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Filme sobre perseguição estatal vence Festival de Berlim marcado por protestos políticos
Premiação principal foi marcada por discursos contra as ações de Israel em Gaza após a organização do evento defender neutralidade e irritar a classe artística
A consagração do cinema em meio à tensão
O Festival de Berlim divulgou os vencedores de sua edição de 2026 na tarde deste sábado (21/2). O drama alemão “Yellow Letters” (Gelbe Briefe), dirigido por Ilker Çatak, conquistou o cobiçado Urso de Ouro de Melhor Filme, coroando uma cerimônia de encerramento que ficou marcada por dezenas de protestos no palco.
A polêmica política de Berlim
“Yellow Letters” conta a história de um casal de artistas que sofre perseguição estatal e o presidente do Júri, o cineasta Wim Wnders, afirmou que tema era um alerta sobre os riscos da onda de autoritarismo atual.
O discurso de Wenders representou uma reviravolta completa em sua posição inicial sobre isenção no cinema. O festival iniciou sob forte cobrança por um posicionamento institucional contra a guerra em Gaza, mas Wenders optou por defender a isenção política. A tensão explodiu quando o presidente do júri declarou que cineastas deveriam deixar a política de fora do cinema.
A fala do diretor alemão gerou uma onda de repúdio, motivando a escritora indiana Arundhati Roy a abandonar o evento em protesto. Em seguida, mais de 80 nomes de peso da indústria, incluindo Tilda Swinton, Javier Bardem e o brasileiro Fernando Meirelles, assinaram uma carta aberta condenando o “silêncio institucional” da Berlinale. Pressionada, a diretora do festival, Tricia Tuttle, emitiu um comunicado defendendo o direito dos artistas de não responderem a perguntas políticas se não quisessem, o que inflamou ainda mais os ativistas.
O que os vencedores disseram no palco?
Sem amarras, os vencedores transformaram a cerimônia de encerramento em um palanque de críticas a Israel e aos governos ocidentais. O diretor Abdallah Alkhatib, premiado com o troféu de Melhor Filme de Estreia, subiu ao palco e acusou o governo alemão de ser “cúmplice” das ações israelenses.
A diretora Marie-Rose Osta fez um dos discursos mais comoventes da noite: “Crianças em Gaza, em toda a Palestina e no meu Líbano não têm superpoderes para se proteger das bombas em Israel”. Já o cineasta Emin Alper direcionou palavras de apoio aos povos da Palestina, da Turquia e do Irã, ressaltando que eles “não estão sozinhos”.
As categorias de atuação também renderam manifestações. A alemã Sandra Hüller, que recebeu o prêmio de Melhor Performance Principal por “Rose”, usou seu tempo para agradecer aos outros ganhadores por terem “dito a verdade”. O britânico Tom Courtenay, vencedor como Ator Coadjuvante por “Queen at Sea”, expandiu o alvo das críticas ao apontar que os Estados Unidos “aparentemente viraram suas costas para a Europa”.
Qual foi a reação da organização?
Diante da enxurrada de manifestações, a apresentadora da cerimônia, Désirée Nosbusch, precisou intervir para ressaltar à audiência que as visões pessoais dos artistas não refletem, necessariamente, as opiniões oficiais do Festival de Berlim. No encerramento, a diretora Tricia Tuttle tomou o microfone e encerrou a festa afirmando que o festival estimula a liberdade de expressão e as suas complexidades.
Demais premiados
O Grande Prêmio do Júri foi entregue a “Kurtulus”, longa que mergulha nos conflitos internos da Turquia. O britânico Grant Gee faturou a estatueta de Melhor Diretor por seu trabalho no documentário “Everybody Digs Bill Evans”. O longa “Queen at Sea”, focado em envelhecimento e demência, conquistou o Prêmio do Júri, além de render as vitórias em atuação coadjuvante para Anna-Calder Marshall e Tom Courtenay.
O cinema nacional também teve o que comemorar no evento alemão. Na mostra paralela Generation Kplus, o filme brasileiro “Feito Pipa”, de Allan Deberton e protagonizado por Lázaro Ramos, faturou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional. Na seção Forum, “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha”, de Janaína Marques, garantiu o prêmio do júri dos leitores do jornal Tagesspiegel.
Lista de ganhadores do Festival de Berlim em 2026
Confira abaixo quem venceu os prêmios nas principais categorias:
- Urso de Ouro (Melhor Filme): Gelbe Briefe
- Grande Prêmio do Júri: Kurtulus
- Prêmio do Júri: Queen at Sea
- Melhor Diretor: Grant Gee (Everybody Digs Bill Evans)
- Melhor Performance Principal: Sandra Hüller (Rose)
- Melhor Performance Coadjuvante: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay (Queen at Sea)
- Melhor Roteiro: Geneviève Dulude-de Celles (Nina Roza)
- Contribuição Artística Extraordinária: Yo – Love Is a Rebellious Bird