
Instagram/Erika Hilton
Erika Hilton processa Ratinho em R$ 10 milhões
Deputada federal pede suspensão do programa e rebate ataques transfóbicos acusando o apresentador de "ódio primal" contra LGBTQIAs+ e mulheres
Processo e pedido de suspensão na TV
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) tomou medidas legais enérgicas contra os comentários proferidos por Ratinho no SBT. A parlamentar acionou o Ministério Público Federal para uma investigação criminal, encaminhou a abertura de uma ação civil pública com indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos causados à população trans e travesti e solicitou ao Ministério das Comunicações a suspensão da exibição do “Programa do Ratinho” pelo período de 30 dias, sob a alegação de que o apresentador Carlos Massa cometeu crime ao vivo durante a atração veiculada pelo SBT na noite de quarta-feira (11). Os processos foram revelados pela Folha de S. Paulo e confirmados nas redes sociais da deputada.
Preconceito ao vivo
A ação foi protocolada após o comunicador utilizar seu espaço em rede nacional na noite de quarta-feira (11/3) para atacar a escolha de Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, afirmando que ela não seria digna do cargo por ser uma mulher trans. “Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias”, declarou. Durante sua fala, ele errou os pronomes da parlamentar e criticou a comunidade LGBTQIA+ em geral, batendo o porrete na mesa contra a diversidade.
A resposta contundente
Nesta quinta-feira (12), a parlamentar utilizou seu perfil nas redes sociais para confirmar a abertura do processo e disparar críticas severas ao comunicador. “Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência. Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim”, iniciou.
A deputada ampliou a gravidade das falas, ressaltando o machismo por trás do raciocínio. “Ratinho interrompeu seu programa pra dizer que mulheres trans não são mulheres, que mulheres que não menstruam não são mulheres, que mulheres que não têm útero não são mulheres e que mulheres que não têm filhos não são mulheres. Este ataque de Ratinho foi contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não menstruam mais ou nunca menstruaram”, pontuou. “O discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo. E, para ele, mulheres são máquinas de reprodução”, acrescentou.
Sem papas na língua, ela relembrou o passado do apresentador em relação a processos trabalhistas. “Eu quase me surpreendi ao assistir a um raciocínio tão retrógrado. Mas aí lembrei das notícias reportando que, em 2016, 128 anos depois da abolição da escravatura, Ratinho submetia pessoas à escravidão em suas fazendas no Paraná”, alfinetou a parlamentar, que encerrou com uma promessa judicial. “Ele e o SBT pagarão pelos seus atos, na esfera cível e criminal. E eles não pagarão a mim, mas a todas as mulheres vítimas de violência, trans e cis. Por fim, vale lembrar: eu sou e sempre serei uma mulher. Este apresentador é, e sempre será, um rato”, finalizou.
O impacto do ódio e a rotina sob ameaças
Em entrevista ao UOL News, Erika Hilton foi além e classificou o discurso do canal paulista como “nojento” e “profundamente criminoso”. “O discurso dele não fere só a minha existência, a minha dignidade e coloca a minha vida em risco. Ele coloca a vida de toda uma população em risco e incentiva o ódio e a violência a uma população que já vive no país do mundo que mais mata pessoas trans”, afirmou.
A parlamentar relatou ainda a grave situação de insegurança em que vive desde o início de sua trajetória política. A hostilidade a forçou a adotar um estilo de vida restrito por questões de segurança. “Eu precisei me mudar de maneira rápida e absurda da minha própria casa, porque esses grupos que se articulam na deep web haviam conseguido rastrear os meus endereços. Eu não ando sem escolta. Vivo de carro blindado o tempo todo. Não posso sair desacompanhada e vivo sobre um esquema de segurança digital”, relatou.
“Essa é a minha realidade de vida. É como se eu tivesse feito algo ou participasse de alguma organização criminosa e pessoas muito poderosas estivessem atentando contra a minha vida. E esse discurso vai de encontro exatamente com isso”, resumiu Erika.
Qual é a defesa de Ratinho e do SBT?
A assessoria de Ratinho informou que ele não se pronuncia sobre questões judiciais, enquanto a emissora divulgou nota declarando que as falas não refletem a opinião da empresa e que o caso está sob análise. O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.