Veja o trailer legendado de Troia: A Queda de uma Cidade, novidade da Netflix



A Netflix divulgou o trailer legendado de “Troia: A Queda de uma Cidade” (Troy: Fall of a City), série britânica que liderou a audiência, mas também gerou polêmica durante sua exibição no Reino Unido. A série foi disponibilizada na plataforma três meses após sua estreia e um dia antes da exibição do último episódio na televisão, e já pode ser assistida no Brasil.

A série teve grande repercussão na mídia e nas redes sociais, graças à escalação controversa de atores negros como intérpretes de heróis e deuses gregos.

“Por que a nova série da BBC ‘Troy: Fall of a City’, passada há 1,2 mil anos antes de Cristo, sente a necessidade de nos doutrinar sobre raça e gênero?’, indagou uma manchete do tabloide The Sun. “Controvérsia espreita a escalação do mítico Aquiles com um ator negro no novo épico da BBC”, publicou o site Greek Hollywood Reporter.

Não há explicação para o anacronismo politicamente correto da produção, que não só escalou David Gyasi (“Interestelar”) como Aquiles, descrito por Homero como um guerreiro loiro, como também o “brasileiro” Alfred Enoch (série “How To Get Away With Murder”) como o herói troiano Eneias, filho da deusa Afrodite, que assim como Aquiles foi retratado em inúmeras pinturas como um homem branco – e fundador de Roma.

Não fica nisso. Zeus, maior deus dos gregos, também é representado por um ator negro, Hakeem Kae-Kazim (“Black Sails”), jogando por terra o mito de que o homem foi criado à semelhança dos deuses – afinal, os gregos não eram negros – além de inúmeras representações pictóricas do velhinho de barbas, roupas e pele claras, soltando raios nos pobres mortais.

Como as escalações dizem mais respeito ao século 21 do que ao século 13 antes de Cristo, frustrou-se quem esperava uma recriação mais fiel do épico de Homero, embora o roteirista David Farr (da minissérie “The Night Manager”) tenha feito uma compilação abrangente dos diversos mitos e obras literárias que abordam os personagens da Guerra da Troia – embora o episódio que destaca a beleza feminina do loiro cabeludo Aquiles, que se escondeu entre mulheres para evitar ir à guerra, tenha sido ignorado, em consequência da escalação controversa.

Os produtores defenderam as escalações, em entrevista à revista Variety, afirmando que o “mundo dos mitos” permite “uma liberdade maravilhosa” de casting. “Diversidade está no coração do nosso casting e no coração do que a BBC e a Netflix querem. Isto só é controverso se as pessoas tentam criar uma controvérsia a partir disso”, afirmou Derek Wax, numa frase digna, como diriam os gregos, dos melhores sofistas.

Comentários no Twitter lembram que os africanos não tem nenhuma relação com a mitologia grega ou com a história da Grécia antiga. Alguns se disseram “chocados” com a “tentativa da BBC de reescrever a História da Grécia”.

A discussão trouxe à tona diversos argumentos, alguns francamente racistas. O argumento mais tradicional lembra que ninguém aceitaria um filme sobre o Pantera Negra ou Barack Obama se o protagonista fosse um ator branco. Entretanto, antes de “Pantera Negra” existiu “O Fantasma” (1996) e antes de “Barry” (2016) diversas cinebiografias de presidentes brancos. A cultura e a sociedade simplesmente evoluem.


O ponto central é o anacronismo representado pela escalação. Recriar o passado sob uma ótica politicamente correta poderia levar à situação-limite de retratar o período da escravidão sem escravos negros.

Poderia se argumentar que os troianos tampouco deveriam ser europeus brancos, já que sua cidade ficava na Turquia. Mas a região de Anatólia foi colonizada pelos gregos e pertencia à civilização helênica, compartilhando, inclusive, os mesmos deuses, como descreve o poema épico de Homero.

Entretanto, a escalação optou pelo aleatório, em nome da liberdade criativa.

Criador da série, David Farr citou o fato de estar lidando com mito e não com História factual para justificar suas decisões de elenco. “Ninguém sabe se a versão de Homero, que foi escrita 500 anos depois [da Guerra de Troia], é fiel aos fatos ou se é inteiramente mítica”, ele afirmou, referindo-se ao poema épico “A Ilíada”, de 3,2 mil anos atrás.

Entretanto, o mesmo pode ser dito sobre a totalidade da Bíblia. Imaginem um negro no papel de Moisés, Salomão ou Davi… Pior: imaginem um loiro escalado como o profeta Maomé. No dia seguinte, a civilização ocidental estaria em chamas, destruída por terroristas.

Não é para tanto. Mas cada povo merece ter a sua história respeitada.

Estas polêmicas servem para lembrar que, se escalar atores europeus loiros como deuses egípcios, em “Deuses do Egito” (2016), é considerado ofensivo, também se trata de equívoco a escalação de negros como deuses e semideuses europeus.

Ressalta-se que a série também tenta inovar ao contar história dos dez anos do cerco de Troia a partir do ponto de vista da família real troiana. Mas esta não é realmente uma ideia nova, uma vez que o livro “O Incêndio de Troia”, de Marion Zimmer Bradley, já tinha a perspectiva da princesa Cassandra. Melhor ainda: uma perspectiva feminista para a trama clássica, que reflete a cultura (machista) de posse de mulheres, justificativa original da guerra entre gregos e troianos.



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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