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Divulgação/Miramax

Etc|4 de outubro de 2022

Meghan Markle critica “Kill Bill” por estereótipo asiático. Lucy Liu diz que isso é racismo

Meghan Markle voltou a seu podcast para criticar os filmes “Kill Bill – Volume 1” (2003) e “Austin Powers em o Homem do Membro de Ouro” (2002) pela sua representação negativa e estereotipada das mulheres asiáticas.

No episódio mais recente do podcast “Archetypes”, Markle acusou esses e outros filmes de representarem aquilo que ficou conhecido como a “Dama Dragão” (Dragon Lady), um estereótipo usado para definir mulheres asiaticas como fortes, dominadoras, misteriosas e sexualmente atraentes.

Entretanto, a atriz Lucy Liu, que estrelou “Kill Bill”, já desbancou essa acusação, chamando a própria afirmação de racista.

“Filmes como ‘Austin Powers’ e ‘Kill Bill’ apresentaram essas personagens de mulheres asiáticas como sexualizadas ou agressivas”, disse Markle. “E não são apenas esses dois exemplos, há muitos outros. Isso se infiltrou no nosso entretenimento. Mas esse estereótipo tóxico de mulheres de ascendência asiática não termina após a exibição dos créditos dos filmes.”

A convidada de Markle no podcast foi Nancy Wang Yuen, que escreveu sobre o estereótipo da “Dama Dragão” no seu livro “Reel Inequality: Hollywood Actors and Racism”. Yeun contou o caso de um homem que gritou para ela a frase “me so horny” (eu tão excitada), originalmente dita por uma prostituta vietnamita no filme “Nascido para Matar” (1987).

“Eu mesma fui abordada em um aeroporto em Atlanta por um estranho que disse: ‘me so horny’. Ele apenas gritou isso para mim”, contou Yeun. “Eu sabia o motivo porque olhei em volta e vi que eu era a única mulher asiática naquele local. Eu sabia que ele estava falando comigo, embora eu nem saiba se ele tinha visto ‘Nascido para Matar.’”

Vale apontar que a frase foi sampleada num hit do grupo de rap 2 Live Crew, que fez muito mais sucesso que o filme na época.

De todo modo, Lucy Liu, a suposta dama dragão de “Kill Bill – Volume 1″, já foi categórica sobre esse tipo de interpretação.

Em 2021, a Teen Vogue publicou um ensaio intitulado “Hollywood desempenhou um papel na hipersexualização das mulheres asiáticas”. Nesse ensaio, a autora India Roby definiu a Dragon Lady como uma personagem que “usa sua sexualidade como uma poderosa ferramenta de manipulação, mas muitas vezes é emocional e sexualmente fria e ameaça a masculinidade”. Roby, assim como Markle, citou a personagem O-Ren Ishii (interpretada por Liu) como um exemplo contemporâneo do estereótipo.

Porém, Liu contestou essa alegação. Em uma publicação no Washington Post, ela afirmou que a acusação não faz sentido, já que Quentin Tarantino, roteirista e diretor de “Kill Bill”, criou outras personagens femininas semelhantes para o filme. “‘Kill Bill’ apresenta três outras mulheres assassinas profissionais além de Ishii. Por que não chamar Uma Thurman, Vivica A. Fox ou Daryl Hannah de dama dragão?” Liu questionou.

“Só posso concluir que é porque elas não são asiáticas”, continuou ela, explicitando o racismo da acusação. “Eu poderia estar vestindo um smoking e uma peruca loira, mas ainda assim teria sido rotulada como uma dama dragão por causa da minha etnia”, acrescentou.

“Se eu não posso interpretar certos papéis porque os americanos convencionais ainda me veem como Outro, e eu não quero ser escalada apenas em papéis ‘tipicamente asiáticos’ porque eles reforçam estereótipos, eu começo a sentir as paredes da caixa metafórica onde nós, as mulheres asiáticas, somos colocadas”, concluiu.

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Daniel Medeiros

Daniel Medeiros é membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e doutor em Ciências da Linguagem. Na última década, tem se dedicado à pesquisa sobre o cinema de terror contemporâneo. Também comanda o blog, canal e podcast 7 Marte.

Divulgação/Netflix
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