
Divulgação/Vitrine
Morre Udo Kier, ator cult de “Bacurau” e “O Agente Secreto”
Ator alemão de 81 ano trabalhou com Andy Warhol, Dario Argento, Rainer Werner Fassbinder, Lars von Trier, Quentin Tarantino e Kleber Mendonça Filho
Ator alemão morreu aos 81 anos
O ator alemão Udo Kier, ícone cult que trabalhou com nomes como Andy Warhol, Lars von Trier, Quentin Tarantino e Kleber Mendonça Filho, morreu na manhã deste domingo (23/11), aos 81 anos, segundo informou seu parceiro, o artista Delbert McBride. A causa da morte não foi divulgada pelas fontes que confirmaram o falecimento à imprensa internacional.
Como Udo Kier virou um ícone cult?
Por décadas, Kier representou personagens excêntricos com uma presença de tela magnética, capaz de roubar cenas em poucos minutos de tela. Ele se destacava no grotesco, no surreal e no bizarro, brilhando tanto em filmes de terror quanto no cinema de arte.
Nascido Udo Kierspe em Colônia, na Alemanha, em um hospital que estava sendo bombardeado pelas forças aliadas durante a 2º Guerra Mundial, o ator construiu uma filmografia com mais de 220 filmes ao longo de quase seis décadas. Ainda jovem, mudou-se para Londres aos 18 anos, onde começou a carreira internacional e deu os primeiros passos rumo ao status de ator cultuado.
Do horror de Warhol a Fassbinder e Lars Von Trier
Entre suas duas centenas de trabalhos, as colaborações com o universo de Andy Warhol estão entre as mais celebradas. Kier estrelou os papéis-título de “Carne para Frankenstein” (1973) e “Sangue para Dracula” (1974), ambos dirigidos por Paul Morrissey e produzidos por Warhol, em releituras sensuais e subversivas de monstros clássicos de Hollywood. Em seguida, emplacou participações em filmes que se tornariam cult, como o erótico “A História de O” (1975) e o terror “Suspiria” (1977), clássico de Dario Argento.
A fama no horror não o prendeu ao gênero: nas duas décadas seguintes, ele se espalhou pelo cinema europeu em produções de diferentes estilos. Kier colaborou com o lendário cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder em títulos como “Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação” (1977), “A Terceira Geração” (1979), “Berlin Alexanderplatz” (1980) e “Lili Marlene” (1981), reforçando seu prestígio no circuito autoral.
A partir do fim dos anos 1980, Kier iniciou uma longa e prolífica colaboração com Lars von Trier. Ele apareceu em “Epidemia” (1987) e em “Europa” (1991), além de participar de vários episódios da série de terror “The Kingdom” ao longo dos anos 1990 e 2000. A parceria ainda rendeu papéis marcantes em filmes como “Ondas do Destino” (1986), “Dançando no Escuro” (2000), “Dogville” (2003), “Melancolia” (2011) e “Ninfomaníaca: Vol. II” (2013).
Gus Van Sant, Madonna e Hollywood
Foi Gus Van Sant quem o levou a Hollywood. O diretor o ajudou a obter o visto de trabalho nos Estados Unidos e um registro no sindicato dos atores, abrindo caminho para um novo capítulo de sua carreira. Sua introdução ao público norte-americano aconteceu em “Garotos de Programa” (1991), filme de Van Sant em que dividiu a tela com River Phoenix e Keanu Reeves, consolidando-se como coadjuvante de luxo capaz de se destacar mesmo em elencos estrelados.
Em seguida, ele passou a coadjuvar em vários sucessos de Hollywood, incluindo “Ace Ventura: Pet Detetive” (1994), “Armageddon” (1998) e “Blade: O Caçador de Vampiros” (1998). No universo pop, o ator surgiu ainda no polêmico livro “Sex”, de Madonna, além de participar de clipes da cantora, como “Erotica” e “Deeper and Deeper”, reforçando a ligação de sua imagem com o pop e o provocativo.
Kier também foi dirigido por dois compatriotas famosos em filmes americanos: Wim Wenders em “O Fim da Violência” (1997) e Werner Herzog em “Meu Filho, Olha o Que Fizeste!” (2009).
De Tarantino a Kleber Mendonça
Nos últimos anos, ainda trabalhou com Quentin Tarantino no projeto “Grindhouse” (2007), com Rob Zombie no remake de “Halloween” (2007) e voltou a filmar com Dario Argento em “O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas” (2007) e Gus Van Sant em “A Pé Ele Não Vai Longe” (2018). Fortalecendo sua ligação com produções que dialogam com o cinema de gênero e a cinefilia, estrelou a comédia sci-fi “Deu a Louca nos Nazis”, de Timo Vuorensola, sobre uma invasão de nazistas que se esconderam na lua ao fim da 2ª Guerra Mundial. O filme virou um fenômeno cult e ganhou uma sequência em 2019.
Em seguida, ele reaproximou sua carreira do Brasil em duas colaborações com Kleber Mendonça Filho, ambas exibidas em Cannes. Em “Bacurau” (2019), Kier viveu o comandante implacável de um grupo de caçadores de recompensa que invade um vilarejo do sertão brasileiro, performance que ajudou a firmar o longa como um marco recente do cinema nacional. Já em “O Agente Secreto”, longa de Kleber lançado em 2025, ele interpreta Hans, um alfaiate judeu marcado física e emocionalmente pelas experiências na 2ª Guerra, reforçando sua capacidade de misturar estranheza e humanidade em um mesmo personagem.
Kier também fez a série “Hunters” e a comédia “Meu Vizinho Adolf” (2022), ambos sobre supostos nazistas escondidos, e deixou dois trabalhos inéditos antes de morrer: um terceiro longa da franquia nazi-espacial de Vuorensola e participação no jogo de terror “OD”, dirigido por Hideo Kojima em colaboração com Jordan Peele.