
Divulgação/Netflix
“Stranger Things” acaba com muitos furos e mistérios sem respostas
Capítulo final da saga divide fãs com subaproveitamento de personagens, erros de continuidade e mistérios cruciais ignorados
O preço da nostalgia e os esquecidos
O capítulo final de “Stranger Things” agradou alguns, desagradou outros e encerrou a saga de Hawkins, deixando a sensação geral de que os roteiros da temporada foram os piores da série. Personagens como Kali (Linnea Berthelsen), a “irmã” perdida de Eleven (Millie Bobby Brown), reapareceram apenas para serem subaproveitados, sem o impacto esperado na batalha final contra Vecna (Jamie Campbell Bower), assim como a introdução da Dr. Kay (Linda Hamilton), que saiu de cena sem nem sequer uma despedida. Pior, entretanto, é que nem todas as respostas aos mistérios apresentados ao longo dos 10 anos da trama foram resolvidos.
prometia uma nova camada de ameaça governamental, mas sua motivação — reiniciar o programa de Brenner usando Eleven e Kali — ficou superficial. O passado de Kay e sua relação exata com Brenner nunca foram aprofundados, e o fato de os militares simplesmente abandonarem Hawkins após perderem inúmeros soldados, sem qualquer retaliação massiva contra os protagonistas que invadiram suas bases, soou inverossímil.
Furos na mitologia e na narrativa
A mitologia da série sofreu com explicações vagas. Um dos pontos principais da trama, a origem da rocha infectada que possuiu Henry Creel (Jamie Campbell Bower), não foi sequer abordada, tratada como um mero dispositivo de roteiro. Outras questões específicas, como por que Vecna precisava exatamente de doze crianças, tampouco foram explicadas, assim com o conteúdo das cartas de despedida de Max (Sadie Sink).
Além da motivação da Dr. Kay (Linda Hamilton) — reiniciar o programa de Brenner usando Eleven e Kali — tenha ficado superficial, o passado da personagem e sua relação exata com Brenner nunca foram mencionados. O desfecho, com os militares simplesmente abandonando Hawkins após perderem inúmeros soldados, sem qualquer retaliação massiva contra os protagonistas que invadiram suas bases e os mataram, soou inverossímil.
Erros de continuidade
Fãs atentos notaram erros que podem ser interpretados como furos ou pistas abandonadas. A mudança de cor no dial da rádio WSQK (de cinza para vermelho) gerou teorias sobre a influência de Vecna, mas acabou sem explicação clara. Mais gritante foi a inconsistência no discurso de saída do armário de Will Byers (Noah Schnapp): ao se assumir para os amigos, ele menciona tomar milkshakes no Melvald’s (uma loja de conveniência que não vende milkshakes) e fazer caminhadas no bosque (cenário de seu trauma original), detalhes que contradizem a lógica estabelecida da série.
E que fim levaram os monstros que eram tão perigosos e de repente sumiram do mundo invertido? Mais grave ainda: que fim levaram os demorcegos, que só existiram na 4ª temporada para matar Eddie (Joseph Quinn)?
Conexões perdidas
O epílogo também falhou em fechar arcos emocionais. O relacionamento de Dustin (Gaten Matarazzo) com Suzie (Gabriella Pizzolo) foi esquecido, enquanto o status de Robin (Maya Hawke) e Vickie (Amybeth McNulty) foi simplesmente omitido, apesar de cenas anteriores sugerirem um romance.
Além disso, conexões profundas entre o vilão e os protagonistas foram desperdiçadas: a série nunca explorou o fato de Joyce (Winona Ryder) e Hopper (David Harbour) terem estudado com Henry Creel, nem a coincidência simbólica de Will e Henry compartilharem a mesma data de nascimento (22 de março), um detalhe que poderia ter redefinido a ligação psíquica entre os dois.
O problema de Eleven
Outro ponto que gerou críticas foi a facilidade com que Eleven derrotou o Devorador de Mentes. Considerado a ameaça suprema do Mundo Invertido, o monstro foi vencido sem a complexidade estratégica ou o sacrifício esperado para um inimigo desse porte, o que tirou o peso da ameaça final. Além disso, a decisão de Eleven de se sacrificar diante dos militares careceu de lógica para muitos espectadores: após enfrentar horrores cósmicos, render-se a uma força militar que se mostrou ineficaz durante toda a invasão de monstros pareceu um desfecho forçado para gerar drama, ignorando o poder que ela havia acabado de demonstrar.
No final, foi um sacrifício forçado demais para uma série que fez de tudo para poupar os demais protagonistas, mesmo os mais insignificantes para a trama.