James Mangold desabafa sobre sua luta para colocar Ford vs. Ferrari no cinema

Após a vitória de “Ford vs. Ferrari” nas bilheterias do fim de semana, o cineasta James Mangold fez um longo desabafo para o jornalista Anthony D’Alessandro, do site Deadline, contando neste domingo (17/11) como precisou lutar para dirigir o filme e a dificuldade que esse tipo de drama enfrenta atualmente na própria indústria cinematográfica para chegar às telas.

Ele revelou que queria filmar essa história há 10 anos, mas sempre foi bloqueado. “Era um filme que eu perseguia, que existia de outras formas com outras pessoas ligadas a ele. Não exatamente esse roteiro, mas um projeto sobre esse período e história. Eu ficava ouvindo que a produção não estava disponível ou não era para mim. Comecei a demonstrar interesse em 2010. Depois de cada filme que terminava, consultava a Fox para dizer que estava disponível, mas sempre parecia que outras pessoas estavam envolvidas”, disse.

De fato, uma versão anterior do projeto tinha Joseph Kosinski (“Tron: O Legado”) vinculado à direção, além de Tom Cruise e Brad Pitt negociando os papéis principais.

“Até que, depois de ‘Logan’, não sei se foi o sucesso daquele filme ou apenas boa sorte, perguntei novamente e de repente foi possível pegar o projeto. E eu entrei com tudo e comecei a trabalhar como louco com os roteiristas Jez e John-Henry Butterworth”.

“A razão pela qual o filme teve tantos problemas para sair do papel anteriormente foi o custo. Tenho certeza que você está ciente, é difícil conseguir fazer um filme voltado para adultos, com temas adultos, atualmente. Existimos em um mundo segregado, em que filmes adultos não podem custar mais de US$ 30 milhões, enquanto os grandes orçamentos são reservados para produções voltadas a adolescentes ou para streaming”, acrescentou o cineasta. “A ideia de fazer um filme caro de cinema para adultos é um desafio real e árduo”.

“Ford vs. Ferrari” foi orçado em US$ 95 milhões.

“Todo estúdio planeja as finanças de um filme baseado na expectativa do fracasso, de que seu filme vai ser ruim. Assim, eles calculam como não perder dinheiro se o filme for uma merda… Faz sentido, já que, na prática, as chances de um filme se provar excelente são de apenas 20%”, explicou Mangold. “Por isso, eles precisam pensar no que acontece se o filme for considerado ruim: ‘Podemos lucrar com isso?’. Um filme como ‘Ford vs Ferrari’ não dá margem de cálculo se não for bom. Porque pessoas com mais de 30 anos não saem de casa a menos que ouçam que é bom.”

As críticas positivas, portanto, foram de grande incentivo para transformar o filme em sucesso. “Ford vs. Ferrari” recebeu 92% de aprovação da crítica norte-americana.

Mas para ser elogiado, o filme precisou ser feito. Por conta disso, Mangold fez questão de estender os créditos do sucesso aos produtores, que podem ter colocado seus empregos em risco ao bancarem o projeto. Ele agradeceu efusivamente a equipe da Fox.

“Eles mostraram muita fé, por causa da aposta nesse filme. Tinha que ser uma estreia decente para eles não terem problemas [com a Disney]. É por isso que a equipe da Fox – Emma Watts e Steve Asbell – e outras pessoas merecem crédito por isso, porque esse é o tipo de filme que cria problemas quando não funciona. É o tipo de filme que, quando fracassa, inspira questionamentos de cima: ‘Por que vocês fizeram isso?’. Pelos critérios atuais, com base em quem vai ao cinema atualmente, não deveria funcionar. Então, eles merecem muito crédito.”

Após o sucesso, a Disney rapidamente pegou carona no resultado positivo.

“Desde o início, nós amamos este filme. Em todo lugar que mostramos, as pessoas se apaixonaram por ele, então não é surpreendente ver a resposta positiva. Toda vez que o mostramos, tivemos a mesma reação”, disse Cathleen Taff, chefe do setor de distribuição de filmes da Disney.

Com o resultado, a Disney deve reforçar o orçamento de divulgação de “Ford vs. Ferrari” de olho na temporada de premiações, com destaque para o trabalho de Mangold e para os desempenhos de Matt Damon e Christian Bale nos papéis principais.