definitivo que projetou o nome do artista para além do circuito dos morros cariocas.
A chegada à Portela
Embora tenha se tornado uma das figuras mais emblemáticas da identidade cultural carioca, o músico era natural do município de Leopoldina, em Minas Gerais, tendo se mudado ainda na infância para a capital fluminense. Antes de conseguir viver exclusivamente de seus dividendos musicais, ele trabalhou como feirante nas ruas do Rio. Sua introdução formal no universo do Carnaval ocorreu aos 15 anos de idade na ala de compositores da Unidos do Catete, escola pela qual venceu seu primeiro concurso com o samba-enredo “O Grito do Ipiranga”.
A sua histórica e longeva ligação com os bastidores de Madureira teve início em 1967. O compositor migrou para a azul e branco após receber um convite pessoal do cantor Paulinho da Viola. Na nova casa, Noca consolidou-se como um colecionador de vitórias na disputa de sambas-enredo na quadra, assinando hinos oficiais que marcaram os desfiles na Marquês de Sapucaí, tais como “O Homem de Pacoval” (1976), “Recordar é Viver” (1985), “Gosto Que Me Enrosco” (1995), “Os Olhos da Noite” (1998) e “ImaginaRIO, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal” (2015).
O Trio ABC e a parceria com Elza Soares
A atividade de Noca nos bastidores do samba também se desdobrou em projetos paralelos de fôlego no mercado fonográfico. O instrumentista integrou o célebre Trio ABC da Portela, dividindo os microfones e arranjos de cordas ao lado dos sambistas Picolino e Colombo. A sua assinatura autoral também carimbou composições antológicas interpretadas por grandes vozes da MPB, incluindo o clássico “Portela Querida”, defendido nos palcos pela cantora Elza Soares.
Atuação na política e vida familiar
Para além das fronteiras do entretenimento, o artista manteve participação ativa na política carioca. Alinhado ideologicamente à esquerda, ele militou nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Anos mais tarde, o prestígio público o levou a ocupar cargos no governo estadual: entre março de 2006 e janeiro de 2007, o sambista exerceu a função de Secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro durante a gestão da governadora Rosinha Garotinho. Em 2008, o artista testou sua popularidade nas urnas ao se candidatar ao cargo de vereador da capital pelo PSB.
Na esfera pessoal, o compositor teve quatro filhos de seu casamento de mais de cinco décadas com Dona Conceição. A dedicação integral à companheira de vida era uma de suas marcas registradas mais comentadas entre os amigos próximos do meio artístico e acadêmico. “Só vi Noca triste duas vezes: quando Dona Conceição ficou doente e quando ela morreu”, recordou o médico e amigo Roberto Medronho em registro de O Globo.