
Divulgação/Television Academy
Emmy cria prêmio Legacy para séries com impacto histórico
Nova categoria vai reconhecer programas com longa trajetória e influência duradoura na cultura, na sociedade e na indústria televisiva
Nova honraria amplia o escopo do Emmy
A Academia de Artes e Ciências Televisiva anunciou nesta quinta-feira (data não informada) a criação do Legacy Award, novo prêmio do Emmy destinado a reconhecer programas de televisão que tenham exercido “um impacto profundo e duradouro” sobre o público e que mantenham relevância para a sociedade, a cultura e a própria indústria. Trata-se da primeira grande nova categoria criada pela instituição em quase 20 anos.
Critérios rígidos de elegibilidade
Para concorrer ao Legacy Award, um programa precisa ter acumulado pelo menos 60 episódios ao longo de, no mínimo, cinco temporadas. Além disso, deve demonstrar relevância contínua ou sustentada, influência ou inspiração para um gênero televisivo, para audiências existentes ou novas, ou ainda para a sociedade e a cultura de forma mais ampla. No caso de franquias, a avaliação será feita sobre o conjunto da obra, que será considerada e premiada como um todo.
Produções clássicas e séries em exibição entram no radar
O regulamento permite a indicação tanto de programas já encerrados quanto de produções ainda em exibição. Séries históricas como “Tudo em Família”, exibida entre 1971 e 1979, e “Will & Grace”, que teve fases entre 1998 e 2006 e depois de 2017 a 2020, se enquadram nos critérios. Produções em andamento, como “Grey’s Anatomy”, no ar desde 2005, e “It’s Always Sunny in Philadelphia”, também lançada em 2005, além de atrações próximas do fim, como “The Late Show”, previsto para encerrar em 2026, são igualmente elegíveis.
Exigências privilegiam longevidade sobre impacto cultural
A regra definida pela Television Academy para o Legacy Award, ao exigir mínimo simultâneo de 60 episódios e cinco temporadas, abre uma distorção evidente no próprio conceito de legado televisivo. O critério privilegia longevidade industrial e volume de produção, mas ignora formatos históricos e transformações estruturais da TV ao longo das décadas.
Casos clássicos ajudam a dimensionar o problema. “Star Trek”, a série original exibida entre 1966 e 1969, teve apenas três temporadas, mas redefiniu a ficção científica televisiva, criou uma franquia multigeracional e influenciou diretamente linguagem, diversidade de elenco e até imaginário tecnológico.
Outro exemplo recorrente é “Twin Peaks”, criada por David Lynch e Mark Frost. Com duas temporadas nos anos 1990 e um retorno em 2017, a série mudou para sempre a narrativa seriada, introduzindo ambiguidade, surrealismo e autoria cinematográfica na TV aberta. Ainda assim, ficaria fora por não atingir o número mínimo de temporadas contínuas.
O caso de “Fawlty Towers” é ainda mais emblemático. A comédia britânica de John Cleese teve apenas duas temporadas, totalizando 12 episódios, mas permanece como referência absoluta no humor televisivo, citada por gerações de roteiristas e considerada uma das séries mais influentes da história do gênero. Pelo critério do Emmy, seu legado simplesmente não existiria.
Proposta privilegia TV aberta
A exigência também entra em choque direto com o modelo contemporâneo de produção. Séries consagradas da TV a cabo e do streaming, elogiadas justamente por narrativas fechadas e planejadas, são automaticamente excluídas. “Succession”, uma das produções mais premiadas dos últimos anos, encerrou sua trajetória com 39 episódios em quatro temporadas. “Sherlock”, fenômeno global da BBC, teve apenas 16 episódios em quatro temporadas. “Mr. Robot”, reconhecida pela inovação estética e temática, somou 45 episódios ao longo de quatro temporadas.
Mesmo quando não se trata de “clássicos” no sentido histórico, como no caso de “Stranger Things”, o critério evidencia um desalinhamento com a realidade atual da indústria. A série da Netflix teve cinco temporadas, mas apenas 42 episódios. Produções do streaming e da TV paga raramente alcançam 60 capítulos, ainda que exerçam enorme influência cultural, estética e mercadológica.
Ao priorizar quantidade sobre impacto, o Legacy Award corre o risco de premiar apenas séries de longa duração da TV aberta norte-americana, deixando de fora obras que moldaram gêneros, linguagens e formatos — exatamente o tipo de legado que o prêmio se propõe a reconhecer.
Quem pode indicar e como será a escolha?
As indicações poderão ser feitas por membros do conselho de governadores da Academia ou do comitê de prêmios especiais, além de profissionais da indústria e até do público em geral, por meio de cartas enviadas à entidade. A escolha dos vencedores ficará a cargo do atual comitê de premiação da Academia. O prêmio poderá ser concedido apenas uma vez a cada programa.
Entrega pode variar a cada edição
O Legacy Award será materializado em uma estatueta do Emmy gravada e poderá ser entregue em diferentes eventos, a critério da Academia. As opções incluem a cerimônia do Primetime Emmys, os eventos do Creative Arts Emmys, o festival Televerse ou a cerimônia do Hall da Fama da instituição, com a definição variando ano a ano.