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Divulgação/Universal Pictures

Filme|19 de dezembro de 2022

Steven Spielberg lamenta impacto de “Tubarão” nos próprios tubarões

O cineasta Steven Spielberg (“Amor, Sublime Amor”) disse que se arrepende do impacto negativo que seu filme “Tubarão” (1975) teve na maneira como a população passou a enxergar tubarões. Durante participação no programa “Desert Island Discs”, da BBC, o diretor também lamentou que a obra tenha contribuído para a “dizimação na população de tubarões”.

O assunto surgiu quando o diretor foi questionado sobre como se sentiria se estivesse em uma ilha deserta cercada por tubarões.

“Essa é uma das coisas que ainda temo – não ser comido por um tubarão, mas que os tubarões estejam de alguma forma bravos comigo pelo frenesi que aconteceu depois de 1975, o que eu realmente, e até hoje, lamento: a dizimação da população de tubarões por causa do livro e do filme”, explicou ele. “Eu realmente, realmente me arrependo disso.”

“Tubarão” foi responsável por transformar o figura do grande peixe em um verdadeiro monstro. E como o próprio Spielberg apontou, depois do lançamento do filme – que é baseado em um livro de Peter Benchley (1940-2006) -, disparou o número da “pescas esportivas” de tubarões.

George Burgess, diretor do Programa de Pesquisa de Tubarões da Flórida definiu essa pesca esportiva como “uma corrida coletiva de testosterona” que “varreu a costa leste dos EUA”, exterminando os tubarões da região.

“Milhares de pescadores partiram para pegar tubarões-troféu depois de assistirem a ‘Tubarão’”, disse ele à BBC. “Foi uma pesca de colarinho azul. Você não precisava ter um barco ou equipamento sofisticado – um Zé Ninguém poderia pescar peixes grandes e não havia remorso, pois havia essa mentalidade de que eles matavam homens.”

O próprio Benchley, que escreveu o livro, também já se desculpou publicamente pelo seu papel na queda acentuada da população de tubarões. O escritor passou boa parte da sua vida após a publicação de “Tubarão” trabalhando em uma campanha para salvar os tubarões. “’Tubarão’ era inteiramente uma ficção”, disse ele ao London Daily Express em 2006. “Sabendo o que sei agora, nunca poderia escrever esse livro hoje.”

“Os tubarões não têm como alvo os seres humanos e certamente não guardam rancor”, continuou ele. “Não existe tubarão devorador de homens com gosto por carne humana. Na verdade, os tubarões raramente dão mais de uma mordida nas pessoas, porque somos muito magros e pouco apetitosos para eles.”

Ainda que se arrependa das consequências negativas do seu filme, Spielberg se orgulha da maneira como conseguiu contornar os problemas de produção – especificamente, o tubarão mecânico que não funcionava direito – e usar esses problemas a seu favor.

Ele credita o cineasta Alfred Hitchcock (“Psicose”) por tê-lo inspirado a chegar a soluções criativas e criar suspense na trama. “Eu tive que ser engenhoso para descobrir como criar suspense e terror sem ver o próprio tubarão”, disse ele. “Hitchcock fazia isso e acho que Hitchcock foi um tremendo guia para mim na maneira como ele era capaz de assustá-lo sem que você realmente visse nada”.

Spielberg disse ainda que “foi uma sorte que o tubarão continuasse quebrando. Foi minha sorte e acho que foi sorte do público também, porque é um filme mais assustador sem vermos tanto do tubarão”.

O cineasta dirigiu recentemente o drama autobiográfico “Os Fabelmans”, seu primeiro filme premiado num festival – venceu o Festival de Toronto – , que chega aos cinemas brasileiros em 9 de fevereiro.

Assista abaixo ao trailer de “Tubarão”.

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Daniel Medeiros

Daniel Medeiros é membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e doutor em Ciências da Linguagem. Na última década, tem se dedicado à pesquisa sobre o cinema de terror contemporâneo. Também comanda o blog, canal e podcast 7 Marte.

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