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Filme|27 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Vol. 2 subverte fórmula de sucesso de super-heróis com anti-heróis fracassados

A nova era dos heróis robóticos, burocratas, pouco poéticos, com o sorriso limpo e perfil publicitário é contestada pela afirmação dos Guardiões da Galáxia na tela. Os “heróis” da franquia, se é que podemos chamar assim, são meio apatetados, relaxados, erram a pontaria e fazem piada com o fracasso. Mas o maior segredo do carisma deles se deve ao fato de não serem afeitos a obedecer ordens, nem demonstrar disciplina. Quem usa uniforme sempre são os vilões.

Os Guardiões são outsiders do espaço. Outsiders de alto astral. Nada muito complicado, como os co-irmãos de divisas, o contraditório Homem de Ferro ou o atormentado Hulk. Os Guardiões rumam pelo espaço na maior leveza. Mesmo quando precisam salvar o universo.

No volume 1 foi assim. E neste número 2, repete-se a fórmula. Ainda que o filme não tenha a mesma leveza do anterior.

Nesse, o Senhor das Estrelas Peter Quill (Chris Pratt) encontra o pai que tanto procurava. Ele é interpretado por Kurt Russell e visto pela primeira vez, em um prólogo nostálgico, namorando a mãe de Peter. Por sinal, o rejuvenescimento digital de Russell é mais realista do que o visto em Carrie Fisher e Peter Cushing em “Rogue One”.

A base conceitual de “Guardiões da Galáxia Vol. 2”, aliás, é o passado. O filme dialoga muito mais com os anos 1970 e 80 do que o “Volume 1”. Além de reviver Russell com o mesmo esplendor e vitalidade de Snake Plissken, o anti-herói de “Fuga de Nova York”, o diretor James Gunn abraça a nostalgia. Atores como os veteranos David Hasselhoff e Sylvester Stallone ressurgem para fazer piadas, enquanto os acordes de “Southern Lights”, de Glen Campbell, e da festiva “Mr Blue Sky”, do Electric Light Orchestra, tocam inteiras, unindo a velha guarda e os novos a bater o pezinho no ritmo.

Há uma história a ser contada? Um fio.

Peter reencontra o pai, e isso o leva a colocar seus colegas Guardiões pra escanteio. A gatinha verde Gamora (Zoe Saldana), o australopiteco tatuado Drax (Dave Bautista), o guaxinim falastrão (voz de Bradley Cooper) e Baby Groot (voz de Vin Diesel) acabam ocupados demais sendo perseguidos por uma certa Ayesha (Elizabeth Debicki), líder de uma raça de alienígenas conhecida como Os Soberanos, antes de se notar que o pai de Peter não é exatamente como o herói idealiza, e se revela um verdadeiro perigo.

O filme, no fundo, se desenvolve como uma comédia de esquetes. Cada personagem tem o seu momento. Alguns, como Youdu (Michael Rooker) e a flecha voadora que obedece a seus assobios, é genial, bem como Baby Groot. A cena em que o Baby é despachado por dois personagens presos para recuperar uma arma é impagável pela forma como é construída como uma série de gags de comédia muda. Mas os outros Guardiões, que ainda incluem Nebula (Karen Gillan) e Mantis (Pom Klementieff) têm igualmente seus momentos. A vibe do elenco, sempre entusiasmada, empurra o espetáculo pra cima.

Claro, não é simplesmente essa combinação que tornará “Guardiões Vol. 2”, um imenso sucesso. E sim a ideia de como ele prepara o espectador para o hoje tão famigerado universo expandido. Não custa lembrar, o fã ocupa, atualmente, o topo da cadeia de consumo. O cara gosta dos Vingadores e quer a caneca do Capitão América, o jogo do Homem de Ferro, o bonequinho do Hulk, a sunga de banho do Thor, a pantufa do Gavião Arqueiro. “Guardiões da Galáxia Vol 2” dá pano pra manga pra toda uma indústria de licenciados conquistar a galáxia. E vêm aí o crossover com os Vingadores…

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Hamilton Rosa Jr.

Diretor de cena, roteirista e, antes de tudo jornalista, atuante há quase 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Video, DVD News e do programa de TV Mundo do Cinema. De 2008 pra cá, passou a direção de cena e rodou dezenas de comerciais e filmes corporativos. Dirigiu seus primeiros curtas “Desencanto”, em 2015, e “Sua Excelência” em 2016. Também é colaborador da revista Rolling Stone e do site Críticos.com.br

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