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Filme|20 de outubro de 2016

Estreias: O Contador e Ouija deixam a programação tensa nos cinemas

A Mostra de São Paulo deixou o clima tenso nos cinemas. Evidenciando a concentração do circuito alternativo no parque exibidor paulista, a quantidade de lançamentos diminuiu drasticamente nesta semana, com apenas seis estreias. Cinco são produções americanas e as que ocupam mais salas de shoppings provocam aflição.

O suspense “O Contador” estreia no Brasil uma semana após abrir em 1º lugar nos EUA. A história de Bill Dubuque (“O Juiz”) chegou a figurar na Black List, a lista dos melhores roteiros não filmados de Hollywood, mas é o maior problema do longa, por partir da premissa que o autismo é capaz de transformar alguém numa perfeita máquina de matar, conduzido aos clichês dos thrillers de ação, quando parecia que engataria um suspense psicológico. Na trama, Ben Affleck (“Batman vs. Superman”) vive um contador aparentemente pacato, que tem como cliente algumas das mais perigosas organizações criminosas do mundo. Ciente que está sendo vigiado pela polícia federal (chefiada por J.K. Simmons, de “Whiplash”), ele decide desviar a atenção, aceitando um cliente legítimo: uma empresa de robótica de última geração. O problema é que uma assistente de contabilidade da companhia (Anna Kendrick, de “A Escolha Perfeita”) descobre uma discrepância envolvendo milhões de dólares. Isto leva o contador a mergulhar nos registros, mas, conforme se aproxima da verdade, a contagem de corpos começa a subir e a qualidade a cair. A crítica americana considerou apenas medíocre – 49% de aprovação na avaliação do site Rotten Tomatoes.

Em estreia simultânea com os EUA, o terror “Ouija – Origem do Mal” sai-se melhor em sua iniciativa de provocar tensão, apesar do trailer já ter entregue a história completa. Passado nos anos 1960, este prólogo é superior e mais assustador que o longa que iniciou a franquia – o fraco “Ouija: O Jogo dos Espíritos” (2014). A trama acompanha uma mãe trapaceira (Elizabeth Reaser, da “Saga Crepúsculo”) que, com o auxílio de suas duas filhas, finge se comunicar com os espíritos para enganar clientes ricos. Até que decide comprar um jogo de tabuleiro Ouija para incrementar os negócios e um espírito real invade o corpo da filha menor. Escrito e dirigido por Mike Flanagan (“O Espelho”), que a cada filme comprova sua fama de mestre do terror moderno, a produção ainda resgata o sumido Henry Thomas, que há três décadas estrelou o clássico “E.T. – O Extraterrestre” (1982), como o padre que tenta ajudar as crianças. 88% de aprovação no Rotten Tomatoes.

“A Nona Vida de Louis Drax” mistura um pouco de tudo, começando como drama médico para virar investigação policial e decidir encontrar uma solução de ficção científica para gerar suspense com elementos de terror sobrenatural. O resultado dessa mistureba é difícil de engolir – e o Rotten Tomatoes registrou a rejeição, com 40% de aprovação. Com direção de outro especialista em terror, o francês Alexandre Aja (“Piranhas”), a trama traz Jamie Dornan (“Cinquenta Tons de Cinza”) como um médico/cientista louco que usa uma invenção para tentar se comunicar com um menino em coma e descobrir se o acidente que o deixou no hospital foi criminal. Refletindo diversos lugares-comuns, já vistos em filmes como “A Cela” (2000) e “Aurora” (2012), o filme marca o primeiro roteiro assinado pelo ator Max Minghella, que trabalhou com Aja no terror “Amaldiçoado” (2013).

O drama de época “O Mestre dos Gênios” tinha premissa promissora e, por isso, deixou a crítica frustrada, recebendo a mesma nota medíocre de “O Contador” no RT. Escrito por John Logan (“007 Contra Spectre”), narra a complicada relação de trabalho entre o escritor Thomas Wolfe (vivido por Jude Law, de “A Espiã que Sabia de Menos”) e seu primeiro editor, Max Perkins (Colin Firth, de “Kingsman – Serviço Secreto”), que lançou escritores icônicos como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Perkins percebeu o talento bruto no autor que ninguém queria publicar, mas precisou contornar a difícil personalidade de Wolfe e sua falta de disciplina para realizar um trabalho insano de edição e transformá-lo num escritor referenciado. Tudo isso a um enorme custo pessoal. Mas também há quem sustente que ele sufocou o talento cru do escritor, a ponto de a versão recuperada, sem edições, do manuscrito original de “Look Homeward, Angel” (1929) ser considerada superior ao texto editado. O filme não responde a esta questão.

Longe de oferecer complicações e sustos, a comédia “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!” oferece o melhor programa da semana. Ignore o título, que ao menos serve para referenciar “Jovens, Loucos e Rebeldes” (1993), que foi como se chamou o primeiro longa de Richard Linklater (“Boyhood”) lançado no Brasil. O novo trabalho é uma espécie de continuação espiritual daquele filme, que virou cult e lançou uma geração de novos astros de cinema – Ben Affleck, Matthew McConaughey, Milla Jovovich, etc. Mas enquanto aquele se passava nos anos 1970 e tinha como título original “Dazed and Confused”, música paranoica do Led Zeppelin, o novo se chama “Everybody Wants Some!!”, nome de uma canção festeira do Van Halen e acontece nos anos 1980. A trama gira em torno de um grupo de jovens amigos e segue o clima das comédias sexuais da época, “Porky’s” (1981), “O Clube dos Cafajestes” (1978) e “O Último Americano Virgem” (1982). Estão de volta os trotes, as drogas, a descoberta do sexo, a busca da identidade, a integração em grupo e outros elementos que marcam os melhores filmes do diretor, incluindo “Boyhood” (2014), além de uma recriação precisa de época e, quem sabe, até a revelação de uma geração de estrelas. A crítica americana riu junto, com 87% de aprovação.

O último lançamento também é uma comédia. “Romance à Francesa” é exatamente o que se imagina de um filme com este título. Afinal, a comédia francesa atual virou clichê de si mesma, girando sempre em torno de infidelidades e relacionamentos a três. Anaïs Demoustier, que vive a Caprice do título original, inclusive já passou por situação similar numa comédia romântica melhor, “A Três Vamos Lá” (2015). A repetição entedia. E entristece, ao considerar que isso encontre tanto mercado no Brasil.

Vale lembrar, ainda, que outra comédia lançada exclusivamente no Ceará na semana passada ganha o território nacional nesta quinta-feira: “O Shaolin do Sertão”, de Halder Gomes (“Cine Holliúdy”) – cuja crítica já pode ser lida aqui.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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