
Divulgação/HBO Max
Dona Beja: Associação acusa HBO de transfake e ator não binário rebate críticas
Escalação de Pedro Fasanaro para viver mulher trans é criticada, mas ator diz que personagem é dissidente de gênero e defende sua legitimidade
Antra denuncia transfake em novela
A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) publicou uma nota no sábado (7/2) criticando a HBO Max pela escalação do ator Pedro Fasanaro para viver a personagem Severina em “Dona Beja”. A entidade acusa a produção de praticar “transfake” — uso de atores cisgênero ou não alinhados à vivência trans feminina para papéis de mulheres trans. “A ANTRA manifesta seu posicionamento crítico diante da prática de transfake na série ‘Dona Beja’, a partir da escolha de uma pessoa que, independentemente de sua autodeclaração identitária, foi escalada para interpretar a personagem Severina, apresentada na narrativa como uma mulher trans”, diz o comunicado.
Questionamento da identidade não binária
Pedro Fasanaro se identifica publicamente como pessoa não binária, mas a Antra argumenta que isso não valida sua escalação para um papel de mulher trans. “É fundamental afirmar que identidades dissidentes não podem ser mobilizadas como recurso simbólico para justificar a ausência de mulheres trans e travestis no audiovisual”, afirmou a associação. A nota prossegue: “Quando mobilizada como argumento de diversidade, essa escolha pode operar apenas como token ou recurso simbólico… especialmente quando a leitura social do intérprete não o expõe às mesmas violências”.
A entidade cobrou responsabilidade do ator: “Ao aceitar o papel, o ator também assume a responsabilidade… e não a utilização dessa identidade como forma de esvaziar críticas”.
Ator defende legitimidade e contexto histórico
Na noite de domingo (8/2), Pedro Fasanaro rebateu as críticas em suas redes sociais, argumentando que a personagem Severina reflete a complexidade de gênero do século XIX, não necessariamente uma identidade trans contemporânea. “Severina é uma pessoa dissidente de gênero… No século XIX, tempo em que essa história se passa, não existia o letramento nem a consciência de gênero que temos hoje… Severina habita esse lugar do desvio. Ela não se entende, nem se afirma, enquanto mulher”, explicou.
“Sou um bicho em travessia”
Fasanaro defendeu sua própria identidade e o direito de ocupar o papel. “Eu sou uma pessoa não binária. Uso esse termo porque ele me é exigido… A verdade é que eu não sei exatamente o que eu sou. Eu sou um bicho em travessia. Eu sou uma pessoa dissidente de gênero. ‘Eu sou o que eu sou’. Assim como Severina”, escreveu.
Ele também criticou o uso de suas fotos “masculinas” para invalidá-lo: “Usar imagens minhas performando masculinidade para desmerecer minha identidade é um apagamento da minha subjetividade”. E concluiu: “As imagens dessa postagem atravessam diferentes momentos da minha vida… E que minha existência, assim como a de Severina, também é legítima”.