Festival de Brasília 2018 consagra negros, mulheres e transexuais


O filme “Temporada”, primeira ficção em longa-metragem de André Novais Oliveira (“Ela Volta na Quinta”), foi o grande vencedor do Festival de Brasília 2018, conquistando cinco troféus no encerramento do evento, na noite de domingo (23/9). Eleito Melhor Filme pelo júri, também venceu os Troféus Candangos de Melhor Atriz (para Grace Passô), Ator Coadjuvante (Russão), Direção de Arte e Fotografia.

“Temporada” traz Grace Passô como uma mulher que, ao se mudar para Contagem (MG) vinda de uma cidade do interior, tem que lidar com o novo cotidiano e dificuldades no casamento. O detalhe é que se trata de um filme de diretor negro, estrelado por uma mulher negra. E ambos foram premiados.

O Melhor Ator foi outro negro: Aldri Anunciação, protagonista de “Ilha”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que também receberam o Candango de Melhor Roteiro – pela história de um jovem que sequestra um cineasta com o objetivo de rodar a própria história.

Ambos atores chamaram atenção para a quantidade de negros que fazem cinema no Brasil sem reconhecimento.

“Esse troféu diz respeito a uma porção de militâncias que desentortam o olhar. Para que pessoas como eu possam ser vistas, olhadas e possam ensinar a sociedade”, disse Grace Passô.

“Não existe atuação, existe coatuação. Eu não estou só aqui. Atrás existe uma comunidade de negros e negras. Quero dividir esse prêmio com Mário Gusmão, ator negro de 90 anos e que nunca ganhou um prêmio”, exaltou Aldri Anunciação.

Por sua vez, o Candango de Melhor Direção ficou com uma mulher: Beatriz Seigner, por seu trabalho em “Los Silencios”, que teve lançamento mundial no último Festival de Cannes. O filme mostra uma ilha no meio da Amazônia, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, que é povoada por fantasmas.



A boa safra de terror nacional também rendeu reconhecimentos para “A Sombra do Pai”, outro filme dirigido por uma mulher, Gabriela Amaral Almeida (“O Animal Cordial”), que levou três troféus: Melhor Montagem, Som e Atriz Coadjuvante (Luciana Paes).

“Torre das Donzelas”, documentário de Susanna Lira sobre presas políticas, ficou com o Prêmio Especial do Júri. E outro documentário, “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, sobre a cantora trans Linn da Quebrada, foi escolhido o Melhor Filme pelo Público e recebeu Menção Honrosa do júri, além do Candango de Melhor Trilha Sonora.

Confira abaixo os principais premiados.

Longa-Metragem

Melhor Filme: “Temporada”
Melhor Direção: Beatriz Seigner (“Los Silencios”)
Melhor Ator: Aldri Anunciação (“Ilha”)
Melhor Atriz: Grace Passô (“Temporada”)
Melhor Ator Coadjuvante: Russão (“Temporada”)
Melhor Atriz Coadjuvante: Luciana Paes (“A Sombra do Pai”)
Melhor Roteiro: “Ilha”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio
Melhor Fotografia: “Temporada”, Wilsa Esser
Melhor Direção de Arte: “Temporada”, Diogo Hayashi
Melhor Trilha Sonora: “Bixa Travesty”
Melhor Som: “A Sombra do Pai”, Gabriela Cunha
Melhor Montagem: “A Sombra do Pai”, Karen Akerman
Prêmio do Júri Popular: “Bixa Travesty”
Prêmio Especial do Júri: “Torre das Donzelas”
Menção Honrosa do Júri: “Bixa Travesty”

Curta-Metragem

Melhor Filme: “Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados”
Melhor Direção: Nara Normande (“Guaxuma”)
Melhor Ator: Fábio Leal (“Reforma”)
Melhor Atriz: Maria Leite (“Mesmo com Tanta Agonia”)
Melhor Ator coadjuvante: Uirá dos Reis (“Plano Controle”)
Melhor Atriz coadjuvante: Noemia Oliveira (“Eu, Minha Mãe e Wallace” )
Melhor Roteiro: “Reforma”, Fábio Leal
Melhor Fotografia: “Mesmo com Tanta Agonia”, Anna Santos
Melhor Direção de Arte: “Guaxuma”, Nara Normande
Melhor Trilha Sonora: “Guaxuma”, Normand Roger
Melhor Som: “Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados”, Nicolau Domingues
Melhor Montagem: “Plano Controle”, Gabriel Martins e Luisa Lana
Menção Honrosa de Atriz Coadjuvante: “Mesmo com Tanta Agonia”, Rillary Rihanna Guedes
Prêmio do Júri Popular: “Eu, Minha Mãe e Wallace”
Prêmio Especial do Júri: “Liberdade”



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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