Patrulha ideológica faz ator de Punho de Ferro sair do Twitter

Patrulha ideológica faz ator de Punho de Ferro sair do Twitter

 

O ator Finn Jones, que interpreta o papel-título da vindoura série de super-heróis “Punho de Ferro”, sofreu assédio de um patrulheiro ideológico no Twitter por não ser asiático como “deveria ser” o herói. A discussão se estendeu por horas no fim de semana e inspirou o ataque de outros trolls, levando o ator a deletar provisoriamente seu perfil na rede social.

A discussão começou quando Jones citou o ator Riz Ahmed (“Rogue One: Uma História Star Wars”), que compartilhou um link de uma palestra sobre a importância da representatividade étnica no cinema. O intérprete de Punho de Ferro acrescentou que “representatividade é importante”. E não demorou para que alguém o confrontasse a respeito da sua própria escalação para o papel na série.

Bombardeado, Finn tirou sua conta do ar por 24 horas. Ao retornar, ele deu a seguinte explicação:

“Existe um grande benefício de se engajar em conversações nas mídias sociais, especialmente quando se trata de dar voz para questões sociais. Minha intenção original era de amplificar o discurso feito por Riz Ahmed na Câmara dos Comuns do Reino Unido. Foi um discurso muito importante e articulado de representação com o qual eu totalmente concordo. Depois de publicar, eu fui inundado de acusações de pessoas dizendo que eu não tinha permissão de compartilhar a voz dele, baseado na presunção de que nossa série irá ampliar os problemas da má representação racial. Eu abordei isso educadamente, diplomaticamente e tentei servir como ponte para encerrar essa divisão. Eu estou atualmente no meio das gravações [dos ‘Defensores’] e preciso me manter concentrado em trazer este personagem à vida sem julgamento, então eu decidi me retirar do Twitter por um tempo.”

O ataque sofrido pelo ator, porém, não faz sentido do ponto de vista dos quadrinhos em que a série se baseia.

Nas revistas da Marvel, Danny Rand, a identidade de Punho de Ferro, é um jovem americano loiro, resgatado de um acidente no Himalaia, que treina com monges numa cidade mística para adquirir suas habilidades nas artes marciais e dominar o poder que acaba por batizá-lo.

Mas as adaptações de quadrinhos têm tomado liberdades para incluir uma maior diversidade racial, com a justificativa de que isso não era refletido nas publicações originais. O próximo filme do Homem-Aranha, por exemplo, trará diversos atores negros em papéis que eram de brancos nos quadrinhos.

Diante disso, chegou a existir um movimento para que Punho de Ferro virasse asiático na série, justificando a mudança com o fato de a etnia do personagem não ser fundamental para a manifestação dos seus poderes e que a história podia soar mais poderosa a partir de uma perspectiva oriental. Afinal, o enredo da trama perpetua alguns estereótipos de Hollywood, destacando um homem branco que treina lutas orientais e se torna melhor do que seus professores asiáticos.

A história da série não é essa, mas pouco importa para a polêmica. O fato é que esse questionamento fez o patrulheiro se sentir com autoridade moral para protestar contra a escalação de Jones, atacando o ator por ser loiro como o personagem e não asiático como a série deveria retratá-lo.

“Por favor, não faça suposições sobre a nossa série antes de assisti-la. A caracterização de Danny Rand pode ter permanecido fiel ao seu material de origem, mas a nossa série incorpora e comemora atores de todas as origens étnicas”, Jones ainda tentou argumentar.

Talvez o patrulheiro nunca tenha aberto uma página de quadrinhos na vida e não saiba que a série introduz a primeira heroína asiática da Marvel, Coleen Wing, vivida por outra atriz de “Game of Thrones”, Jessica Henwick – que, a propósito, é tão inglesa quanto Finn, apesar das feições orientais. E ela é que é a melhor lutadora dos quadrinhos originais.

Mas tudo pode ser resumido numa simples questão: por que transformar o herói loiro em oriental, se já há um personagem inteiramente asiático nos quadrinhos da Marvel – Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu? Não faria mais sentido pressionar por uma série para o herói? A trama renderia uma belíssima produção de espionagem e ação internacional, envolvendo inclusive o maior vilão asiático da literatura (ocidental), Fu Manchu. Cadê a campanha pela série do Mestre do Kung Fu?

Enquanto ninguém se manifesta com petições a favor do Mestre do Kung Fu, a série do Punho de Ferro estreia em 17 de março na Netflix.

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna