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Filme|12 de janeiro de 2019

A Nossa Espera reflete sobre as batalhas do cotidiano

Um operário vivendo do chão de fábrica, competente, dedicado ao seu trabalho, e também consciente de seus deveres e responsabilidades junto aos seus colegas e subordinados. Atento à forma como a empresa trata seus empregados, disposto a lutar por direitos, justiça, respeito e melhores condições de trabalho. Esse é o personagem Olivier (Romain Duris, de “Uma Nova Amiga”). Ou melhor, a face trabalhista dele.

A outra face é a familiar, tão dura e cheia de percalços como a do trabalho. O dinheiro é restrito, dois filhos pequenos demandam cuidado e atenção permanentes. Mas enquanto a mãe Laura (Lucie Debay, de “Antes do Inverno”) está presente, dá para levar. Só que um dia ela some, sem deixar explicações, e a vida de Olivier se complica enormemente.

O que o filme do diretor belga Guillaume Senez explora em estilo bem realista é a luta desse homem simples, operário, trabalhador, seu drama familiar com seus filhos e a participação de sua mãe e de sua irmã. Uma história sobre abandono e perdas.

O título em português alude também á questão da indefinição e da espera pelo possível retorno de Laura. Daí “A Nossa Espera”. O título original, porém, prefere enfatizar as batalhas do personagem e de seu meio: “Nos Batailles” (nossas batalhas).

A narrativa faz uma boa conexão entre a vida pessoal e o aspecto coletivo, social, mostrando como uma coisa interfere fortemente na outra e como os valores se constroem, ou são vividos, lá e cá.

Um dilema moral muito relevante resultará disso tudo, envolvendo não só o protagonista Olivier, mas também seus dois filhos, que ainda pequenos experimentarão o significado da democracia. Enfim, “A Nossa Espera” é um filme político, no sentido de que nossa atitude, nossas crenças, nossas ações, em casa ou no trabalho, são políticas e têm repercussões na vida dos outros. Unanimidades são raras, por isso é preciso negociar, cultivar a alteridade, respeitar as diferenças e os sentimentos.

Romain Duris, com seu talento e discrição, constrói um Olivier fascinante, que inspira respeito e torcida do público. No entanto, ele não se comporta como um herói. Ele luta para sobreviver com dignidade e para dar conta de tudo, dentro dos seus limites e com suas falhas. Como todo mundo. Só que, para alguns, a vida é mais penosa, mais difícil. Às vezes, o desafio parece grande demais. Mas a solução fácil pode ser mais lesiva do que a dura batalha do dia a dia, com suas escolhas complicadas.

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Antonio Carlos Egypto

Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio

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