
Divulgação/RCA Victor
Neil Sedaka, lenda do pop rock, morre aos 86 anos nos EUA
Cantor e compositor compôs dezenas de hits clássicos que marcaram os anos 1960 e 1970
Despedida de uma lenda
Neil Sedaka morreu nesta sexta-feira (27/2), em Los Angeles, aos 86 anos. A informação foi divulgada pela família, que ressaltou o impacto pessoal e artístico do cantor.
“Nossa família está devastada com a repentina partida de nosso amado marido, pai e avô”, disse o comunicado. “Uma verdadeira lenda do rock and roll, uma inspiração para milhões, mas, mais importante, ao menos para aqueles de nós que tiveram a sorte de conhecê-lo, um ser humano incrível que fará muita falta.”
Do Brooklyn ao topo das paradas
Sedaka foi um dos poucos artistas a atravessar a transição do rock’n’roll da era pré-Beatles para a disco music dos anos 1970 mantendo relevância comercial. Nascido em 13 de março de 1939, no Brooklyn, em Nova York, ele começou a compor ainda adolescente com o letrista Howard Greenfield, vizinho de prédio.
A parceria explodiu em 1958, quando Connie Francis gravou “Stupid Cupid”, música da dupla que alcançou o 17º lugar na Billboard Hot 100 e que também virou fenômeno no Brasil na versão em português gravada por Celly Campelo – e que até batizou novela da Globo, “Estúpido Cupido” (1977).
Vieram outros sucessos para Francis, como “Where the Boys Are”, tema do filme homônimo de 1960. Em paralelo, Sedaka iniciou carreira solo e rapidamente emplacou uma sequência de hits, entre eles “Oh! Carol”, “Calendar Girl” e “Happy Birthday, Sweet Sixteen”. Até que explodiu com “Breaking Up Is Hard to Do”, que liderou as paradas por 14 semanas em 1962, tornando-se uma das músicas mais populares do pop rock americano antes da invasão britânica.
Entre 1958 e 1962, Sedaka e Greenfield venderam cerca de 25 milhões de discos e acumularam 10 grandes sucessos consecutivos — uma sequência rara para a época. Ao recordar aquele período, ele resumiu à Reuters, em 2010: “Eu era o rei dos ‘tra-la-las’ e ‘doo-be-do’s’ nos anos 1950 e 1960. Precisava ter uma melodia muito cativante, com um ritmo envolvente para dançar.”
O impacto dos Beatles
A chamada invasão britânica, liderada pelos Beatles, alterou o cenário do pop americano. A partir da metade da década, artistas como Sedaka perderam espaço nas rádios por soarem ultrapassados diante das músicas mais energéticas da nova geração. Sem renovar contrato em 1966, ele interrompeu a carreira como intérprete e passou a priorizar a composição.
Nesse período, criou hits para artistas como The Carpenters e até The Monkees, ironicamente considerados “a resposta americana para os Beatles”. A mudança de foco manteve seu nome ativo nos bastidores da indústria.
Retorno impulsionado por Elton John
Ele se mudou para o Reino Unido no início da década seguinte, tentando reorganizar a carreira. Foi nesse contexto que, em 1973, acabou se aproximando de Elton John nos bastidores da indústria musical britânica. Um dos maiores nomes do pop internacional da época, Elton conhecia o repertório de Sedaka desde a juventude. Admirador declarado, decidiu apoiá-lo publicamente. O cantor britânico o contratou para seu selo recém-criado, a The Rocket Record Co., oferecendo estrutura de gravação e distribuição internacional.
O gesto teve impacto imediato. O álbum “Sedaka’s Back” (1974) reposicionou o cantor e abriu caminho para “Laughter in the Rain”, que alcançou o 1º lugar na Billboard em 1975. Na sequência, “Bad Blood”, com participação vocal de Elton John nos backing vocals, também chegou ao topo das paradas. A associação com um artista que simbolizava a nova geração do pop ajudou a reconectar Sedaka ao público jovem, encerrando um hiato comercial que durava quase uma década.
Já “Love Will Keep Us Together” tornou-se o single mais vendido daquele ano e venceu o Grammy de Gravação do Ano, mas não na gravação original. O sucesso veio em 1975, quando a dupla Captain & Tennille lançou a canção como faixa-título de seu álbum de estreia. A gravação, com arranjo mais acelerado e clima festivo alinhado à ascensão da disco music, virou um fenômeno. No final da faixa, Toni Tennille ainda improvisa a frase “Sedaka is back”, numa referência direta ao compositor.
Formação clássica e influência duradoura
Com formação erudita desde a infância e bolsa na Juilliard, Sedaka costumava destacar a base técnica que sustentava suas melodias pop. Ao jornal The Morning Call, afirmou: “Sem querer me gabar, eu tenho formação musical. Estudei por muitos e muitos anos. Na verdade, em 1956, Arthur Rubinstein, o grande pianista, me escolheu para participar de um programa de rádio, e eu ganhei como o melhor pianista de ensino médio de Nova York. Eu tinha 16 anos.”
Na mesma entrevista, refletiu sobre sua identidade artística: “Acho que a razão de minha música ser tão especial é que ela era uma combinação de música de espetáculo, pop, standards atemporais e rock. Eu, Phil Cody, Carole Sager e Howie Greenfield reuníamos todos esses estilos.”
Ele também citou um reconhecimento que considerava simbólico, envolvendo Stevie Wonder: “Vi Stevie Wonder não faz muito tempo na televisão e perguntaram a ele: ‘Quem é sua inspiração?’ E ele respondeu: ‘Neil Sedaka. Eles costumavam me chamar de ‘Whitey’ em Detroit porque eu gostava e tocava discos de Neil Sedaka.’”
Integrante do Songwriters Hall of Fame e indicado cinco vezes ao Grammy, Sedaka escreveu ou coescreveu mais de 700 músicas e lançou mais de 20 álbuns de estúdio. Deixa a mulher, Leba, dois filhos e três netos.
Lembre os maiores sucessos do cantor