
Divulgação/Globo
Morre Haroldo Costa, o primeiro Orfeu e ícone da cultura negra, aos 95 anos
Pioneiro do Teatro Experimental do Negro e primeiro ator negro a viver Jesus, artista deixa legado imenso no teatro, TV e samba
Adeus a um gigante da cultura brasileira
O ator, diretor e especialista em Carnaval Haroldo Costa morreu neste sábado (13/12), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família nas redes sociais do artista, que estava internado para tratar problemas de saúde decorrentes da idade.
Ao longo de mais de sete décadas de carreira, Haroldo foi uma figura central na valorização da cultura negra e na luta contra o racismo, atuando no teatro, cinema, televisão e na preservação da memória do samba.
Pioneirismo no teatro
Ligado ao Teatro Experimental do Negro (TEN) desde 1947, Haroldo Costa quebrou barreiras históricas. Foi o primeiro ator negro a interpretar Jesus em uma montagem de “O Auto da Compadecida” e o primeiro a atuar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Seu papel mais marcante foi como protagonista de “Orfeu da Conceição”, clássico de Vinicius de Moraes.
Na peça de 1956, que uniu Vinicius e Tom Jobim, Haroldo viveu o sambista Orfeu, dando vida a uma versão carnavalesca da famosa tragédia grega que depois foi levada ao cinema pelo diretor francês Marcel Camus – vencendo a Palma de Ouro de 1959 e o Oscar 1960 de Melhor Filme de Língua Estrangeira – , mas sem o ator que originou o papel.
A carreira no cinema e na TV
No cinema, dirigiu o filme “Pista de Grama” (1958), que registrou uma rara aparição de João Gilberto e Elizeth Cardoso, e atuou em longas como “Pluft, o Fantasminha” (1962), “Rifa-se Uma Mulher” (1967), “Cleo e Daniel” (1970) e “Xica da Silva” (1976). Na televisão, fez parte do time de fundação da TV Globo nos anos 1960, dirigindo musicais e programas de ícones como Chacrinha e Dercy Gonçalves.
Após sua passagem pela Globo, ele apareceu diante das câmeras na TV Manchete, atuando em produções famosas da antiga emissora carioca, incluindo “Pantanal”, “Kananga do Japão” e “A História de Ana Raio e Zé Trovão”. Ele voltou à Globo em 1999 para a minissérie biográfica “Chiquinha Gonzaga” e passou a atuar também como comentarista de carnaval.
Haroldo não foi um simples comentarista de desfiles de escolas de samba. Ele foi um estudioso apaixonado pelo Carnaval. Escreveu obras fundamentais como “Cem Anos de Carnaval no Rio de Janeiro” e a biografia “Salgueiro – 50 Anos de Glória”, que documenta meio século de história da escola de samba tijucana.
Seus últimos trabalhos foram no cinema, como ator em “Casa de Areia” (2007), de Andrucha Waddington, “Se Eu Fosse Você 2” (2009), de Daniel Filho, “VIPs” (2010), de Toniko Mello, e no remake de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (2017), de Pedro Vasconcelos.
Em 2015, sua trajetória foi tema do documentário “Haroldo Costa, O Nosso Orfeu”, dirigido por Silvio Tendler.