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Divulgação/MPM Film

Filme|6 de janeiro de 2026

Morre Béla Tarr, mestre do “cinema lento” europeu, aos 70 anos

Cineasta húngaro, que revolucionou o cinema de arte com planos longos e estilo visual único, faleceu após longa doença


Pipoque pelo Texto ocultar
1 O adeus a um visionário
2 A estética do tempo
3 A obra-prima de 7 horas
4 Arte com Tilda Swinton
5 Aposentadoria e legado
6 Influência global

O adeus a um visionário

O cineasta húngaro Béla Tarr, uma das figuras mais radicais e reverenciadas do cinema contemporâneo, morreu na manhã desta terça-feira (6/1) aos 70 anos. A notícia foi confirmada pela Academia Europeia de Cinema, instituição que o homenageou em 2023 pelo conjunto da obra e da qual ele era membro desde 1997. Segundo o comunicado oficial, o diretor faleceu “após uma longa e grave doença”. A nota ressaltou não apenas sua genialidade artística, mas também sua postura como uma “personalidade com forte voz política”, respeitada globalmente por colegas e cinéfilos.

A estética do tempo

Tarr foi o grande arquiteto do “slow cinema” (cinema lento), um estilo que desafiou frontalmente a montagem frenética e as convenções narrativas de Hollywood. Sua assinatura visual tornou-se lendária: fotografia em preto e branco de alto contraste, diálogos escassos e, fundamentalmente, o uso de planos-sequência hipnóticos e complexos, que podiam durar vários minutos sem cortes.

Essa abordagem buscava o que a crítica batizou de “realismo temporal”. Ao recusar a manipulação do tempo pela edição, Tarr obrigava o espectador a vivenciar a duração real das ações e a sentir o peso físico da atmosfera, geralmente retratando a existência desoladora de personagens marginalizados em paisagens apocalípticas da Europa Oriental pós-comunista.

A obra-prima de 7 horas

O ápice desse método radical foi alcançado em “O Tango de Satã” (1994), adaptação do romance de László Krasznahorkai que se tornou seu colaborador frequente. Com sete horas e meia de duração, o filme narra o colapso moral e social de uma vila húngara coletivista após o fim do comunismo. A obra é famosa por sequências como a caminhada interminável de vacas por um vilarejo enlameado e cenas de dança que se estendem até a exaustão. Apesar da duração intimidante, o longa é frequentemente citado em listas dos melhores filmes de todos os tempos e definiu o status de “autor cult” de Tarr.

Antes disso, ele já havia chocado o circuito de festivais com “Danação” (1988), o primeiro filme independente da Hungria, que estabeleceu sua estética sombria e movimentos de câmera controlados. Outro marco foi “As Harmonias de Werckmeister” (2000), co-dirigido por sua esposa e editora Ágnes Hranitzky. Composto por apenas 39 planos em quase duas horas e meia, o filme cria uma alegoria política sinistra a partir da chegada de um circo misterioso — que exibe uma baleia empalhada — a uma pequena cidade.

Arte com Tilda Swinton

Em 2007, Tarr expandiu seu elenco de colaboradores internacionais com “O Homem de Londres”, um thriller noir estilizado baseado na obra de Georges Simenon. O filme marcou uma rara colaboração com uma estrela de Hollywood: a atriz Tilda Swinton. Interpretando a esposa do protagonista em um papel quase silencioso, Swinton se integrou perfeitamente ao universo austero de Tarr. Sua performance contida, dublada em húngaro, foi elogiada por transmitir uma “tristeza disciplinada” em longos planos focados em seu rosto, provando a universalidade da linguagem visual do diretor.
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Aposentadoria e legado

A carreira de diretor se encerrou voluntariamente em 2011 com “O Cavalo de Turim”, um drama existencialista sobre o açoitamento de um cavalo que teria levado o filósofo Friedrich Nietzsche à loucura. O filme, codirigido com a esposa, venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim e serviu como despedida oficial. “Não quero ser um cineasta estúpido que fica se repetindo e fazendo a mesma m*rda só para entediar as pessoas”, justificou na época.

Após largar as câmeras, Tarr dedicou-se à formação de novas gerações. Em 2012, fundou a escola de cinema Film.Factory em Sarajevo, onde implementou um modelo de ensino livre e trouxe nomes como Tilda Swinton, Juliette Binoche e Apichatpong Weerasethakul para atuar como mentores, perpetuando sua visão de um cinema que prioriza a experiência humana sobre a indústria do entretenimento.

Influência global

Embora tenha dirigido apenas nove longas-metragens entre 1979 e 2011, o impacto de Tarr na gramática do cinema moderno é imensurável. Cineastas americanos de prestígio como Gus Van Sant e Jim Jarmusch beberam diretamente de sua fonte. Van Sant, inclusive, citou o húngaro como a principal inspiração para sua aclamada “Trilogia da Morte” (“Gerry”, “Elefante” e “Últimos Dias”), adotando o ritmo contemplativo e a câmera fluida que eram marcas registradas do mestre europeu.

Além de famosos pela estética, os filmes do diretor também eram politicamente engajados. Tarr se definia como um “anarquista de esquerda” e foi um crítico feroz do nacionalismo e do populismo de direita. Ele não poupou condenações públicas a líderes como o húngaro Viktor Orbán, a francesa Marine Le Pen e o americano Donald Trump, usando sua arte e sua voz para denunciar o autoritarismo.

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