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Filme|24 de setembro de 2017

As Duas Irenes explora contrastes e semelhanças em retrato sensível da puberdade

O longa de estreia de Fábio Meira, “As Duas Irenes”, constantemente subverte expectativas, indo para caminhos imprevisíveis, optando por uma abordagem cadenciada e tranquila, quando muitos diretores cairiam na armadilha trazida pelo conflito principal do filme, concedendo espaço para situações exasperadas.

A trama é protagonizada por Irene (Priscila Bittencourt), de 13 anos, filha do meio de 3 irmãs, que tem uma vida comum em algum vilarejo no interior. Ela parece sempre eclipsada pela irmã mais velha, de 15 anos, principalmente diante da festa de debutante que esta terá, e movimentará toda a cidadezinha. Certo dia, ela descobre que o seu pai, Tonico (Marco Ricca), tem outra família e uma filha, também com 13 anos e de mesmo nome, Irene (Isabela Torres). A garota entra na vida desta outra Irene e passa a conhecer melhor a sua irmã homônima e, consequentemente, a si mesma.

Se fosse necessário definir em poucas palavras “As Duas Irenes”, diria que é um filme que preza pela delicadeza. Partindo do ponto de vista da garota de 13 anos, acompanhamos uma história de transição, em que a incompreensão dos acontecimentos ao seu redor faz com que a personagem se sinta ainda mais solitária e furiosa. Mas tudo isso mais pra dentro do que pra fora, quase que totalmente comprimido na expressão da personagem e não em diálogos.

De maneira não óbvia, Meira faz com que as personalidades das duas irmãs se complementem. Enquanto a primeira Irene se sente incompreendida e frustrada por nunca poder fazer o que quer, sentindo-se superprotegida pelos pais, a outra tem mais liberdade, uma personalidade mais expansiva e objetiva, mas ressente-se de uma figura paterna mais presente.

O triângulo formado pelas duas Irenes e Tonico é a base de um conflito aparentemente já visto, mas que aqui ganha desdobramentos complexos. A insatisfação das filhas com as atitudes erradas do pai está sempre na tela, mas, ao mesmo tempo, Tonico é uma figura indiscutível de autoridade e afeto por parte das duas, e mesmo não tendo capacidade de dimensionar tudo o que está em jogo, ambas adotam cautela na maneira como abordam o assunto do pai. A atuação de Marco Ricca é uma das principais qualidades do filme, contribuindo para que Tonico seja crível como essa figura de diversas faces.

Completando o mosaico, as personagens estão passando pela puberdade, época da descoberta da sexualidade, e começam a se enxergar de outra forma. Isso, claro, também interfere na maneira como processam essas novas informações.

E aqui entra o bom trabalho desempenhado pelas duas jovens atrizes principais, ambas estreantes. Tendo uma grande responsabilidade, Priscila Bittencourt cria uma Irene de expressão fechada, introspectiva, que parece saber sempre mais do que fala às pessoas. Numa construção econômica, ela resiste a todos os rompantes de fúria que parecem passar pela cabeça, optando por uma condução observadora, calada, que não revela seus sentimentos, embora fique claro que a sua cabeça está a mil.

Já a Irene de Isabela Torres é o contraponto na medida certa. Extrovertida e com uma sexualidade latente, ela é objetiva na forma de conseguir o que quer, mas deixa transparecer levemente uma insegurança, que vem da falta da figura do pai mais presente. Duas atuações de difícil condução, que as jovens atrizes conseguem dar conta, indicando potencial – para serem acompanhadas de perto em próximos projetos.

A direção clássica de Meira é econômica nos enquadramentos, optando por uma condução mais cadenciada, com o ritmo que o interior sugere. Claramente o foco está nas atrizes e seus cotidianos são mostrados com tranquilidade, sem a necessidade de espetacularizar nada. Meira parece entender que essa história ou já foi vista antes, ou que tem um padrão previsível e, portanto, o que tem de melhor a fazer é tirar o pé do acelerador e subverter a lógica mais prevista da condução desse “tipo de conflito”, oferecendo um desenvolvimento lento, mas que nunca revela falta de segurança. Falar mais seria estragar a surpresa.

A direção de arte de Fernanda Carlucci também é um destaque por ser aparentemente invisível, o que normalmente é uma característica positiva nesta função. As casas das duas Irenes, de maneira simples e econômica, representam as diferentes classes sociais das personagens. Enquanto a da primeira é grande, espaçosa, nitidamente bem planejada, a outra é mais simples, menor, mais modesta, mas ainda assim aconchegante. E essa diferença se dá discretamente através da acertada escolha dos móveis, das cores das paredes, dos figurinos.

Por sempre optar pelas sutilezas e subverter as expectativas mais apressadas, “As Duas Irenes” pode não ter as características que o levem a cair nas graças do grande público, mesmo que sua história seja agradável e de fácil assimilação. Muitos fatores de diversas naturezas interferem nisso. O que é uma pena, pois este é mais um dos trabalhos que indicam que o cinema brasileiro vive grande fase e possui muitas faces.

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Diego Bauer

Diego Bauer é ator, diretor e roteirista. Iniciou a carreira no teatro em 2009, realizando apresentações em Manaus, Itacoatiara, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em 2012, atuou no curta-metragem "A Segunda Balada", vencedor do prêmio de Melhor Direção do 9° Amazonas Film Festival. No ano seguinte, dirigiu seu primeiro curta de ficção, “O Que Não Te Disse”. Em 2016, dirigiu “O Tempo Passa” e atuou em “O Necromante”.

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