
Divulgação/Lavra Filmes
Diretor do filme de Olavo Carvalho diz que “Dark Horse” “deu m*rda”
Josias Teófilo afirmou que a cinebiografia de Jair Bolsonaro possui valores fora da realidade do cinema brasileiro e criticou a atuação do senador Flávio Bolsonaro na captação do dinheiro
Visão do meio cinematográfico
O cineasta Josias Teófilo alertou que a produção de “Dark Horse” apresentava sinais de problemas muito antes do vazamento dos áudios do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência pelo Partido Liberal (PL). Após a polêmica de seu financiamento, o diretor conversou por telefone com a colunista Mariana Sanches, do UOL, e classificou a captação de R$ 134 milhões junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro como algo irreal. “Era óbvio que ‘Dark Horse’ ia dar m*rda. É uma produção completamente fora da realidade do mercado e às vésperas da eleição”, declarou.
Números inexistentes no cinema brasileiro
O cineasta, que se define como de direita, também trabalhou em “Recife Frio” e “O Som ao Redor”, projetos do diretor Kleber Mendonça Filho. O parceiro de trabalho de Teófilo concorreu recentemente ao Oscar de Melhor Filme em 2026 com o longa “O Agente Secreto”. Atualmente, Teófilo acompanha o festival de Cannes, na França, onde chegou a encontrar o renomado diretor italiano Dario Argento. Isto tudo representa experiência e conhecimento do mercado.
Com base na sua trajetória, o cineasta demonstrou a falta de proporção dos números de “Dark Horse”. “Investimento de R$ 134 milhões em um filme não existe, nem nunca existiu, no cinema brasileiro. Nem grandes filmes, midiáticos, como ‘Bruna Surfistinha’, viram algo assim. Completamente fora do mercado nacional”, afirmou o cineasta sobre o longa que arrecadou R$ 4,2 milhões nas bilheterias em 2011.
Quem é Josias Teófilo?
Longe de ser um ativista de esquerda, Teófilo ficou conhecido por comandar “O Jardim das Aflições”, documentário lançado em 2017 sobre o escritor conservador Olavo de Carvalho, cujos cursos formaram expoentes do governo bolsonarista como Ernesto Araújo e Filipe Martins. A obra custou R$ 315 mil e contou com o financiamento de 2,8 mil investidores privados, um valor cerca de 400 vezes menor que o orçamento previsto para “Dark Horse”. Ele também filmou “Nem Tudo Se Desfaz” (2021), documentário de viés conservador sobre a ascensão de Jair Bolsonaro.
Apesar do histórico, ele chegou a bater de frente contra Mario Frias, durante a gestão do roteirista, ator e produtor de “Dark Horse” como secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro. O motivo foi uma viagem de Frias para encontrar o lutador de jiu-jítsu Renzo Gracie em Nova York, paga com dinheiro público, para debater um projeto audiovisual em 2021 – que até hoje não existe. A discussão também envolveu o desmonte da Lei Rouanet de incentivo cultural, que Frias chamava de “mamata”. O então secretário da Cultura insinuou que Teófilo não sabia sustentar seu próprio empreendimento, ou seja, bancar seus próprios filmes sem ajuda do Estado.
Financiamento de “Dark Horse”
Flávio Bolsonaro já disse que “Dark Horse” não teve dinheiro público. Entretanto, o dinheiro de Daniel Vorcaro é majoritariamente dinheiro público. Os maiores aportes no Banco Master são originados de fundos de pensão estaduais. Cerca de R$ 970 milhões vieram do Rio então governado por Cláudio Castro, filiado ao PL, seguidos por R$ 400 milhões do Amapá, do governador Clécio Luís, filiado ao Solidariedade, e R$ 97 milhões da Prefeitura de Maceió, de João Henrique Caldas, também filiado ao partido do senador Bolsonaro.
Teófilo estranha o envolvimento de Flávio com o filme, uma vez que, oficialmente, ele não tem nenhuma função de produção executiva no longa. As gravações reveladas pelo Intercept Brasil mostraram que, além atuar na captação de recursos, o próprio senador cobrou o pagamento de parcelas atrasadas de Vorcaro.
“Todo filme tem que ter alguém que fale por ele junto a patrocinadores ou investidores. Não faz sentido ver o Flávio fazendo captação diretamente, sem ser produtor executivo nem nada”, disse Teófilo, que prosseguiu: “Se era pra falar com Vorcaro, Flávio até podia dizer: ‘irmão, vou te colocar em contato com fulano sobre o filme’. Agora, ele mesmo cobrar, foge da prática comum”.
A falsa versão do investimento americano
A equipe responsável por “Dark Horse” se recusou a reconhecer a origem nacional do dinheiro. Num primeiro momento, a produtora chegou a dizer que não havia dinheiro nenhum de Vorcaro no filme. Segundo Teófilo, o deputado federal Mário Frias teria espalhado nos bastidores a versão de que o projeto sobrevivia unicamente de verbas estrangeiras. Entretanto, depois que Flávio Bolsonaro assumiu o investimento de Vorcaro, Frias deu outra explicação.
“No meio, o pessoal do ‘Dark Horse’, do Mário Frias, dizia que eles tinham conseguido um investidor norte-americano, era a história que eles espalhavam até recentemente. Parece que mentiram pra todo mundo. Imagino que o Jim Caviezel não esteja entendendo o que está acontecendo”, disparou Teófilo sobre o ator americano que interpreta Bolsonaro. Caviezel tem ignorado os pedidos de esclarecimento sobre a polêmica.
Rotas financeiras sob suspeita
A legislação permite que os produtores recebam uma porcentagem da captação de forma legal, mas o processo padrão exige o depósito direto nas contas da empresa responsável. “O normal é ter uma conta em nome da produtora, que recebe os valores e faz os pagamentos”, explicou ele. Entretanto, o dinheiro obtido após cobranças de Flavio Bolsonaro foi depositado num fundo de investimento americano, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro, antes de chegar à produtora. Os documentos que comprovam essas transferências, no entanto, não foram apresentados.
“A direita cresceu muito, muito rápido e é difícil dizer o que é idealismo, com um certo amadorismo, e o que é picaretagem”, pontuou Teófilo.
Aberto para posicionamentos
Os bastidores do filme “Dark Horse” têm gerado repercussão nas últimas semanas. O tema está em constante atualização e o espaço segue em aberto para posicionamentos, declarações e reparos das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.