Estreias | “A Cor Púrpura” é a principal novidade nos cinemas

Terror "Baghed - A Bruxo dos Mortos" também se destaca entre os lançamentos, com exibição em 500 telas

Divulgação/Warner Bros.

A nova versão de “A Cor Púrpura” é o maior destaque da programação desta quinta (8/2) nos cinemas, mas o terror “Baghed – A Bruxo dos Mortos” tem maior alcance, com exibição em 500 telas. O circuito limitado ainda recebe três produções de elevada aprovação crítica, incluindo a continuação de uma animação francesa indicada ao Oscar.

 

A COR PÚRPURA

 

A adaptação cinematográfica dirigida por Blitz Bazawule (que assinou parte do álbum visual “Black Is King”, de Beyoncé) traz uma nova perspectiva ao romance épico de Alice Walker, anteriormente adaptado por Steven Spielberg em 1985 e transformado em musical da Broadway em 2005. Nesta versão, a história de Celie, uma mulher negra que enfrenta abusos e luta para encontrar sua força interior, é narrada com uma combinação de música e dança.

Celie é interpretada na infância por Phylicia Pearl Mpasi e na fase adulta pela notável Fantasia Barrino, revelada na 3ª temporada do programa “American Idol” (exibida em 2004), que também interpretou o papel principal na Broadway. Ela vive uma existência trágica, marcada pelo abuso do pai e posteriormente pelo marido violento, Mister (Colman Domingo, de “Fear the Walking Dead”), que a distancia da irmã querida, Nettie (Halle Bailey, “A Pequena Sereia”), e a submete a uma vida de servidão e isolamento emocional.

No decorrer da história dramática, Celie encontra figuras femininas fortes que influenciam profundamente sua jornada. Entre elas, Sofia (Danielle Brooks, de “Orange Is New Black”), uma mulher de espírito indomável casada com o filho de Mister, e Shug Avery (Taraji P. Henson, de “Estrelas Além do Tempo”), uma cantora de blues que mantém um relacionamento complexo com Mister, mas que se torna uma protetora e figura central na vida de Celie. A interação da protagonista com estas mulheres, cada uma lutando contra as próprias adversidades em um contexto de racismo e opressão de gênero, vira o catalisador de um despertar pessoal e busca por autoafirmação.

A decisão de transformar uma narrativa tão densa em um musical gerou um contraste entre o conteúdo sombrio da história e a execução estética das músicas e coreografias. Embora mantenha a essência da luta e resiliência das personagens, a opção suaviza alguns dos aspectos mais duros da trama original, como abuso, racismo e sexismo. As sequências musicais, que variam do gospel ao jazz, oferecem um contraponto à severidade da narrativa, ilustrando a resistência e a força interior das personagens. Mas quem viu o filme dos anos 1980 pode ter dificuldade em assimilar as mudanças bruscas de tom entre o drama deprimente e a energia das celebrações dançantes.

 

BAGHEAD – A BRUXA DOS MORTOS

 

O terror dirigido pelo espanhol Alberto Corredor é baseado num curta-metragem premiado de 2017. A história se concentra em Iris Lark (interpretada por Freya Allan de “The Witcher”), uma estudante de arte londrina sem recursos financeiros que herda um bar em Berlim após a morte de seu pai distante (Peter Mullan, de “Cursed: A Lenda do Lago”). Ao chegar ao local, ela descobre um inquilino incomum no porão: uma entidade malévola conhecida como Baghead, capaz de se transformar e canalizar os mortos. Este poder atrai pessoas como Neil (Jeremy Irvine, de “Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo”), um viúvo recente disposto a pagar caro pela chance de se comunicar com seus entes queridos falecidos.

O enredo se desenrola em torno da maldição que liga Iris ao pub e à bruxa no porão, que usa uma sacola de aniagem para cobrir o rosto e pode se tornar um receptáculo para os mortos. A bruxa, uma figura manipuladora e ardilosa, procura escapar de seu destino injusto, enquanto Iris deve navegar pelas regras estabelecidas para controlar a entidade: limitar o contato dos clientes com os mortos a dois minutos, evitar usar os poderes da bruxa para fins pessoais e manter distância de um buraco específico na parede do porão.

Ambientado em uma Berlim gótica e quase despovoada, o filme entrelaça elementos de horror clássico, que até lembram um pouco a premissa de “Fale Comigo” (2023), com uma narrativa pouco convencional – a bruxa não é apenas uma antagonista demonizada, mas também uma figura feminista que busca libertação de uma opressão patriarcal, colaborando com Iris em seu desejo compartilhado de liberdade. Ao mesmo tempo, as complicações da trama – mais ambiciosa que o poder de síntese do cineasta – acabam tornando-a incoerente em alguns aspectos. Pior que isso, o resultado é incapaz de gerar medo genuíno, o que é péssimo para um filme de terror.

 

A VIAGEM DE ERNESTO E CELESTINE

 

A nova animação francesa dá continuidade à amizade encantadora entre o urso Ernesto e a ratinha Celestine, introduzidos no filme “Ernest & Celestine”, que foi indicado ao Oscar em 2014. Nesta sequência, dirigida por Julien Chheng (animador do primeiro filme) e Jean-Christophe Roger (diretor da série dos personagens), a dupla parte para uma aventura na cidade natal de Ernest, Gibberitia, onde descobrem que a música, essencial para a comunidade, foi proibida pelo pai de Ernest, o juiz do estado. O enredo se desenrola em torno dos esforços de Ernest e Celestine para restaurar a liberdade musical na cidade, enfrentando desafios e descobrindo a importância da expressão artística.

