Festival de Brasília premia minorias, filmes de temáticas ambiental e LGBTQ+


Filmes passados na Amazônia, de temática LGBTQ+ e dirigidos por mulheres dominaram a premiação do 52º Festival de Brasília, que se encerrou na noite de sábado (30/11) na capital brasileira.

O principal vencedor do evento, “A Febre”, da carioca Maya Da-Rin, venceu cinco troféus: Melhor Filme, Direção, Ator, Fotografia e Som.

A obra narra a história de Justino (o premiado Regis Myrupu), um indígena do povo Desana que trabalha como vigilante em um porto de cargas e vive na periferia de Manaus. Desde a morte da sua esposa, sua principal companhia é a filha Vanessa, que está de partida para estudar Medicina em Brasília. Tomado por uma febre misteriosa, ele passa a ser perseguido por uma criatura enigmática durante todas as noites, e a lutar para se manter acordado no trabalho.

De forma convincente, Regis Myrupu, que realmente tem descendência indígena, já tinha sido premiado como Melhor Ator no 72º Festival de Locarno, na Suíça, por seu desempenho. Tanto o ator quanto a diretora Maya Da-Rin são estreantes em longas de ficção – mas a cineasta tem dois documentários sobre a Amazônia no currículo.

Além de “A Febre”, o filme vencedor do Prêmio do Público, “O Tempo que Resta”, também trouxe uma história passada na Amazônia com direção de cineasta feminina, Thaís Borges. Documentário de estreia da diretora brasiliense, acompanha duas mulheres marcadas para morrer, por lutar pela causa de pequenos agricultores e ribeirinhos contra grupos de mineradoras e madeireiros ilegais na floresta tropical. Thaís Borges também foi premiada pelo Roteiro.

Assim, Brasília premiou uma diretora e uma roteirista mulheres, e dois filmes sobre os problemas da Amazônia.

Mas a forte mensagem política do festival não ficou nisso.

Anne Celestino se tornou a primeira atriz transexual premiada no evento, pelo papel-título em “Alice Júnior”, de Gil Baroni. A comédia sobre uma youtuber transexual que precisa lidar com o conservadorismo na escola levou ao todo quatro Candangos — além de Melhor Atriz, Atriz Coadjuvante (Thais Schier), Trilha Sonora e Edição.

O evento ainda destacou “Piedade”, do pernambucano Claudio Assis, com três troféus. Igualmente focado em temas LGBTQ+ e questões ambientais, o drama refletiu os problemas causados pela construção de um porto, que interferiu no habitat de tubarões, gerando ataques em praias turísticas da região de Recife. Cauã Reymond, que vive o dono de um cinema pornô e cenas de sexo com o colega Matheus Nachtergaele, levou o Calango de Melhor Ator Coadjuvante. Os demais troféus do longa foram o Prêmio Especial do Júri e Direção de Arte.

Paradoxalmente, em contraste com este resultado, a organização do festival enfrentou denúncias de censura – um ator local foi impedido de ler uma carta de protesto contra a interrupção das políticas públicas para o audiovisual – e agressão contra mulheres – durante a apresentação do filme de Thaís Borges, um diretor do evento gritou contra as mulheres no palco para que começassem logo o filme e ainda xingou outras realizadoras que tentaram alertar para o horror da situação.

Confira abaixo a lista completa dos premiados.

Mostra Competitiva de Longas

Melhor Longa-Metragem
“A Febre”

Melhor Direção
Maya Da-Rin (“A Febre”)

Melhor Ator
Regis Myrupu (“A Febre”)

Melhor Atriz
Anne Celestino (“Alice Júnior”)

Melhor Ator Coadjuvante
Cauã Reymond (“Piedade”)

Melhor Atriz Coadjuvante
Thaís Schier (“Alice Júnior”)

Melhor Roteiro
Thaís Borges (“O Tempo que Resta”)



Prêmio Especial do Júri
“Piedade”, de Claudio Assis

Prêmio do Júri Popular
“O Tempo que Resta”

Melhor Fotografia
Bárbara Alvarez (“A Febre”)

Melhor Edição
Pedro Giongo (“Alice Júnior”)

Melhor Direção de Arte
Carla Sarmento (“Piedade”)

Melhor Som
Felippe Schultz Mussel, Breno Furtado, Emmanuel Croset (“A Febre”)

Melhor Trilha Sonora
Vinícius Nisi (“Alice Júnior”)

Mostra Competitiva de Curtas

Melhor Curta-Metragem
“Rã”, de Júlia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti

Melhor Direção
Sabrina Fidalgo (“Alfazema”)

Melhor Ator
Severino Dadá (“A Nave de Mané Socó”)

Melhor Atriz
Teuda Bara (“Angela”)

Melhor Roteiro
Camila Kater e Ana Julia Carvalheiro (“Carne”)

Prêmio do Júri Popular
“Carne”, de Camila Kater

Melhor Fotografia
João Castelo Branco (“Parabéns a Você”)

Melhor Edição
André Sampaio (“A Nave de Mané Socó”)

Melhor Direção de Arte
Isabelle Bittencourt (“Parabéns a Você”)

Melhor Som
Guma Farias e Bernardo Gebara (“A Nave de Mané Socó”)

Melhor Trilha Sonora
Vivian Caccuri (“Alfazema”)



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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