A narrativa é enriquecida pelo contraste entre a visão otimista de Celestine e o pessimismo de Ernest, criando uma dinâmica que aborda questões de esperança, amizade e resiliência frente às adversidades. Destinada ao público infantil, a obra mescla a leveza da animação com reflexões sobre arte, cultura, política e relações familiares”., a obra mescla a leveza da animação com reflexões profundas sobre arte, cultura, política e relações familiares. Com uma estética delicada, de ilustrações que transmitem emoção e detalhes em cada cena, “A Viagem de Ernesto e Celestine” reflete a beleza da arte como pilar da sociedade, e a luta contra a censura e a importância da liberdade criativa.

 

TODO MUNDO AMA JEANNE

 

Jeanne é uma empreendedora, interpretada por Blanche Gardin (“Fumar Causa Tosse”), que enfrenta uma depressão após a morte da mãe e o fracasso de seu negócio inovador na área ambiental. A situação piora quando ela tenta, sem sucesso, salvar seu projeto subaquático de um desastre, o que apenas serve para expô-la ao ridículo na mídia. Para tentar se reerguer, Jeanne decide vender um apartamento em Lisboa, legado de sua mãe, mas o processo a faz reencontrar figuras do passado e enfrentar antigas questões não resolvidas.

No caminho para Lisboa, Jeanne cruza com Vitor (Nuno Lopes, de “Viver Mal”), um ex-namorado que a fez misturar passado e presente, e Jean (Laurent Lafitte, de “Elle”), um conhecido dos tempos de escola, cujo comportamento estranho e invasivo inicialmente a perturba. Jean revela ter seus próprios problemas, incluindo episódios de saúde mental, e suas interações com Jeanne tomam um rumo inesperado, influenciando sua jornada de recuperação e autoconhecimento.

Em Lisboa, as memórias do apartamento, repletas de momentos difíceis, levam-na a refletir sobre a relação conturbada que tinha com sua mãe e como isso afetou sua vida adulta. Além disso, o encontro com Vitor, um ex-namorado, traz à tona lembranças de um relacionamento que faz parte de um capítulo anterior de sua existência, que ela precisa resolver para seguir em frente. A venda do apartamento em Lisboa acaba assumindo, assim, não apenas uma solução financeira, mas também um passo simbólico para se desvencilhar das amarras do passado, refletir sobre sua vida e as escolhas que a trouxeram até ali.

Mas todo esse drama é apresentado como comédia. A estreia de Céline Devaux na direção de longas-metragens, após reconhecimento em festivais como Cannes e Veneza por seus curtas animados, também inclui elementos de animação, usados para representar a voz interna de Jeanne. Essa voz se manifesta como um pequeno fantasma animado, que serve como uma consciência falante, expressando dúvidas, medos e reflexões, como uma visualização das lutas internas da protagonista. Exibido no Festival de Cannes, o filme foi considerado um dos mais engraçados de 2022 na França e atingiu 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.

 

MONEYBOYS

 

O filme do estreante C.B. Yi aborda temas que jamais chegariam às telas se dependesse do governo chinês: a prostituição masculina e questões LGBTQ+ na China, tópicos tipicamente sensíveis para a censura no país. A filmagem só aconteceu porque a produção é majoritariamente europeia, envolvendo financiamento e colaboração de países como Áustria, França, Taiwan e Bélgica. Além disso, embora a história seja localizada no sul da China, o longa foi rodado em Taiwan, um ambiente com regulamentações de mídia mais liberais e uma sociedade mais aberta em relação a temas LGBTQ+.

A trama acompanha Fei, um jovem que se dedica à prostituição em uma grande cidade chinesa para sustentar sua família no campo. Apesar de sua contribuição financeira, ele enfrenta o desprezo de sua família devido à sua orientação sexual e ao estigma associado à sua profissão. Ao longo do filme, a vida de Fei é marcada por encontros significativos, incluindo a relação com Xiaolai, uma figura mais experiente no mundo da prostituição que se torna um mentor e interesse amoroso, e a reaparição de Long, um amor de juventude que reintroduz Fei às tensões de seu passado e presente. Estes relacionamentos estabelecem dinâmicas de poder, lealdade e vulnerabilidade, enquanto Fei navega por um ambiente hostil que ameaça sua segurança e bem-estar emocional.

“Moneyboys” não só aborda a realidade da prostituição masculina na China, como também reflete sobre temas mais amplos, como a aceitação familiar, a homofobia e os desafios enfrentados pela comunidade LGBTQ+ em sociedades conservadoras. O filme se destaca por sua abordagem sensível e humanizada dos personagens, evitando estereótipos e explorando suas complexidades com empatia e profundidade.

Além da história incomum para um drama “chinês”, a obra também se destaca por uma direção visualmente impressionante, com uma fotografia que utiliza cores vibrantes e composições detalhadas para contrastar com a melancolia inerente à trajetória do protagonista.